sexta-feira, 28 de março de 2008

JOGOS OLÍMPICOS, EM PEQUIM

O atletismo político da era moderna

Agora que a China está a impor a sua ordem rígida e implacável no inconformado Tibete, com o pacífico Dalai Lama jogando com relativo sucesso a cartada da propaganda legítima da recuperação da independência da sua pátria, discute-se nalguns países ocidentais a ida ou não dos seus atletas aos Jogos Olímpicos de Pequim, uma forma de protesto exemplar pela intolerância do governo chinês e a brutalidade da intervenção das suas forças policiais.

Nada de novo, esta postura do Ocidente. Com o pretexto de lutar pela liberdade e pela democracia, vários boicotes foram feitos no século XX e também outros tiveram lugar, como represália da parte de países anteriormente boicotados…

Ficaram também particularmente célebres, pelos maus motivos, os Jogos Olímpicos de Berlim, com a democracia alemã a dar as últimas, nos preparativos hitlerianos para a segunda guerra mundial e, depois dela, os de Munique, com o atentado dos palestinianos aos atletas judaicos ali presentes. Puro atletismo politiqueiro, nas entrelinhas.

Muitas histórias podem ser contadas sobre os Jogos Olímpicos, de sucesso ou insucesso, com imensas querelas diplomáticas absurdas pelo meio, com prémios ou desespero de atletas, e de comemorações ou lutos vividos pelos naturais dos países concorrentes.

Uma coisa é certa. Os Jogos Olímpicos realizavam-se na Grécia, quinhentos anos antes de Cristo, num clima de tréguas entre cidades-estados que se guerreavam frequentemente, exaltando, deste modo, a disputa leal entre os atletas. A tirana Esparta e a democrática Atenas (com os respectivos partidários) faziam descansar as armas religiosamente, para essa comemoração.

Foi aqui, neste espírito de competição saudável, incentivando e exaltando a amizade do mundo grego acima das rixas tradicionais, que se inspirou o iluminado barão P.C. para fazer renascer esses Jogos milenares.

Apesar de tantos contratempos e dificuldades, as comemorações modernas atingiram dimensões nunca imaginadas pelo seu mentor e têm servido para cimentar a amizade dos povos ou, pelo menos, para fazer a propaganda dela. Já era tempo de esquecer vingançazinhas de estimação entre algumas nações e deixar os atletas competirem em paz, sem intervenção da política matreira que torna complicadas as coisas simples. Aos atletas o que é dos verdadeiros atletas. Os atletas da política não deveriam ser para aqui chamados.

Realisticamente falando, o Tibete há-de ter o apoio moral possível das Democracias Ocidentais e nada mais que isso, e a China fará os Jogos Olímpicos de 2008, com vivas ou críticas do Ocidente, tanto faz.

Em Pequim, os atletas autênticos baterão vários recordes, como é costume, nestas ocasiões. E, no entanto, mais uma mancha ficará gravada nos anais dos Jogos, sem vantagem para ninguém. Nem mesmo, infelizmente, para o infortunado Tibete e outros países vítimas de algumas ditaduras que se pavoneiam impunemente por aí…

quinta-feira, 27 de março de 2008

POLÍCIAS A MAIS E CRIMES A MENOS

Crónica da falta de segurança por aí

Em Portugal vislumbra-se sempre qualquer coisa irreal no horizonte, que um dia a nossa pequenez exalta até às nuvens ou mesmo engrandece até ao infinito, e na noite seguinte mete em alfurjas insondáveis. Há sempre qualquer coisa, por mais evidente que seja, que não funciona, qualquer coisa que, por mais intuitiva que se anteveja, necessita de ser explicada. Existem sempre factos extraordinárias ante os nossos olhos, muito acima do nosso entendimento os quais, na nossa arrogante insignificância e falta de bom senso, não conseguimos apreciar nunca na sua devida dimensão.

O Brasil também herdou de nós algumas desses contra-sensos. Contudo, pela enormidade do seu território e da população que o habita, poderá desculpar-se facilmente. Os brasileiros, na sua ânsia de progresso, dizem do seu país que é o maior, que já têm o maior isto e o maior aquilo… (claro que nunca falam nas maiores favelas!), enquanto os portugueses se vangloriam de ser os pais do Brasil e doutros povos mais…E também, de vez em quando, colocam alguns recordes caricatos no Guiness, como a maior árvore de Natal, a maior cataplana, o maior pão-de-ló…

Ao contrário dos brasileiros que propagandeam as coisas positivas e escondem as negativas, os portugueses passam o tempo a exaltar as suas misérias e a desvalorizar os seus merecimentos. Se não fosse assim, nem os nossos periódicos conseguiriam sobreviver!

Durante vários dias, a imprensa do país entreteve-se a explorar o filão da falta de segurança, apregoada a torto e a direito, a propósito de tudo e de nada, como se o país fosse o mais inseguro do mundo e os cidadãos nem pudessem por o pé fora da soleira da porta. Debalde o Ministro da Administração Interna se alargou em explicações e apresentou números e estatísticas porque, na ânsia geral demolidora que geralmente nos assoberba, ninguém já acreditava nele.

Logo os partidos da oposição, os mentores da opinião pública e os oportunistas de serviço começaram a aproveitar a onda de descontentamento circunstancial, cavalgando a exploração iniciada pela imprensa, pedindo soluções para a criminologia denunciada, o agrandamento das penas para os criminosos, o aumento imediato das forças policiais que as «medidas economicistas» do governo estava a travar, sem respeito pelos cidadãos…

Faltavam polícias! Os autarcas confirmaram, as associações profissionais de polícia corroboraram, acrescentando a fatal e consabida falta de meios. Finalmente os juízes, acusados de brandura e alguma permissividade perante os réus, clamaram, como qualquer pobrezinho pedindo misericórdia, inocência ante as «desastradas» leis existentes que se esfalfavam por cumprir, com todos os pontos e vírgulas que descobriam…

O Ministro estava a ficar esfrangalhado. Para se ver livre do alarido, pediu dinheiro às Finanças e lá prometeu o lançamento de mais dois mil polícias na bagunça, o que pareceu acalmar um tanto os reclamantes, não sem que alguém viesse a terreiro a constatar que esse número não era grande coisa, dividido pelas esquadras em funcionamento…

Ora, passada a espuma da onda, confirmou ainda a mesma imprensa alarmista, que o país era ainda, como se dizia, o tal de brandos costumes, a nível estatístico. Que não só a criminalidade em geral não tinha aumentado por aí além, como pedia meças à quase totalidade dos países da CE, para não falar de muitos outros por esse mundo fora.

A última do Diário Digital de hoje, diz apenas: «O governo anunciou esta terça-feira uma diminuição de 10,5% da criminalidade violenta e grave em 2007 e uma estabilização da criminalidade participada, relativamente a 2006.»

Mais notícias interessantes…e desconcertantes que essa mesma imprensa, a nossa imprensa, agora vem veiculando durante estes dias, merecem igualmente toda a nossa atenção.

Em primeiro lugar, sendo Portugal um país de baixa criminalidade é, na Europa, o que mais presos tem, nas suas cadeias!

E, finalmente, Portugal é o país da Europa com maior número de polícias, relativamente à população que protege, de acordo com as notícias seguintes:

« em Portugal, há 21 699 polícias, revela o «Diário de Notícias». Por cá, a média é de um polícia por cada 227 habitantes, enquanto a média europeia é de um agente para 350 pessoas.

«A TVI contactou as relações públicas da PSP, que confirmam o rácio de um agente para 227 habitantes, mas apenas na área de intervenção da Polícia de Segurança Pública e que abarca 4 milhões e 800 mil habitantes.

«A restante área é da responsabilidade da GNR. Aí, os números são diferentes, adianta a PSP, mas sempre acima da média europeia, garante esta força de segurança.»

Volto ao princípio. Em Portugal, nem tudo o que parece, é. E até as coisas mais comezinhas, ou as mais apregoadas necessitam, como estas que citei, de explicação cabal, competente e credível para poderem ser devidamente compreendidas pelo país das superficialidades bombásticas que somos.

Não sou eu a pessoa indicada para tal.

A mim só me apetece rir…para não chorar de vergonha.

segunda-feira, 24 de março de 2008

BAGUNÇA NA TV

Crónica do telemóvel indisciplinado

Não há muito tempo ainda que o prato forte da discussão do nosso sistema de educação era o número e tipo de disciplinas, nos respectivos cursos, o número de alunos por turma, as verbas disponíveis, temas retomados endemicamente, quase a cada mudança de governo.

Há dias, tudo mudou. Uma professora bem pequenina, leccionando não sei que disciplina, envolveu-se numa disputa com uma aluna grandota, indisciplinada, por causa de um telemóvel minúsculo, dentro de uma sala de aula em alvoroço. Puxa para aqui, puxa para ali -as palavras que não se ouviam não deveriam ter sido meigas -um aluno puxou de outro telemóvel e filmou a cena que, não sabemos porque artes mágicas, foi parar à Internet, como filme premiado, para gáudio da malta estudantil e respectivos paizinhos, e furiosa indignação dos mestres deste país de gente «culta», com montes de professores eventuais desempregados. Logo a Comunicação Social, depois de noticiar o facto em parangonas de primeira página, começou a desbobinar o seu habitual rol de pilhérias, conclusões e sentenças, dando conta igualmente dos truques dos politiqueiros de serviço a atirarem as pedras do costume, dos inquéritos a serem abertos para inglês ver, e dos comentadores do burgo a mandarem as patacoadas de recados àquela gente de que não gostam. Choveram protestos e lamúrias por todo o lado, pareceu que o mundo tinha desabado! E mais não passava de um facto comezinho, dentre tantos que ocorrem diariamente nas escolas portuguesas, quantos mais graves ou caricatos, mas que não mereceram tamanha propaganda!

Um facto não foi, no entanto comentado ou explorado por nenhum desses numerosos comentaristas ou críticos, quase tantos como os leitores da nossa minguada imprensa: a existência de vários telemóveis na sala de aula e de um, pelo menos, com tecnologia fotográfica relevante, sabiamente manobrado, com direito a futura transmissão na Internet, motivo pelo qual penso que alguma coisa está pervertida nesta história posta a circular e nas conclusões daí tiradas. O mote geral é a disciplina, ou a falta dela, ou a dificuldade da sua implementação, em que os intervenientes procuram bodes expiatórios, numa guerra de todos contra todos. Os professores acusam o governo, os alunos e os pais. Os alunos acusam o governo, os professores e os próprios pais. Os pais acusam o governo e os professores. O governo acusa os professores…E, como se não bastasse esta guerra absurda, os partidos políticos procuram, a todo o custo, tirar partido da situação, na ânsia politiqueira de captar votos, à custa de não apresentar qualquer solução credível para ela…E tudo isto num país de poucos recursos, pouca literacia, limitada cultura, onde mais se justificaria que todos unissem esforços para mudar para melhor aquilo que ainda é possível mudar…

Mas, como em tudo, na vida, há um começo e haverá um fim previsíveis.

Como é tradicional, ao fim de algum tempo todo o mundo se acalmará, ninguém conseguirá investigar nada, ninguém terá tido culpa do que quer que fosse, muito menos portanto pedirá desculpa de coisa nenhuma ou será castigado por algo. E tudo regressará à normalidade corriqueira, os telemóveis cada vez a serem mais vendidos, cada vez a entrarem mais pelas escolas dentro, pelas repartições, pelas casas de cada um, como piolho na costura que em todo o lado se intromete e não se deixa apanhar…e, pior ainda, de que ninguém já pode prescindir em parte nenhuma, em momento algum! É obra!

Por isso, embora muitos julguem que isto que vou dizer é um absurdo, a verdade é que já não é possível restringir o uso do telemóvel, seja lá onde for! Nem na Escola, nem no Hospital, nem na Assembleia da República, nem na Igreja, nem nos restaurantes, nem nos escritórios, nem mesmo nas casas de banho! Tanto faz que alguém se entretenha a fazer regulamentos, a por avisos, a passar palavra! Fazer o controlo, como nos aeroportos, sai caro. E mesmo assim…

O telemóvel escravizou-nos a todos, fez-nos seus dependentes integrais, para o bem ou para o mal, e não vejo como libertarmo-nos dele, por mais leis que sejam promulgadas, por mais castigos que sejam prometidos, por mais invectivas que sejam atiradas…por mais que os professores se esfalfem a proibi-lo nas aulas, ou a polícia se derreta a catrapiscá-lo ou confiscá-lo por aí…O caso é que, a partir dos seis anos, mal largam a chupeta e dão os primeiros passos, as criancinhas já andam de telemóvel à cinta, como os cowboys dos filmes do Farwest andam de revólver! Os pais exigem telefonar cada cinco minutos para os seus rebentos, eles que, ainda há bem poucos anos, saíam de manhã para o trabalho e regressavam à noite, sem poderem contactá-los, nem por sinais luminosos, bandeirinhas ou apitos…

Os professores, os conselhos directivos, as direcções de educação são todos, claro, uns ingénuos e os remédios que preconizam serão pura perda de tempo. A época em que vivemos é outra, que não aquela que eles próprios viveram na escola da sua meninice, e ainda não se deram conta disso! Acabar com os telemóveis nos recintos escolares é, actualmente, muito mais difícil que aplicar a lei anti tabaco em recintos fechados, embora algumas regras eficazes de controlo possam ser estabelecidas.

Mas a disciplina, ao contrário do que preconizam alguns comentaristas de nomeada, não se obterá com cacetadas ou a ajuda da PIDE de antigamente, nem com as expulsões das escolas a torto e a direito, nem com o aumento das penas de prisão! Da mesma forma que seria absurdo ditar leis drásticas para obrigar os pais a educar convenientemente os filhos!

Por muito que custe aos professores de hoje, como a disciplina não provem da força, têm que apostar em desenvolver ao máximo o interesse dos alunos pelas disciplinas de que dão aulas, como forma de evitar a falta dela, o desejo de utilizar o telemóvel e outras coisas que nenhum regulamento já é capaz de travar…

Cabe-lhes uma tarefa hercúlea, ingrata e nada fácil, como não o foi substituir a palmatória usada durante séculos, em que os telemóveis nem sequer eram miragem…

E podemos crer, da forma acelerada com que a tecnologia nos vai impregnando a vida, que muitas outras distracções aparecerão, além do telemóvel, a encher as aulas, como os Mp3, os mini computadores de bolso e o mais que seguirá…

Há, pois, que estimular e acarinhar os professores competentes. E apostar fortemente na formação.

Proibir apenas o telemóvel indisciplinado é que não vai dar nada.

Mas algum dia virá a descobrir-se tecnologia revolucionária que promoverá o ensino instantâneo, disciplinado e automático, dispensando de vez a milenar e paciente introdução das matérias, à força, na cabeça.

Até lá…

terça-feira, 18 de março de 2008

A ENERGIA DO BAGAÇO

Crónica de transformações necessárias

«Alentejo: Empresa quer produzir energia com bagaço…»

Nos velhos tempos do mata-bicho, logo de manhãzinha, ninguém se lembrara de produzir energia eléctrica desta forma! Energia, sim, mas para dar umas cavadelas, para carregar às costas uns fardos pesados, para combater o frio dos dias gelados…tudo falácias para justificar um vício arreigado, já que os benefícios energéticos do álcool eram fugazes e o bagacinho era caro. Também uma certa classe média se habituou, com o tempo, à bagaceira tomada disfarçadamente nos cafés, para não parecer mal, primeiro em cálice e depois misturada na bica, sob o nome de cheirinho…

-Ti Manel, vem ou não a minha bica com cheirinho!?

-Macieira ou Aliança?

-Tanto faz. Da boa, da boa é que eu quero!

-Então pode ser da Velha…

-Essa não vale a pena. É cara demais. Fica para outra vez.

A aguardente misturada no café não dava tanto nas vistas como a tomada simplesmente, de um trago. Naqueles tempos de fraco poder aquisitivo e poucos prazeres à disposição das gentes, a bagaceira era quase uma bênção e tornava-se frequente, em conversa com alguém, ou num eléctrico, aspirar, sem querer, o bafo denunciador…que as senhoras finas acusavam, de dedo em riste:

-Até tomba! Não sei como podem…

-Não têm vergonha!

O café sempre dava para encobrir…e era agradável.

Foi a notícia sensacional, acabada de ler na net, que veio recordar-me esses tempos idos de que a Ginginha, nas Portas de Santo Antão, ao Rossio, e mais meia dúzia de outras por aí, são as resistentes, uma pálida amostra das centenas ou talvez milhares de tasquinhas existentes em Lisboa, há uns cinquenta anos atrás.

A notícia que li trata, porém, do bagaço da azeitona depois de retirado o azeite, nalgumas regiões popularmente conhecido por baganha, outro tipo de ciência em que o português se especializou, além do vinho e seus derivados. Depois de bem preparadas e espremidas as azeitonas no lagar, o bagaço resultante era armazenado e guardado para vender com outros fins, por último como adubo das terras, na altura própria. Não raramente, com o calor, dava-se a respectiva fermentação e sentia-se o odor fétido espalhado pelo vento a quilómetros em redor. Nunca me esqueci de um passeio a Trás-os-Montes, com o denunciador «aroma enjoativo» proveniente dos armazéns do Pocinho, à beira da ponte sobre o Douro, num cenário de incomparável beleza…e que me obrigou a fugir dali o mais rápido que pude.

Mas os tempos mudaram e agora uma empresa do Alvito, no Alentejo, vai investir em grande no aproveitamento do bagaço da azeitona para o fabrico de energia eléctrica, utilizando o conhecido processo da biomassa, tendo em vista o futuro aumento de matéria prima, com a plantação exaustiva de milhares e hectares de oliveiras que se verifica em diversas regiões alentejanas, graças principalmente... aos espanhóis.

Finalmente, depois das antigas candeias de azeite terem ido parar aos museus e das tasquinhas terem fechado portas, deixará de haver esses dois tipos de iluminação, familiar e individual…a azeite e a aguardente!

Ficaremos todos iluminados, dentro em pouco e finalmente, a lâmpadas eléctricas economizadoras. Já não era sem tempo. Viva a energia do bagaço…da azeitona!

Também descobri na internet outros encómios à dita empresa, amiga do ambiente, merecedora de um prémio de valor, pela sua especialização em transformar caca fedorenta em energia limpa e proveitosa, juntando o útil ao agradável.

É do que mais precisamos no país, de empresas destas que transformem a caca omnipresente e barata em electricidade, agora que o petróleo é de extracção cada vez mais difícil e atinge valores incomportáveis.

A ver se acabamos de vez, com tanta porcaria que há por aí…mesmo sem recorrer a interpretações maliciosas!

E no entanto, como foi agradável recordar, há pouco, a bica com cheirinho! …

segunda-feira, 17 de março de 2008

ANACRONISMOS IMPORTANTES

Setas envenenadas

Enquanto a Sra. Ministra da Educação utiliza o seu tempo a estudar a melhor forma de atirar as suas setas envenenadas aos professores esquivos, estes, apoiados pelos partidos da oposição, defendem-se jogando às manifestações, e respondendo também com as suas…

É uma forma de entretenimento bastante em voga, nestas últimas semanas. Par quem está de fora, seria jocoso, se não fosse triste.

Setas para aqui, setas para ali, eis que um senhor médico nortenho resolve mudar, sem dizer nada a ninguém, o emblema das três setas laranja simbólicas do seu clube de estimação, metendo duas delas, sem qualquer contemplação, no lixo, e plantando a única restante em campo azul, com a mesma facilidade e rapidez com que os arqueiros de antigamente as metiam e tiravam das respectivas aljavas, em horas de luta.

Não sei por quê, nem para quê…Talvez para mostrar serviço aos eleitores incrédulos.

Porque, com o andar do tempo, as setas foram dando lugar a outros projécteis cada vez mais eficazes, até chegarmos, nos dias de hoje, à guerra do botão, travada a partir dos gabinetes, com precisão exemplar, acertando mesmo em alvos colocados a milhares de quilómetros de distância.

Anacronismos nossos.

Como vemos, ainda existe muito boa gente, em Portugal, que se entretém a jogar com setas fazendo a pontaria aos vizinhos do lado…pensando ou tentando mesmo o regresso do país à Idade Média. Outros utilizam foices cortantes, martelos duros, enxadas agrestes, rodas dentadas furiosas e até rosas…apertadas em punhos, para não destoar do bárbaro conjunto.

Bem sei que se trata de símbolos e brincar com coisas simbólicas tem o seu quê de perigosidade. Apesar da mudança dos tempos, existem ainda muitos radicais com os quais não se pode, nem deve brincar.

Lá bem no fundo, quem há que consiga viver sem símbolos? Até os norte americanos, que não primam pela ideologia e insistem no seu lado prático e agressivo de ver as coisas, adoptaram o plácido elefante e o burro paciente como símbolos dos seus principais partidos políticos!

Aqui, não! Vingou o punho cerrado, a foice, o martelo, a enxada e a roda dentada, a seta ou as setinhas, indicadores de ferocidade, violência e força bruta…num país de brandos costumes.

Mais outro anacronismo.

Ainda gostava de saber porque raio de motivo os portugueses se colaram a símbolos desta natureza, já que não passam, afinal de trinta e um de boca! Digo bem, de boca, porque lá é que reside a força, a violência, a ferocidade da nossa gente.

Mas não é mau que assim seja. Enquanto toda essa agressividade que por aí se apregoa não passar da boca para fora, estamos salvos!

Ainda que uns quantos se ocupem a brincar com as setas, por não descobrirem coisas mais importantes que fazer…

Já agora, uma pergunta simples, a quem tiver a pachorra de ler este pequeno texto:

-Que seria dos candidatos Republicanos ou Democratas, nos Estados Unidos, se resolvessem mudar apenas as cores do elefante ou do burro que representam os seus partidos?


Alguém me está a soprar do lado:

-É lá com eles! Aqui para nós, que ninguém nos ouve, cada um que se amanhe…

Fiquei sem coragem para continuar.

domingo, 16 de março de 2008

O CRIME DE NUNO CRATO-II

Portugal é uma maravilha!

Pouco depois de publicar «O crime de Nuno Crato», alguém resolveu perguntar-me muito simplesmente, se eu trocaria este país por outro…

Respondi imediatamente que não! Ou, como alguém diria, nunca, jamais, em tempo algum!...

Este é o país que eu amo, que todos amamos apesar de dizermos mal dele todos os dias e a todas as horas. Se assim não fosse, nem sequer éramos verdadeiros portugueses! Além de sermos especialistas da má-íngua, somos derrotistas como não há mais ninguém em país nenhum do mundo, o que é ainda pior.

Mas há coisas boas e belas, em Portugal, mais maravilhosas que em mais nenhuma parte desse mundo que tanto enaltecemos.

Puras contradições de portugueses!

Como disse antes, Nuno Crato não foi divulgado nem suficientemente aclamado…porque não é especialista de pontapé na bola, onde a Matemática, ciência exacta…e chata, cede lugar à magia das fintas que distraem e encantam! Já estamos fartos de saber que, com a Matemática, é difícil, em Portugal, alguém ficar encantado!

Mas também não quero tirar mérito aos grandes artistas que são os jogadores de futebol. O que é preciso é ser bom em qualquer coisa…menos na maldade!

Ora, no jornalismo, de tão vulgarizadas que são as vulgaridades em que o vulgo gosta de estar mergulhado, perdoem-me as redundâncias, torna-se muito difícil promover o que é correcto, em prejuízo do acessório e fútil.

Dizer todos os dias que Portugal é o melhor que há, não dá gozo a ninguém. É uma premissa que gostamos apenas de guardar económica e ciosamente bem dentro de nós. O que dá gozo é o bota-abaixo! Quando muito, o passar por cima, distraidamente…ou de propósito. Ou escrever três ou quatro linhas numa página de terceira escolha…

Por isso é que achei Nuno Crato deslocado, no seu próprio país. Não que me passe pela cabeça que ele não devesse fazer a obra a que se tem esforçadamente dedicado e só merece os melhores encómios. Mas porque está fora do contexto jornalístico dos nossos dias, apanhado na fofoca que domina a imprensa «séria», em Portugal, a mesma que bem poderia ser deixada apenas para os tablóides da especialidade.

Na realidade, em vez de ter escrito que o crime do professor Nuno Crato foi ter nascido no país do fado, deveria ter dito apenas, como o poeta: «esta é a ditosa Pátria minha amada»…

sexta-feira, 14 de março de 2008

O CRIME DE NUNO CRATO

Caricatura de um país sem matemática

O crime de Nuno Crato foi ter nascido em Portugal.

Nascer em Portugal não é já uma virtude; é uma fatalidade. Quando se cresce, aprende-se a ouvir o fado, a adorar a saudade destruidora de iniciativas, a estudar Letras, Direito, Artes, qualquer coisa que dê pouca ginástica à inteligência e o mínimo de trabalho, tudo menos Matemática!

A Matemática é chata, não tem gravuras bonitas, é feita de números, letras raras e sinalefas, obriga a pensar, às vezes custa a perceber, exige treino e persistência e, acima de tudo, é uma ciência exacta. Ora os portugueses têm horror às coisas exactas! Do que eles mais gostam é de dar voltinhas, discutir em paralelo até ao infinito, ou no vácuo, se possível com a ajuda de uns copos…a verdadeira matemática da boa vida.

Também as notícias que circulam por aí estão a condizer e não ajudam a contrariar esta situação. Referem essas discussões, ampliam-nas, se necessário, para arranjar clientes, pormenorizam os crimes de que se ocupa a polícia, as complicações dos tribunais, as faltas de pagamento ao fisco, as aldrabices da criminalidade oculta, as lacras da corrupção na vida corrente ou no futebol, e as fofocas dos noticiáveis, isto é, dos colunáveis…Por isso os inscritos em Cursos de Jornalismo estão em franco crescimento, enquanto os de Matemática se reduzem cada vez mais.

Hoje de manhã, travei conversa casual com uma senhora jovem, muito educada e culta, consultora de uma Companhia de Seguros. Queixava-se ela de que actualmente, pelo que lhe era dado conhecer no seu meio, ninguém produzia nada, em Portugal e os principais empregadores que conhecia entretinham-se a pedir gente para os seus modernos call centers.

Achei graça, no meio da profunda desgraça do nosso panorama de emprego do qual continuou a expor razões e situações, durante mais de meia hora. Como não percebo nada de Seguros, limitei-me a ouvir. Até porque os Seguros, ao contrário do que muita gente pensa, têm por base a Matemática em que eu também não sou forte.

Por alguma razão que os portugueses se obstinam em não querer compreender, os países de tecnologia mais avançada deram prioridade ao ensino e à prática da Matemática durante largos anos e agora estão a colher os frutos. Apressadamente, para recuperar terreno, os chineses e os indianos, incentivam a aprendizagem desta disciplina com todas as suas forças, enquanto os portugueses continuam a estimular as Letras, tornando-nos assim, cada vez mais, num país de letrados improdutivos, apesar disso dos mais iliteratos da Europa Comunitária.

Infelizmente nem para ler temos jeito, que não seja os títulos das fofocas com que nos brinda a imprensa corriqueira e venal, ou das ocorrências dos jogos de futebol! O resto, o que sobra para além disto, são as excepções à regra.

Nuno Crato, uma quase excepção no panorama da própria cultura universitária nacional, recebeu um prémio internacional de renome e foi pequena notícia de meia coluna da imprensa nacional que se diverte a encher páginas, diariamente, com a descrição pormenorizada dos crimes ocorridos na véspera, as festanças dos famosos e os jogos do último fim-de-semana…

Qual foi o crime de Nuno Crato, para não figurar em grande na Imprensa Nacional? Certamente o de se notabilizar no estudo, investigação e divulgação de coisas sérias, como a Matemática, cujo estudo deverá ser incentivado à exaustão, em Portugal, se quizermos que o país tenha um futuro menos sombrio.

Se fosse um bom futebolista, Nuno Crato veria o seu nome aproveitado e colocado em todo o lado, talvez até na base de uma estátua, quem sabe?

É esta a caricatura que faço deste país onde a Matemática ainda é, para a maioria, uma batata, apesar do merecido prémio seus esforços…e da minha singela homenagem.