Crónicas e comentários é um conjunto de textos baseados, maioritariamente, nas notícias vindas a lume na imprensa, mas também em outras variadas fontes e julgadas interessantes de apreciação pelo seu autor, independentemente do conteúdo.
Foi num desafio de basquetebol, a contar para a I Taça do Mundo da modalidade.
Como Portugal raramente ganha, nesta modalidade e em tantas outras, trata-se de um facto extraordinário.
A notícia vinha ontem na imprensa, numa página interior, o que, nestas circunstâncias, não é muito normal. O mais corrente é aparecer logo nas primeiras páginas, em parangonas ocupando várias colunas, com letras negras de tamanho a condizer.
O Zé olha logo para aquilo, devora a notícia num ápice e, ainda meio desconfiado, volta ao princípio, quase não acreditando no que os seus olhos estão a ver...
Foi o que aconteceu comigo, ao deparar com o título a negro sugestivo: Portugal bateu a Rússia
Como não sou muito dado a desporto e coisas parecidas, não prestei grande atenção e passei adiante, à página seguinte, a ler notícias de grande interesse, nesta época de crise em progresso.
Algo perpassou, entretanto, pela minha mente, num alerta brusco do subconsciente e resolvi regressar à página anterior. Era mister investigar o que estava subjacente ao título.
E foi então que, para minha estupefacção, surgiu o texto espectacular:
«Portugal bateu a Rússia, por 42-38, e ganhou a medalha de prata da I Taça do Mundo de Basquetebol para pessoas com deficiência intelectual! Foi um jogo muito difícil, mas estivemos quase sempre a ganhar. Foi uma partida muito defensiva de ambas as partes, mas conseguimos ganhar e este é um lugar honroso para todos nós, afirmou o seleccionador Fausto Pereira». Cheio de orgulho, subentende-se.
Ora aí está como Portugal não é tão mau como alguns o pintam!
O que é preciso é insistir, persistir, ir a todas, nunca desanimar, nunca deixar apagar a chama que arde em cada português com dois dedos de testa, pois se até os deficientes intelectuais ganham e nos dão esta grande lição...
Exultei de contentamento. Até que enfim mostramos ao mundo que somos bons nalguma coisa! Viva Portugal!
Mas, passados uns momentos naturais de euforia patriótica, ocorreu-me perguntar a mim próprio, por que nas outras modalidades não conseguimos tão bons resultados? E, após uns minutos breves de reflexão, descobri que o mal está, provavelmente, nos deficientes intelectuais seleccionados!
Em toda a minha vida me senti avaliado por toda a gente que me conheceu, em todo o tempo e em qualquer lugar, relativamente às minhas qualidades, defeitos, trabalho e deveres, ou simples gostos e aptidões artísticas, exigências religiosas, políticas, económicas, familiares, gastronómicas, etc. ...
Se percebia que estava a ser avaliado, quase sempre fazia os possíveis para ser mais considerado aos olhos do avaliador, sobretudo quando supunha que a avaliação teria sido menos positiva ou até negativa. Raramente me deu para encolher os ombros e voltar as costas aos problemas, mesmo quando sentia algum desconforto. Nunca me senti chumbado!
A avaliação a que fui sujeito começou mesmo antes do nascimento e só acabará muito depois do meu desaparecimento do reino dos vivos. É um caso de desequilíbrio gritante, relativamente à minha capacidade de avaliação, pois só a partir dos três ou quatro anos comecei a ter alguma consciência da minha capacidade de avaliar os outros e ela acabará com o fim dos meus dias, ou até antes, nunca se sabe!
Exerci, em toda a vida, o meu direito de avaliação, coisa que a liberdade não só permite, como incentiva a todo o cidadão que se preza.
Avaliar e ser avaliado fazem parte do ego, porque são qualidades inerentes à raça humana, tal como a necessidade de avaliar-se a si próprio, coisa que nem toda a gente, contudo, consegue fazer...
Gostar ou não da avaliação que fazem de nós, ou da avaliação que fazemos dos outros, é outra coisa bem diferente.
Com o passar dos anos, à medida que deixamos de ser avaliados de forma tão rigorosa pelos outros, provavelmente porque a velhice nos torna alvos menos apetecíveis pelos críticos, também essa mesma velhice nos torna mais lúcidos, mais compreensivos dos erros ou das extravagâncias dos mais novos, mais tolerantes e menos críticos dos outros em geral...
Por isso, compreendo muito bem a posição negativa dos senhores funcionários públicos, dos senhores professores, etc., relativamente à avaliação que o Ministério da Tutela lhes quer impôr. É que todo o mundo tolera a avaliação de que é alvo constantemente, na vida diária, mas não aquela que tem objectivos determinados, como esta, a apreciação do seu bom desempenho profissional através de parâmetros múltiplos que responsabilizam, que envolvem futuras progressões de carreira, que acabam por determinar classificações e desigualdades reais entre os avaliados, sobretudo num universo actual de igualdade mal disfarçada apenas pelas diuturnidades automáticas até ao fim da vida e pouco mais.
Uma avaliação com vista à separação do trigo do joio, apoiada à partida por toda a gente, de um modo geral, é difícil de aceitar no plano particular onde cada um, no seu pequeno mundo, deita o olho para o parceiro do lado e se julga sempre superior, quando muito, igual a ele.
É o que se passa com os senhores professores. Não querem, no fundo, a avaliação do seu profissionalismo por receio de uma má classificação ou de eventuais dificuldades na subida da carreira docente. Justificam a sua posição com aspectos burocráticos do problema, mas querem realmente ter a parte de leão na elaboração de todo o sistema de avaliação, de forma a fazê-lo a gosto, com plena segurança futura na progressão automática da carreira, numa inversão total da pirâmide educacional e administrativa.
Também os alunos do ensino público, ainda imberbes, têm aprendido muito com os exemplos de alguns pais e professores, protestam sobre as aulas de substituição e não querem a sua avaliação de faltas excessivas através de justificações e exames. Pudera, as justificações por vezes são complicadas e os exames dão trabalho, e não só...
As leis podem ser boas ou más, muitas vezes só a longo termo se pode vir a saber, mas são para cumprir, em qualquer parte. Ou não, em Portugal?
Efectivamente, já não sei para que servem as leis, no meu País, antigamente de gente analfabeta, cumpridora e educada, embora vivendo em ditadura, e hoje de cidadãos letradas, laxistas e malcriados, embora democraticamente livres...Não acredito que o mal esteja na Democracia, mas sinto que os portugueses ainda têm um largo caminho a percorrer para se enquadrar totalmente nela, como cidadãos exercendo os plenos direitos que ela lhes confere e os deveres a que os obriga...
Enfim, na minha avaliação destes problemas, penso que muito mais fácil teria sido deixar tudo como estava antes, já que o laxismo e os interesses particulares são sempre questões de ultrapassagem difícil e qualquer tentativa imposta com critérios demasiadamente rigorosos, profissionais, cívicos, morais, iria esbarrar neles, infalivelmente.
Não só neles. Por mais legal que fosse, uma avaliação deste tipo iria sempre esbarrar nos politiqueiros de serviço, nos ovos e nos tomates dos supermercados.
Veremos se a administração, contra ventos e marés, mas de acordo com a lei, ainda tem tomates para levar a avaliação até ao fim...
É que surgiu uma terceira via. Segundo manifestaram alguns oportunistas, a solução seria desde já fazer uma avaliação suave de alunos e professores, de modo a contentar todos, neste país de educação exemplar pelos maus motivos, e dar a todos os avaliados, automaticamente, a classificação de «Bom».
Ainda o campeonato vai no começo e já começam a ver-se sinais de descontentamento acerca das arbitragens. A coisa só foi mantida num perfil baixo, enquanto não apareceram os grandes jogos, isto é, os jogos entre os grandes do pequenino futebol nacional.
Era fatal, como o destino, que evoluísse para um plano mais elevado!
Pessoas tradicionalmente calmas e educadas perdem então a sua compostura e insultam os árbitros do encontro, a Associação de Árbitros, a Liga, a Federação de Futebol e até a tutela governativa, acusando-os de não tomarem nunca as medidas necessárias ao saneamento definitivo dos magnos problemas da arbitragem que só em Portugal, país da cauda da Europa, tinham lugar...
Mas isto é só o começo.
Mais tarde, as apreciações negativas costumeiras aparecerão e repetir-se-ão por causa da arbitragem a jogos de terceira ordem...mas em que esses mesmos grandes, com grande espanto dos «tifosi» imprevistamente perdem pontos, na corrida para o título ou são eliminados da Taça de Portugal.
Durante alguns anos, foram os grandes de Lisboa habituados a mandar na Federação e na Liga de Futebol, com títulos que eram favas contadas e irmãmente repartidos. Depois, pouco a pouco, a supremacia do futebol, o número de clubes e as suas classificações começaram a ir para o Norte e, a partir de certa altura, o desespero apoderou-se dos adeptos e dos presidentes sulistas que tinham passado à categoria de vencidos sistemáticos. Não conseguindo inverter a situação, deram início a uma campanha tremenda de culpabilização da arbitragem e dos clubes sombra, especialmente um grande do Norte anteriormente sempre vencido e agora ganhador da maioria dos títulos em jogo, desde há uns anos a esta parte.
Nesta guerra de interesses que já movimenta vários milhões, mesmo em Portugal, ficar calado seria quase impossível a qualquer dirigente de um dos grandes. Eles têm que resguardar o seu posto com unhas e dentes, perante sócios e adeptos, e a melhor maneira encontrada, muitas vezes, é a fuga para a frente consubstanciada em comunicados tendenciosos à imprensa, nas vésperas de jogos importantes, prevenindo contra eventuais arbitragens a favor dos adversários ou contra jogadas ocultas dos seus dirigentes. E muitos destes respondem à letra.
Assim vai o Futebol Nacional, com a troca diária de piropos e a culpabilização instituída das arbitragens, quando as coisas não correm bem dentro do campo, porque o que interessa é ganhar pontos...
Agora, para que tudo fique bem claro...ou não, só falta que a Justiça cumpra o seu dever. Mas, os resultados são morosos e incertos.
Quanto ao futebol jogado pelas equipas, ele anda pelas ruas da amargura, mas isso não interessa a ninguém.
Ora tudo isto teria concerto muito simplesmente, instituindo as arbitragens a gosto do cliente!
O Instituto de Meteorologia deu chuva para quase todo o país, mas não se lembrou de que hoje era o Verão de S. Martinho comemorado desde há centenas de anos, em todos os cantinhos deste Portugal tristonho a 11 de Novembro.
Não sei se será bem assim, nestes tempos difíceis que atravessamos.
Longe vão os tempos em que as gentes se reuniam à porta das adegas e no largo da Terra, com a fogueira e o assador das castanhas em azáfama plena. Bebia-se água-pé, provava-se o vinho novo, os mais velhos contavam uns aos outros umas quantas patacoadas do seu tempo de tropa, dançavam os mais novos enquanto as mães atiçavam o lume, com as castanhas a estoirar, de vez em quando. As mãos que as descascavam ficavam tisnadas e iam, mesmo assim, enfarruscar os parceiros de paródia, entre duas rodadas de água-pé...
Noutras terras o costume era de tipo mais familiar. Mas havia por aí muitas variantes da festa, quase tantas como as povoações que comemoravam o S.Martinho, e eram quase todas.
À medida que os castanheiros velhinhos foram apodrecendo, as castanhas, antes quase um alimento principal de muitas aldeias transmontanas e beirãs, foram também rareando, resguardando-se para as ocasiões especiais. Por outro lado, com a fuga dos habitantes para as cidades, os supermercados resolveram, chamando ao sentimento tradicional das gentes, numa assomada de propaganda e negócio comercial puro, ressuscitar ali mesmo as comemorações do S. Martinho, a nível familiar, vendendo as castanhas com os assadores de barro e a água-pé industrializados quanto baste, os elementos necessários todos a preços pouco convidativos...
Também a carestia da vida faz com que os vendedores de castanha assada sejam cada vez menos, nos centros mais movimentados das cidades. Lá vão batendo os pés e esfregando as mãos friorentas, empurrando os seus triciclos, abanando de vez em quando o lume dos assadores de barro. Ainda embalam, como dantes, cada dúzia das quentes e boas em papel de jornal, mas começam a ver o seu negócio ameaçado, dado o preço que afugenta os clientes. O seu negócio já não é como era.
Também as castanhas já não são como eram. Há dias, mesmo em frente ao Centro Comercial Colombo, comprei uma dúzia de treze, acabadinha de assar, obséquio do vendedor, que empacotava nas páginas de anúncios do DN., que me deixou muito grato e sensibilizado. Deliciei-me com as duas primeiras castanhas do pacote e, como estava com pressa, meti-me no carro e apareci em casa com as restantes, fazendo uma oferta surpresa à minha mulher. Resolveu logo ali provar o acepipe inesperado, e o certo é que as dez seguintes saíram podres! Ela protestou que eu fora embarretado, e deixou a última para mim, como vingança, dizendo simplesmente, «não quero mais, essa come-a tu!» E, quando eu lhe tirei a casca, devagar e meio desconfiado, saiu uma castanha boa, cheirosa, por pirraça. Já não voltarei mais a comprar castanhas assadas ao tal tipo simpático do C.C.Colombo, mesmo que me acene com dúzias de vinte e quatro!
Os pratos de castanha que antigamente eram coisa corrente, como a carne de porco com castanhas, o puré de castanhas, o doce de castanhas, a sopa de castanhas, por vezes feita com castanhas piladas que já não se encontram, etc., transformaram-se hoje em acepipes refinados, inventados e cozinhados por chefes de restaurantes caros. A última vez que provei um prato à base das ditas, foi na aldeia do Sabugueiro, num passeio à Serra da Estrela, já há anos e mais ou menos por esta altura, onde me serviram um divinal, inesquecível guisado de borrego com castanhas!
Há duas ou três horas, aproveitando o dia magnífico sem vento e sem nuvens, a contrariar as previsões de Antímio de Azevedo e seus pares, fui dar um passeio à praia e esticar as pernas pela beira-mar, gozando por momentos as delícias de um sol sem nuvens já a caminho do ocaso, com as ondas a rebentar tranquilamente, na vazante, e as gaivotas a fazer voos rasantes de endoidecer...
Decidi passar depois pela Biblioteca Municipal e requisitar «O Estrangeiro» de Albert Camus, que há muito tinha desejo de ler. E, enquanto a menina fazia o registo no computador, olhei distraidamente para um prospecto estrategicamente colocado sobre o balcão. Convidava os leitores a uma sessão musical, pelas 21 e 30, acompanhada de uma degustação de castanhas assadas com água-pé, comemorando o dia de S. Martinho!
Foi aí que soube que hoje era o dia 11 de Novembro, e vim escrever...
«A Igreja do Santo Sepulcro, um dos locais mais venerados da cristandade, foi ontem palco de pugilato entre monges ortodoxos gregos e padres arménios. A polícia israelita acabou por intervir e deteve um padre arménio e um monge ortodoxo grego.»
Não vale a pena entrar em pormenores sobre o insólito caso, mas interessa fazer sobre ele algumas considerações óbvias.
Desde a construção do primeiro templo, sobre o local onde Cristo teria sido crucificado e sepultado, ordenada por Santa Helena, mãe do imperador Constantino, nos meados do século IV, várias destruições, reconstruções e restaurações tiveram lugar, até aos últimos restauros, ocorridos entre 1863 e 1869. Por ali passaram, entretanto, guerras, invasões, cruzadas, latrocínios e destruições sem conta, só se restabelecendo uma relativa ordem, acalmia e tolerância entre as várias religiões, com a intervenção do Império Otomano, por muito incrível que possa parecer.
Só estes factos, sem entrar em mais pormenores, pressupõem uma carga emocional e material elevadíssima, não só aos cristãos em geral, mas aos próprios gestores do lugar santo. Os três principais gestores são a Igreja Católica Romana, a Igreja Ortodoxa Grega e a Igreja Ortodoxa Arménia, mas «o controlo deste antigo templo, situado na Cidade Velha de Jerusalém, é dividido entre seis Igrejas Cristãs o que, em si mesmo, é já razão para tensões e alguns desentendimentos.»
As regras de coabitação entre as várias Igrejas foram estabelecidas pelos turcos otomanos em 1852, segundo um «Status quo dos Lugares Santos», confirmado em 1878 pelo tratado de Berlim. Ainda assim, o próprio templo tem sido bastante prejudicado pela ausência de consenso entre as partes. «Por exemplo: apesar do perigo, uma saída de incêndio continua sem ser construída, porque não há consenso e uma escada de madeira, que foi colocada sobre a entrada do templo no século XIX, continua no mesmo local porque não há acordo sobre quem tem autoridade para a retirar.»
No meio de tantos problemas e, sobretudo, devido à sensibilidade e à intolerância religiosa existente entre os diversos irmãos em Cristo, cenas pouco recomendáveis teriam que acontecer. Desta vez, a discussão violenta ocorreu entre cristãos arménios e gregos, mesmo no meio de uma procissão local, impedida de atravessar o templo pelos opositores. Com o Santo Sepulcro em pano de fundo, alguns monges e padres das duas facções foram-se agredindo violentamente, fazendo feridos e derrubando até um estandarte rival...
O caso só terminou com a intervenção salvadora da polícia israelita, donde se conclui que nem as polícias são tão violentas como se diz, às vezes, nem as religiões tão pacíficas como apregoam ao mundo, mesmo em nome de Cristo, ali crucificado e sepultado!
No final, já com os ânimos acalmados, embora provavelmente não convencidos, todos proclamaram à imprensa que o lugar Santo não era o lugar adequado a cenas de pancadaria. E, no entanto, será difícil saber se, no seu íntimo, monges gregos e padres arménios terão pedido desculpa aos seus semelhantes, ou aceitado deles o perdão eventualmente solicitado, como as suas igrejas costumam recomendar aos fiéis, em circunstâncias idênticas.
O triste e simultaneamente caricato destas questões é que estas igrejas cristãs se julgam, inflexivelmente detentoras da verdade absoluta, mesmo nas coisas mais insignificantes, motivo pelo qual são muitas vezes os gentios ou as forças policiais a delimitar as respectivas fronteiras ou zonas de influência e apaziguar estes «pacíficos» beligerantes.
Assim aconteceu com os turcos, em 1852 e agora com a polícia israelita!
Donde se conclui que o radicalismo e a intolerância, causadores de tantos males à Humanidade, deveriam ser evitados a todo o custo, não só na vida civil, como na religiosa. Já Cristo pregava o mesmo há dois mil anos e infelizmente nem sempre foi ouvido, como a História relata. Pelos vistos, ainda hoje vários dos seus discípulos não conseguem interiorizar esses ensinamentos, nem para consumo próprio e na Basílica do Santo Sepulcro!
Agora estão na moda os contentores, por razões económicas ou por apreciação panorâmica. E assim, vá de recorrer-se a petições à Assembleia da República, uma já chamada lírica, e a outra selvagem, conforme os peticionários... Ambas invocam, com argumentos diversos, o mesmo objectivo de melhorar a qualidade de vida dos habitantes de Lisboa.
Deixá-los lá a fazer assinaturas, como gente civilizada, ou a ranger os dentes nos intervalos, como descendentes dos selvagens, porque não estou interessado em qualquer das opções. Prefiro historiar e brincar, à minha maneira, com a evolução dos panoramas da cidade e arredores.
O Tejo devia ser, em tempos que já lá vão, um curso de água selvagem e bonito, mesmo nas proximidades da actual cidade de Lisboa. Nessa altura, com toda a certeza, os habitantes seriam raros nas suas margens, andariam descalços, quase nus, e não deitariam latas de coca-cola, nem sacos de plástico, ou outras barbaridades modernas para as suas águas transparentes. Tudo era, então, uma autêntica selvajaria, uma agradável selvajaria de gentes, animais e panoramas vastos até ao infinito. Mas todas as coisas boas (?) têm um fim, neste caso um fim selvagem...
O que estragou tudo, desta vez, foi mesmo a inteligência desses tais selvagens. Eles tinham mesmo inteligência, como se provou (embora alguns sábios e religiões duvidassem disso até há pouco tempo, no caso de algumas raças) e resolveram, inteligentemente, mudar a selvajaria que os rodeava em seu proveito, sempre com o objectivo, cada vez mais acentuado, de tirar um maior rendimento das suas ideias e transformações. E dessa forma, esquecendo muitas vezes os selvagens seus semelhantes, ou aproveitando-se deles ao máximo, nasceu lentamente a civilização e o capitalismo liberal dos nossos dias.
Mas muito antes disso, já no século XII, D. Afonso Henriques, por exemplo, não achou Lisboa e o Tejo aquela selva primitiva adorada pelos celtas ou cantada pelos poetas medievais, embora se rendesse à selvajaria dos cruzados francos e flamengos na tomada da cidade, poluindo o panorama do rio com o sangue dos seus defensores.
No apogeu da gloriosa Época dos Descobrimentos Portugueses, já o Tejo, em volta de Lisboa, era muito menos selvagem, e as suas margens pouco menos. As gravuras dos séculos XV e XVI mostravam as construções do Paço da Ribeira, rodeadas pelos armazéns de mercadorias e pelos sacos empilhados um tanto desordenadamente, porque o espaço ainda não faltava. As naus, as caravelas, as chatas, os barcos de cabotagem e os barquitos a remos, baloiçavam mesmo ali defronte, como um formigueiro e os carpinteiros trabalhavam nas reparações e construções navais, também não muito longe dali....Era um panorama de trabalho.
Provavelmente o rei assomava, de vez em quando, a uma das janelas do seu palácio de dois ou três andares, no máximo, e podia enxergar todo esse limitado panorama, com toda aquela gente a trabalhar para ele, ali pertinho, enquadrada, à cautela, pelos quadrilheiros e arcabuzeiros reais. Era uma beleza!
Já os nobres que subiam a cavalo um pouco mais alto, em passeio de espairecimento, ou se sentavam, ociosos, nas suas propriedades ou palácios em sítios estratégicos, conseguiam ter um panorama muito mais vasto que a família real, espraiando a vista até à outra margem longínqua. Mas era um panorama bizarro, porque podiam ver-se também as filas ou grupos de escravos, amostras da vida selvagem de outras paragens, ali conservadas e mantidas à força, e que lá em baixo carregavam os sacos das suas encomendas ou os barris de água para atestar as naus de longo curso. Igualmente a guarnição que se acantonava no Castelo de S. Jorge e a rapaziada que corria nas ruelas de Alfama e da Mouraria tinham direito a imagens semelhantes, com pequenas variantes. Mas tão corriqueira aquela vida se tornava que ninguém ligava nenhuma aos panoramas, quais quer que eles fossem.
Alguns eram, efectivamente, panoramas de veras interessantes, o que levou à cobiça dos reais senhores. Por isso se foram mudando aos poucos dali, daquela zona de panorâmica tão limitada, para as Necessidades e para o Alto da Ajuda, donde poderiam alcançar muito mais longe. E a nobreza lá se foi quedando pelo Alto de Santo Amaro, pelas Janelas Verdes, pelo Bairro Alto, enfim, pelas zonas de alturas intermédias, até onde o seu cacau e o seu número cada vez mais reduzido de escravos negros permitia.
Parece que as invasões francesas vieram acabar de vez com estas mordomias e trazer a burguesia ao de cima, em Portugal, não obstante tivessem deixado o país de tanga, como agora se diz por aí, sem grandes perspectivas e mesmo sem vontade de apreciar panoramas. Com a miséria e a porcaria que se divisava por todo o lado, nem isso era possível, porque até os escravos negros que dantes carregavam a água e faziam as limpezas mais arrepiantes desapareceram de Lisboa ou foram deixados nas suas terras de origem, apresentadas às gentes civilizadas da Europa, pelos novos exploradores do século XIX, como museu vivo muito falado e discutido nas tertúlias da gente mais fina e religiosa da Época.
O aumento de população que veio a seguir, com as sua inadiáveis necessidades e os barcos a motor, deram a última machadada nos resquícios de selvajaria panorâmica ainda existentes, do Tejo e seus arredores, embora alguns se esforcem, ainda hoje, por manter aberto ao público um museu de garças, de golfinhos e de minhocas, com resultados cada vez mais parcos.
Também os panoramas mudaram, com o tempo, de pontos de observação. Passaram quase todos para os cruzeiros de turistas, os balões de recreio, os helicópteros e até os aviões que voam mais baixinho...Restaram, em terra, os locais quase sempre inacessíveis e com entrada paga, como o Cristo Rei, o Castelo, o Alto de Monsanto, o Palácio da Ajuda, e as cúpulas da Estrela, de Santa Engrácia, de S. Vicente de Fora, etc. Mesmo algumas esplanadas e varandas populares de Lisboa foram tomadas de assalto pelos cafés, restaurantes e bares destinados à burguesia jovem, a quadros de empresas ou a velhotes com dinheiro. Finalmente, os miradouros de Santa Luzia, de Santa Catarina e outros semelhantes, mais baixinhos, foram deixados livres para a gente mais modesta e sem cheta.
As margens do Tejo, outrora selvagens, são agora ocupadas por contentores e guindastes alternando com jardins atravessados de pistas alcatroadas e cheias de carros, armazéns transformados em comes e bebes da moda e docas repletas de iates de gente fina. É esta a nova selvajaria que sucedeu à antiga e agora existente na região, fruto da civilização avassaladora, na sua marcha impiedosa.
A coexistência pacífica, nestas coisas, não dá resultado.
Voltar atrás é impossível! Para trás mija a burra...
E não nos resta mais que acreditar no princípio de incerteza de Heisenberg segundo o qual é impossível saber, ao mesmo tempo, qual a velocidade e a posição dos electrões em volta do núcleo atómico. Ou se sabe a velocidade, ou a localização. Neste caso, mal comparado, ou se desfruta do motor veloz da civilização, ou se permanece selvagem. Provavelmente, já La Palisse, antes de morrer em Pavia, teria descoberto este axioma e ninguém sabia, mas a verdade é que ainda há por aí muita gente que não sabe...
Porque, nem com todas as petições a cinco mil assinaturas cada, entregues na Assembleia da República, em Bruxelas ou em qualquer coisa que bruxuleia por aí se conseguirá inverter o controverso processo selvagem da civilização.
Também já ninguém quer hoje voltar ao mundo selvagem puro, a não ser em imaginação! Isso seria poesia pura!
Estas piruetas peticionárias que de tempos a tempos fazem moda, tal como as providências cautelares aos molhos, fazem-me lembrar, nem eu sei por quê, um colega já de idade, um lírico saudosista que passava todo o tempo dos almoços de confraternização a dizer, a quem era forçado a ouvi-lo, que antigamente, quando era jovem, é que era bom, que se comia melhor, que se vivia melhor, que tudo eram só coisas boas na vida... Também lembro os encartados ambientalistas que lutam contra a poluição, o alcatrão e os plásticos, até na sopa, etc. Todos têm uma certa razão, dentro do seu ponto de vista. Um tradicional egoísmo, mascarado de poesia, não permite a alguns ver o panorama das dificuldades da vida dos anos trinta, para eles provavelmente inexistentes, centrada a sua atenção na perda actual de antigos privilégios. Tanto estes saudosistas, como certos ambientalistas radicais, seriam incapazes de levar uma caixa de cartão para as compras de supermercado ou abandonar a viatura onde se deslocam para realizar as tarefas mais insignificantes, muito menos cavalgar pachorrentamente pelas ruas sem alcatrão mas cheias de bosta, a apreciar os seus adoráveis panoramas selvagens...
Outro caso paradigmático de que me recordo passou-se na minha vizinhança, com um morador a recolher assinaturas e a fazer um grande estardalhaço, com entidades políticas envolvidas, contra a construção camarária autorizada de um prédio noutra rua das traseiras, o qual lhe iria tirar um pouco da vista de uma das suas várias janelas, para o Tejo longínquo. Acabou, finalmente, por desistir e mudar de residência, depois de ter chateado meio mundo.
Mas não estou contra as petições, muito menos a tomar qualquer partido por qualquer delas, ao contrário do que possa transparecer.
Fazer petições é muito poético, muito democrático, muito in para quem tem vagar ou apenas muita determinação para isso, com todo o direito que a constituição lhe concede.
Força, gentes! Entretenham-se com essas, se não têm nada mais que fazer ou sentem que é o seu dever. Apresentem as suas versões! Lutem por elas! Chateiem o poder político até à exaustão! Mas nunca levem o caso à Justiça. É muito demorada, sai cara e não resolve nada.
Eu, pela minha parte, cá fico à espera dos resultados, na certeza, porém de que não anseio pelo regresso aos tempos idos da selva querida e, pela minha provecta idade, também já não posso viajar ao espaço dos panoramas inolvidáveis. O que eu quereria, se me pedissem uma opinião, seria gozar de todos os progressos da civilização e, simultaneamente, de toda a poesia e liberdade proporcionadas pela vida selvagem, mas isso seria a quadratura do círculo. Para tal, seria mister que não fosse válida a minha adaptação civilizacional ao Princípio da Incerteza de Heisenberg, um dos pilares da Mecânica Quântica.
Entretanto, faço votos para que os mandantes da área onde resido não reduzam o panorama limitado que usufruo da minha janela para os prédios em frente, porque estou velho para andar por aí de porta em porta -ou a pagar a alguém que o faça por mim - as tais cinco mil assinaturas necessárias a uma petição. Se assim acontecer, já não será nada mau...
Até porque a Câmara, atenta aos progressos da civilização, já enterrou os contentores de lixo selvagens que havia em frente da janela da sala onde escrevo e abandalhavam o meu panorama, infelizmente sem Tejo à vista.
Pelo contrário, os contentores de Alcântara são impossíveis de enterrar.
A cidade de Felgueiras, como tive oportunidade de constatar, uns anos atrás, teve um desenvolvimento interessante, muito à custa da Indústria de Calçado que ali se foi instalando e dá emprego a boa parte da população. A sua actual presidente de Câmara, por coincidência chamada Fátima Felgueiras, tem a boa cota parte nesse desenvolvimento, o que é reconhecido pelos residentes que a reelegeram como independente, contra a opinião de todos os partidos e ainda contra o facto de ter a correr um processo com acusações de peculato várias. Pelo meio, teve que arrostar ainda com a agressividade de alguns inimigos, uma intimação abusiva de prisão preventiva reconhecida depois, com fuga para o Brasil e regresso ao julgamento. Apresentou sempre uma presença de espírito notável. Independentemente da sua culpabilidade ou não, demonstrou ser uma mulher de armas!
O julgamento, com a morosidade a que a nossa Justiça nos habituou, terminou ontem com a absolvição quase total de Fátima Felgueiras, não dando como provada a maioria das acusações feitas pelo Ministério Público, que envolveria desvios de milhões de euros em seu favor ou de terceiros, e ainda a empresa Resin, o Clube de Futebol da Terra, uma empresa de urbanização, etc.
Digo absolvição quase total porque o colectivo de juízes condenou basicamente a senhora a uma pena de três anos e meio de prisão com pena suspensa e perda de mandato, mais uns quantos euros, muito poucos, de indemnização. Ontem, ao aparecer na TV, assediada por jornalistas anteriormente ávidos de conhecer a sentença e, depois, dos comentários da julgada, mostrou de novo a sua superioridade ante a imprensa, a sua notável presença de espírito e a alegria que lhe ia na alma. O caso, convenhamos, não seria para menos.
Hoje, lendo calmamente as notícias nos jornais e alguns comentários ali vertidos, pude apreciar o quanto a nossa Justiça fica vulnerável, em certos processos demasiado mediatizados. A maioria dos leitores atiram-lhe pedras de todo o tamanho, dado que tinham sido convencidos da culpabilidade antecipada da autarca, enquanto os naturais da cidade vêm abraçá-la e aplaudir, exigindo a sua total desculpabilização.
A Justiça raramente agrada a todos, mas a relevância da actuação da Comunicação Social nestes casos não pode ser subestimada e torna o trabalho e a isenção dos juízes muito difícil.
Ao ler alguns extractos do acórdão de muitas centenas de páginas, emitido ontem pelo tribunal, não pude deixar de sentir o ridículo de alguns parágrafos, independentemente da sua justeza ou não.
Assim, Fátima Felgueiras não é condenada por roubo ou desvio de milhões, como era pedido pelos que queriam a sua cabeça, porque não foi provado, mas simplesmente porque cometeu abuso de poder no caso de um loteamento, utilizou o carro da Câmara para levar alguns prosélitos a um congresso partidário em Lisboa, e lesar a autarquia em 175 euros, numa ida em serviço à Irlanda. A condenação é de três anos e meio com pena suspensa e perda de mandato, para evitar a tentação de reincidir nesses peculatos...
Quem não deixará de sorrir?
O advogado da ré já disse imediatamente que vai recorrer desta sentença, pedindo a absolvição total, e nem outra coisa seria de esperar. Na verdade, onde haverá autarcas que, uma ou outra vez, não usem a viatura para fins particulares ou comam o seu almocinho discutível, à custa da autarquia? O caricato da sentença termina com a perda de mandato, para que a acusada não tenha possibilidade e repetir a proeza, mas não a impede de concluir este, em caso de recurso, ou de concorrer a novas eleições, etc. ...
Também o aproveitamento mediático para mandar a ferroada ao poder político não foi esquecido. Um periódico chegou mesmo a colocar em título que a razão da pena suspensa se devia ao novo Código de Processo Penal, etc., porque só a partir de uma pena de cinco anos a pena de prisão poderia tornar-se efectiva.
Enfim, trivialidades por demais ridículas em que pouca gente fica bem na caricatura, depois de lavada toda a roupa suja. E, como vai haver recursos, do Ministério Público, certamente, depois da montanha parir um rato, e da acusada, depois da ridicularia das conclusões, ainda vamos ter de gramar o insuportável, não sei por quanto tempo mais!
Entretanto, como a cada sapateiro, o seu sapato, já que falamos da terra deles, faço votos para que boa Justiça seja feita por quem de direito, porque, ao cidadão comum só caberá indignar-se ou aplaudir, no final, mas nunca intervir directamente.