domingo, 14 de dezembro de 2008

ANEDOTAS E CARICATURAS DA SEMANA


Ainda as faltas dos deputados

Uma boa parte dos deputados e a respectiva direcção parlamentar, faltam quando lhes convém, nem sempre quando necessitam. A imprensa descobre esse facto, de vez em quando. Está no seu papel.

No entanto, como eu comentava há dias, muito se disse ou falou sobre essas faltas dos deputados, mas tudo puras trivialidades, disfarçadas pela pretensa necessidade de alteração da lei eleitoral e da criação dos círculos uninominais, encaradas como remédio santo.

Mas, para além deste pormenor tão empolado pela imprensa, de tempos a tempos, e que ela própria, através dos seus comentaristas de opinião, critica de forma tão lateral, impunha-se que o tema fosse encarado com frontalidade, em vez das divagações palavrosas do costume, uma vez que foi levantado e apresentado ao público. A não ser assim, correremos o risco de o esquecermos mais uma vez, e de voltarmos a ele, dentro de algumas semanas, meses ou anos, conforme as conveniências jornalísticas. As faltas dos deputados irão continuar, com qualquer intervenção publicitária que seja feita, ou sem ela.

Pela minha parte, de momento, proponho-me apresentar alguns comentários, caricaturas e anedotas retiradas do que vi por aí, para tornar o meu texto menos ácido.O remédio já o dei anteriormente, noutro comentário.

Em primeiro lugar, já não é possível abstrair do mau exemplo dado pelos senhores deputados aos restantes funcionários públicos do País e aos alunos das escolas.

Caricaturalmente falando, um deputado comentarista de certa bancada dizia há dias que eles não são menos que os outros funcionários públicos e tinham todo o direito a faltar, por motivos justificados.

Um outro comentarista deputado, ex-chefe de bancada, defendia também que as sessões plenárias da Assembleia da República deveriam ter lugar apenas às terças, quartas e quintas, para que os deputados da Província ou das Ilhas pudessem passar os fins de semana alargados a que tinham direito, com a família!

Outros deputados tiveram o desplante (ou a coragem) de afirmar que o trabalho duro de deputado não se realizava no hemiciclo, mas nas reuniões das secções especializadas e nos trabalhos de campo, não faltando trabalho de casa, muitas vezes. E não ganhavam horas extraordinárias por isso...Culpava ainda a imprensa pela deficiente informação que dava ao público, limitando-se à transmissão insignificante de alguns momentos das sessões plenárias, etc.

Enfim, as coisas mais disparatadas foram ditas e escritas, e os remédios apresentados, para solucionar o problema, foram zero!

Mas há que referir ainda muitas mais situações algo caricatas desta telenovela.

O Presidente da Assembleia fez as necessárias e justas admoestações e remeteu o caso para as direcções das bancadas partidárias, responsáveis pelo cumprimento dos regulamentos internos. Acontece que, por exemplo, o responsável de uma bancada com 30 faltosos, 12 dos quais assinando a presença e faltando em simultâneo, resolveu convencer os mesmos a apresentar, à presidência da Mesa, um pedido de anulação da lei da avaliação dos professores, para seu desagravo. Hoje, certa notícia da imprensa, dava a conhecer que esse senhor falta entre 31 e 38% dos dias, o que explica cabalmente a medida tomada, completamente fora de contexto.

Também a moralizadora Presidente desse partido garantiu, há dias, que iria exigir justificações e penalizar os faltosos, impondo moralidade, mas o assunto parece ter ficado no tinteiro!

Outros comentaristas encartados, na maioria pertencentes à classe jornalística mas nem sempre isentos de conotação partidária, encheram páginas e páginas sobre a tão propalada modificação da lei eleitoral, a qual incluiria, fatalmente uma redução do número de deputados.

A anedota está em que todos sabemos que a questão das faltas não depende do número, mas da qualidade e da honestidade moral dos deputados! E, além disso, são os deputados, parte do processo, os únicos que poderão modificar a lei...

Mais outra anedota ficou a marcar todo este espectáculo. É que apenas um comentarista, do Jornal de Notícias, que eu saiba, pôs verdadeiramente o dedo na ferida, chamando os bois pelos nomes, tal como eu o havia feito no meu anterior comentário. As faltas são reprováveis, quando exageradas, injustificadas ou falsamente injustificadas, e as assinaturas de presença, nos casos de ausência, são puras situações de falta de honestidade completamente inaceitáveis. Eu diria mesmo que são imperdoáveis e dignas, no mínimo, de sanção disciplinar.!!!

Uma caricatura agreste é o facto do segundo Órgão Político da Democracia Portuguesa, estar parcialmente entregue a estes senhores que se comportam pior que crianças que fogem da escola para brincar às escondidas. Mas não se trata aqui de uma brincadeira de escola e os miúdos ainda não estão viciados nestas artimanhas, embora possam aprender depressa com estes exemplos...

O cúmulo desta série de anedotas está no facto de estes senhores fazerem parte de uma Assembleia Legislativa que impõe aos restantes portugueses o cumprimento rigoroso das leis como simples normas de civismo e de honestidade, como se tudo isto que foi noticiado fosse uma normalidade incontornável.

Por último, e pior ainda, esses deputados nem sequer têm vergonha ou sentem na consciência o desejo de pedir desculpa aos colegas cumpridores, aos cidadãos que neles votaram e lhes pagam os ordenados!

Também a Imprensa não sai incólume, nesta fotografia. Relata os factos com bombos e trombetas, critica pormenores sem importância com ferros em brasa, distrai os leitores dos verdadeiros pecados cometidos e encerra o caso até à próxima, sem indagar, ao menos, soluções correctas. Por isso, centenas de comentários e milhares de páginas irão parar ao lixo do esquecimento geral, sem apelo nem agravo. Não iriam servir para nada!

Também o meu texto não irá servir para nada, a não ser dar voz à minha consciência, e de uma forma muito pouco graciosa.

Todos estarão e acordo em que as anedotas e as caricaturas são geralmente motivos de risota, mesmo quando são cáusticas, mas este é um anedotário triste de um episódio da telenovela que se passa neste País que ainda referenciava, há alguns anos, nos seus livros de História Pátria, o exemplo daquele acto de suprema honestidade de Egas Moniz, de corda ao pescoço com mulher e filhos, por causa da honrada palavra dada em nome do seu rei...e não cumprida mais tarde por ele.

Isso foi há mais de oito séculos...

sábado, 13 de dezembro de 2008

TRIBUNAL DE CONTAS


As contas do Instituto Superior Técnico

Está estabelecida a «guerra» entre o Tribunal de Contas e o Instituto Superior Técnico, por causa das contas apresentadas por este, segundo o Tribunal, e pela sua interpretação legal, segundo o Técnico.

Qualquer coisa aqui não bate certo, porque a interpretação das leis é da competência dos Tribunais e a aplicação das contas que parece uma simples questão Técnica, deve ser feita de forma legal...Guerra difícil, complicada, com atiradores legais entrincheirados nas leis da República e defensores com técnica quanto baste para se protegerem.

Ainda não compreendi bem a razão pela qual os contendores, quando são de certo nível, como é o caso, levam a guerra para o terreno da Comunicação Social, quando a sua inteligência e conhecimentos aconselharia o estudo e a discussão em recato. A Comunicação Social é um terreno áspero, feito de altos e baixos, com fossos, paredes, armadilhas e arames farpados difíceis de transpor. Mais fácil seria, pois, dirimir as questões na calma dos gabinetes, apresentando razões, facultando e aceitando esclarecimentos com boa fé, sem a intervenção de terceiros. É assim que fazem os negociadores de tratados, de fusão de empresas, de instalação de programas, etc.

Infelizmente agora o que está na moda é enviar os diferendos para a Comunicação Social, não porque seja a Comunicação Social a esclarecer ou resolver o que quer que seja, mas porque é o veículo adequado para a confusão geral. Se não é possível aniquilar o adversário, levá-lo para o terreno da Comunicação Social é meio caminho andado para tentar confundi-lo, ao menos para obter uma paz sofrida, tanto faz que ele seja juiz, sábio, ou simples analfabeto. Geralmente é enviado um recado, uma bola ou bala certeira pela Comunicação Social e o desgraçado alvejado, se fica calado, se não responde na mesma moeda, está perdido. De nada valem, neste caso, as leis nacionais ou internacionais. Perde a última batalha aquela parte que desiste primeiro. Às vezes, a vitória é tão precária que ambos os contendores perdem a guerra!

O objectivo desta técnica é trazer os argumentos, os equívocos, os crimes encobertos para a opinião pública fazer o julgamento definitivo, o que é simplesmente enganador, porque os dados nunca lhe são apresentados de forma transparente, antes distorcidos, falseados, moldados a interesses mais ou menos visíveis dos contendores em presença.

O cumprimento das leis, e a justificação do seu incumprimento, coisas bem diferentes, são colocadas assim, propositadamente no mesmo plano.

Voltando ao princípio, o Tribunal de Contas parecia, devia ter razão, mas o I S T trouxe a guerra para o terreno da Comunicação Social, onde pode, pelo menos, baralhar o adversário.

Em última análise, como último recurso, passou para a opinião pública a ideia de que não cometeu crime, que interpretou bem a lei, que o Tribunal é que o não fez correctamente. Em última análise, baseou-se na lei da autonomia universitária, para dar prémios e subsídios aos seus funcionários ilegalmente, segundo o Tribunal de Contas, mas legalmente segundo a sua própria interpretação da lei.

Poderá chamar-se a esta tecnologia do I S T, em linguagem corrente, tentar a subversão total da Justiça, ao apresentá-la ante o público como ignorante, ineficaz, incompetente, tendenciosa, etc., para justificar a própria falta, para salvar a pele? Ou o Tribunal enganou-se, simplesmente?

Dentro de algum tempo saberemos.

Curiosa guerra esta, entre os especialistas em Direito, do Tribunal de Contas e a defesa das contas apresentada pelos professores do Instituto Superior Técnico, no terreno da Comunicação Social, local onde todos os contendores, mesmo os mais sábios, geralmente lavam a roupa suja, mas do qual nem sempre saem limpos.

É o esplendor de Portugal...

COMBOIO CERTEIRO


Sem consequências

Nunca tinha visto um comboio acertar numa árvore, mas um título que li na Internet fez-me pensar duas vezes. Dizia assim:

«Motorista (CP) ferido, mas passageiros ilesos». Já tinha passado à leitura de outros títulos, quando me lembrei de tentar decifrar a charada.

A primeira ideia foi a de que teria havido mais um acidente com alguma camioneta de passageiros, com o motorista descuidado, a estrada ou a viatura em mau estado, ou ainda algum condutor fora de mão...Por isso, não prestara grande atenção ao título, na primeira leitura, tanto mais que não havia mortos nem feridos graves, como é costume.

À segunda volta, reparei na CP entre parêntesis, pareceu-me algo estranho, pois as camionetas aparecem sempre como R N, e a curiosidade tomou definitivamente conta de mim. Cliquei no desenvolvimento da notícia e apareceu o título completo do Público de hoje:

«Motorista ferido, passageiros ilesos

Comboio embateu numa árvore na Linha do Douro»

Foi assim que me convenci, à primeira, de que o comboio tinha saltado da linha, havia andado por ali às voltas, até fazer a pontaria a uma árvore e catrapuz!

Claro que eu estava errado. O comboio tinha efectivamente embatido numa árvore, como dizia o título, mas na linha do Douro e não fora dela!

Como a linha é de pouco movimento, ocorreu-me ainda, por momentos, que algum malvado teria ali plantado uma árvore, para fazer pirraça à CP ou aos utilizadores da composição. Mas depressa abandonei essa ideia por tão absurda e decidi rapidamente iniciar a leitura do texto. Dizia assim:

«13.12.2008 - 12h23 Lusa

Um motorista da CP ficou hoje ferido quando a composição que conduzia entre Marco de Canavezes e Livração, na linha do Douro, embateu cerca das 10h20 numa árvore, anunciou hoje fonte da empresa.»

Como nada mais se especificava, o que me tinha ocorrido, verdadeiramente, era que o comboio embatera numa árvore em pé, coisa absurda para a CP e para o senhor jornalista, mas finalmente a minha fraca inteligência descobriu, olhando de viés para uma foto subjacente, que havia uma árvore caída na linha, provavelmente em resultado da enorme ventania que tem ocorrido nestes dias. Fora assim obrigado a um exercício exaustivo do meu intelecto, por culpa da informação da CP e do senhor redactor da notícia!

Provavelmente estou a ser algo injusto, e desde já peço desculpa.

Mas podiam ter redigido de outra maneira, para as pessoas broncas, como eu, perceberem melhor, logo à primeira.

Mas, pensando melhor, seria preciso? O texto era bastante simples, de uma exactidão a toda a prova, não se compadecendo com qualquer tipo de imaginação mórbida, ou com a ideia preconcebida de alguém querer saber algo mais...de tirar nabos da púcara ou de outra veleidade qualquer.

Realmente, nas linhas de caminho de ferro não se plantam árvores, e comboios certeiros a embaterem nelas não são, felizmente, o prato de cada dia. Já o contrário não é muito plausível, embora frequentes (ou talvez não) são as árvores que acertam nos comboios em andamento que passam ao lado...

Enfim, é tudo uma questão de palavras!

E foi assim que, por causa de um simples e preciso título do Público de hoje, me lembrei do final de uma anedota espanhola muito conhecida:

-«Coño, ombre, buena punteria!»,

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

PELOS MAUS MOTIVOS


Celebridades escusadas

Em 1781, no reinado de D. Maria I, o Intendente Geral da Polícia Pina Manique fundou a Casa Pia, que começou a funcionar no Castelo de S. Jorge e se destinava inicialmente a recolher órfãos e mendigos

Muito longe de pensar na projecção do colégio estaria, por certo, Pina Manique. Hoje, com valências de Internato e de semi-internato, a Casa Pia é um mundo.

Durante dois séculos de funcionamento exemplar, apoiou muitos milhares de jovens desprotegidos de ambos os sexos, ensinando-lhes regras morais, dando-lhes educação e instrução, armas necessárias para singrarem na vida. E muitos foram os que, saídos das suas escolas, mais tarde se notabilizaram e deram ao país um contributo notável e imperecível.

Mas lá diz o povo que no melhor pano cai a nódoa.

Há uns vinte ou trinta anos, começaram a correr rumores de casos de abuso sexual e de pedofilia com alunos da Casa Pia. A incredulidade geral fez com que as possíveis investigações não tivessem lugar a seu tempo e só há poucos anos fossem iniciadas com seriedade. A delicadeza e especificidade das investigações, por um lado, e a morosidade da Justiça, fez com que, passados seis anos de iniciados os processos, ainda hoje não estejam concluídos.

O nome sempre considerado da Casa Pia, referido sempre como exemplo, passou a andar nas bocas do mundo, pelos maus motivos, ganhando, pouco a pouco uma celebridade escusada., por maus motivos!

Parecia que, passado o vendaval da pedofilia, feitos os ajustamentos necessários na instituição, no plano administrativo e educacional, todos os antigos valores iriam ser recuperados, entrando a Instituição, de novo num rumo certo, em velocidade de Cruzeiro.

Hoje, porém um facto novo veio demonstrar que não era assim. Um aluno de 18 anos foi esfaqueado numa rixa interna, cúmulo de cenas de pancadaria e agressões que vêm tendo lugar, desde há muito, sem remédio acertado, de acordo com testemunhos da vizinhança local.

A violência tem vindo a crescer nas nossas escolas, à semelhança do que se passa no mundo inteiro, fruto do esquecimento ou abandono generalizado das ancestrais normas da moral e da convivência. Mas por que motivo haveria a Casa Pia de colocar-se na vanguarda, mais uma vez pelos maus motivos?

Protagonismos destes seriam bem escusados.

Quem imaginaria que, nas traseiras do Mosteiro dos Jerónimos, o monumento emblemático dos Descobrimentos, dos valores morais e do heroísmo do nosso povo, visitado com respeito e espanto por milhares de turistas ao ano, uma escola, até há alguns anos tomada como exemplo, se tornaria célebre no mundo inteiro, pelos maus motivos?

D. Maria I e o Intendente Pina Manique devem estar a revolver-se no túmulo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

MANOEL DE OLIVEIRA


O corredor fundo

Já tudo foi dito de Manoel de Oliveira. O director de cinema com oitenta anos de carreira, e o mais velho do mundo em actividade, começou a sua vida de adulto como corredor de automóveis!

Cedo concluiu que essa não era a sua vocação e enveredou por aquilo de que gostava, o cinema, transformando-se assim, num autêntico corredor de fundo.

Neste dia, «ao chegar aos cem anos, Oliveira deverá, pela primeira vez na vida, concluir num prazo de três meses duas longas-metragens. Prepara, neste momento em que completa o centenário, o seu quadragésimo segundo filme que deverá ser apresentado no início de Fevereiro, no Festival de Berlim. O próximo projecto já tem data para ficar pronto: o Festival de Cannes, em Maio».

É obra!

Quem o vê, no pequeno ecrã, dando entrevistas, ou na cadeira de director, em pleno trabalho de filmagem, não imagina a idade que tem. Mais inimaginável ainda é ouvir os projectos que ainda se propõe levar a cabo, com a mesma inteligência e simplicidade com que dirigia o célebre Aniki Bobó, em 1942!

As homenagens que lhe têm sido feitas são inteiramente merecidas. Para mim, duas referências, tiradas de uma entrevista à BBC, definem o homem que «recusa fazer produções comerciais e não faz nada pensando no público que vai assistir aos filmes.» Diz também, a esse respeito: "Não penso no público porque não entendo essa palavra. Públicas são as cadeiras, as salas. As pessoas não são públicos, mas cada um com sua identidade própria e uma forma muito particular de ver e viver."

É assim que, no meio de tanto oportunismo, Manoel de Oliveira, com cem anos de idade mas de espírito perfeitamente lúcido, continua a seguir o seu caminho, honestamente, tranquilamente, sabiamente, na sua personalidade inconfundível de sempre.

Coisas muito raras, nos dias de hoje.

DEPUTADOS A MAIS


Responsabilidade a menos

Depois da cena dos fantasmagóricos deputados que assinaram o ponto e sumiram, muitos artigos foram escritos na Comunicação Social, quase todos com conotações políticas mais ou menos demonstradas, nem sempre assumidas. Isso é normal em democracia e na nossa imprensa que se diz sempre neutra, mas nem sempre o demonstra.

O que é grave, nos comentários vindos a lume, é uma certa tendência inicial para o espectáculo mediático de primeira página, logo seguido do branqueamento da culpa!

Os senhores deputados, inicialmente atacados, de todos os lados, viram-se, pouco tempo depois, justificados, para uns não fazendo mais que os restantes portugueses, para outros fazendo-se vítimas da falta de controlo dos chefes de bancada e do próprio sistema eleitoral da Constituição da República que deveria ser mudado rapidamente, para outros ainda sofrendo das ausências da família que os fins-de-semana serviriam para minorar, etc. A técnica da alteração do sistema eleitoral foi o comentário mais ouvido e lido, como de tivesse alguma coisa que ver com as faltas e a vigarice das assinaturas dos senhores deputados, ou a repetição das mesmas daqui a algum tempo...

Por que será que os portugueses, com a Comunicação Social à cabeça, têm uma tendência inata para desviar, para lateralizar o centro das questões? Porque será que essa mesma Comunicação Social que rapidamente tem entradas de Leão, em pouco tempo arranja saídas de Sendeiro?

Batista Bastos, no DN de ontem, diz que "O incidente do prolongado fim-de-semana dos 48 deputados dá que pensar. Pensar que a dignidade das funções, quaisquer que elas sejam, depende do carácter e da integridade de quem as exerce. E em torno destes princípios devemo-nos unir ou separar". Mas se a falta é uma necessidade, um erro ou uma irresponsabilidade, a assinatura viciada é um acto de desonestidade sem discussão, sem perdão!!!

Longe de mim fazer juízos de valor ou simples conjecturas, mas o português médio por certo os fará, com lógica indesmentível, apoiado num sexto sentido infalível que o povo tem, nestes casos. Os deputados faltosos erraram. Alguém comentou já que «tinham dado um tiro no pé», mas os deputados que assinaram uma falsa presença deram um tiro na sua consciência. Não se lavaram da culpa, não pediram desculpas aos cidadãos que os elegeram nem mostraram arrependimento, antes tentaram arranjar, por portas travessas, desculpas de mau pagador! Não merecem continuar no hemiciclo, seja qual for o partido a que pertençam. Mal irá aos responsáveis partidários, que tantas vezes falam na defesa dos princípios morais, se fizerem o branqueamento da culpa, como parece que vai acontecer. Onde está a sua vergonha?

Não sei se a tão propalada alteração da lei eleitoral, que está a ser erguida estrategicamente em passa-culpas, seria benéfica ou não para o país. Mas numa coisa estou de acordo: é preciso diminuir o número de deputados e torná-los mais cumpridores, mais responsáveis, mais eficientes, mais honestos, menos faltosos.

Há deputados a mais.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

DEPUTADOS DE FACHADA


A vigarice das marcações de ponto

Numa votação importante ocorrida há dias, na véspera de uma «ponte» de fim-de-semana prolongado, suas excelências, os senhores deputados resolveram faltar a uma votação importante e que se antevia renhida, alijando as suas responsabilidades e desmerecendo das atribuições que o povo lhes havia concedido. Já não é a primeira vez que tal coisa acontece, numa habitual falta de profissionalismo e de honestidade, para nossa própria infelicidade. É caso para nos interrogarmos se alguns deputados da Assembleia da República são autênticos, ou só de fachada.

Ter deputados que não cumprem com as suas obrigações é um sinal de laxismo transmitido por uma das instituições políticas mais importantes do país, um mau exemplo de cidadania para todos os portugueses e que deveria cobrir de vergonha os seus autores.

O senhor presidente da Assembleia da República, visivelmente chocado com o acontecimento, já admoestou ou os senhores deputados: "Vejo a necessidade básica de haver sentido do dever, cumprimento dos mandatos, assiduidade. Ser deputado não é beneficiar de um direito, é contrair um dever para com os eleitores.» Os deputados «são eleitos para comparecer às reuniões plenárias e das comissões».

Mas acho que o Presidente deve exigir mais que isso, porque muito mais grave é a vigarice das assinaturas de presença de alguns destes senhores.

Verificou-se neste caso que, tendo faltado à votação, 48 deputados, apenas 35 deles assumiram realmente a falta, uma vez que os restantes 13 faltaram (sendo 1 do partido do governo e 12 dos partidos da oposição), e assinaram a respectiva presença no livro de ponto! Trata-se de um acto inaceitável!

Por marcação indevida do cartão de ponto, numa empresa onde trabalhei, obriguei eu ao despedimento de dois funcionários, já lá vão umas três dezenas de anos. Mas isso era noutros tempos! Agora a permissividade, o laxismo e a vigarice chegam até aos deputados da nação, àqueles que deveriam dar o exemplo e as praticam como um acto trivial da vida corrente.

Mais absurdo é que ninguém parece importar-se com isso, neste Portugal de paisagens paradisíacas, mas horrível quando olhado de perto, país onde todos se queixam de tudo, mas onde ninguém faz nada para corrigir as fortes e constantes razões de queixa. Ora Fátima não pode resolver nada, no campo da matéria, nem que se façam peregrinações de joelhos, diariamente.

Aqui, onde o sol, que tantos habitantes de outros países ambicionam, brilha todo o ano sem esforço nem custos para ninguém, onde toda a rapaziada é pouco dada à persistência, onde a desistência é uma constante, tudo fica sempre a meias, por falta de verba, de meios, de vontade política, ou por razões ou interesses inconfessáveis, enfim, por comodidade ou mera falta de disposição. Vaticino que assim acontecerá, mais uma vez, depois de tanto alarido da imprensa, honra lhe seja feita, neste caso das faltas mascaradas dos deputados à Assembleia da República.

Agora, por exemplo, até seria bem fácil corrigir o que aconteceu, de uma forma exemplar, promovendo a admoestação com penalização dos faltosos e a expulsão com substituição pura e simples dos deputados vigaristas! Rápido e eficaz!

E, para quem não mostra a responsabilidade nem o profissionalismo que exige aos outros em discursos ou declarações pomposas para a plateia, devia ser instituído na Assembleia da República o sistema de marcação de ponto digital em cada secção, com aposição do dedinho indicador, tal como foi aplicado aos médicos, nos hospitais. E porque haviam os senhores deputados de ser excluídos deste sistema de vigilância, quando já deram provas inequívocas de merecê-lo?

Era bom de mais. Desconfio que alguma solução pífia colherá consenso entre os partidos membros da Assembleia.

Além disso, tudo se esquecerá rapidamente, como se a maioria dos portugueses estivesse apanhada pela doença de Alzheimer. Quem ainda se lembra das viagens fictícias a Bruxelas, facturadas e cobradas por alguns desses «honestos» representantes da nação?

O Natal está à porta. E lá no fundo, somos todos boa gente!