quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

PÃO E PROZAC

Maria Antonieta e os brioches

Por causa de uma fuga do país mal conseguida e de umas respostas absurdas e infelizes dadas à populaça faminta, mas que ficaram na História, Maria Antonieta perdeu a cabeça. Outras razões não interessam para este caso.

Há uns anos, apareceu no mercado um psicofármaco, com indicações terapêuticas nos casos de depressão, de bulimia nervosa e de doença obsessiva compulsiva, a fluoxetina, comercializada inicialmente sob o nome de Prozac. Cedo começou a ser utilizado como panaceia na cura dos mais diversos males da cabeça e não só, não obstante um bom número de reacções adversas e contra indicações referenciadas. Dessa maneira, tomar Prozac passou a ser o mesmo, para muita gente, que levar pão à boca. E portanto os resultados destes exageros não se fizeram esperar.

Hoje, passados vários anos do início da utilização desse medicamento, sempre em maré-alta e por vezes descuidada, apareceu na imprensa um estudo de investigadores ingleses deitando abaixo a acção do Prozac, em determinadas circunstâncias. Logo alguns oportunistas tiraram as suas conclusões apressadas, chamando a atenção do público para os altos rendimentos das empresas farmacêuticas, com a venda do produto. Dias passados, logo a mesma imprensa publicitava que estas estavam a ficar preocupadas com as notícias que circulavam.

Também alguns comentaristas nacionais embarcaram na onda desse comentário superficial ou tendencioso. Um deles iniciava o seu artigo de opinião com a publicação da seguinte notícia:

Uma equipa de investigadores de uma universidade britânica está a deixar em pânico a indústria farmacêutica, nomeadamente os fabricantes de antidepressivos como o Prozac, o Seroxat ou os genéricos de fluoxetina, que em Portugal vendem cerca de seis milhões de embalagens por ano.

E continuava:

«O que dizem eles? Que os doentes “moderadamente deprimidos” não notam a diferença entre serem tratados com antidepressivos ou com placebos……... O género humano vive de substituições: um amor por outro, um gesto por outro, uma palavra por outra. O importante é que se acredite que a promessa de redenção e de felicidade se mantém, original e intacta. Imaginando que este estudo tem pernas para andar, iremos assistir a outra etapa: psicanalistas, psicólogos e terapeutas terão a vida mais difícil.»

Tem a sua graça, mas ofende.

A verdade é que todos os medicamentos, antes de ser aprovados e lançados no mercado, são testados contra placebos em milhares de casos e depois em populações significativas. Infelizmente, acontece que o uso que depois se faz deles, pelos pacientes e mesmo pelos próprios médicos, é muitas vezes desajustado às situações, abusivo e até contra indicado. Esse é o verdadeiro problema que deve afligir-nos.

O mesmo senhor comentava desta maneira o anunciado aumento de preço do pão:

«O preço do pão pode aumentar 50%. Há uns anos faria muita diferença; mas o País que sobrevivia a pão e sardinha já não existe e hoje evita hidratos de carbono para não prejudicar a linha. Se no séc. XVIII Maria Antonieta recomendou ao povo que comesse brioches por não ter pão, hoje diria que comessem bolachinhas. De dieta

O caso é que, mesmo hoje, no nosso país com tantos obesos, o pão ainda faz imensa falta a muita gente. Sem hidratos de carbono não se pode viver e o pão ainda é dos hidratos de carbono mais baratos.

Não dá para brincar com tal subida de preço, ainda que sob a carapaça de Maria Antonieta que por essas e por outras acabou por ficar sem cabeça. E mesmo que o país já não viva a pão e sardinha!

É claro que, se o preço dos cereais vier a subir, esse aumento irá reflectir-se imediatamente no preço do pão…e das bolachinhas referenciadas, as quais, por isso, nem sequer poderão ser consideradas alternativa fiável para ninguém!

. É provável até que, com a subida do preço do pão, venha a assistir-se, paulatinamente, ao aumento do consumo do Prozac, ou dos outros antidepressivos da concorrência....

Não se trata de nenhuma ficção. Estas são previsões para as quais não será necessário fazer nenhuma investigação, nem no Reino Unido, nem em qualquer outro país.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

JUSTIÇA VIRGULISTA E BIRRENTA

Consequências de um atropelamento mortal

A Justiça até pode ter razão, do seu ponto de vista mas, do ponto de vista do cidadão comum, não se livra da opinião generalizada de ter demorado…e de ter realizado um mau juízo. Nos tempos de hoje, não são admissíveis à gente adulta e culta, nem a as demoras, nem as vírgulas a despropósito, nem as birras em assuntos sérios. E à Justiça, muito menos! A esta, na minha modesta opinião, deve competir a interpretação correcta da lei, sempre no seu espírito (que é primordial) e menos na sua forma (que é secundário). Assim fazem os juízes ingleses, no que se refere à sua Constituição que nem sequer é escrita!
Mas a Justiça também tem as suas justificações. Para nós, latinos, uma simples vírgula num código, faz toda a diferença e pode gerar as interpretações mais diversas da lei…embora o seu espírito não devesse sequer ser posto em causa.
Infelizmente, a caricatura que vem hoje publicada num dos nossos diários é o exemplo claro do que acabo de dizer.
Deus nos livre de que algum familiar nosso venha a ser atropelado numa passadeira com o sinal amarelo para as viaturas! O melhor será limitar-se a chorar a vítima e desistir, logo à partida, de levar uma queixa à Justiça. Arrisca-se a perder vários anos amargurados, perante a «exemplar e rápida» actuação desta e, como se não bastasse…a vê-la arquivada sem remédio, perante as birras dos magistrados, em guerrinhas infantis…com ar compenetrado. Esta das birras não é invenção minha, é novidade. Estamos sempre a aprender!
Aqui vai a notícia, para quem queira divertir-se um pouco. Chorar já não adianta:

«05/01/2004. A estudante do 10.º ano saía das aulas, na Secundária do Restelo, às 13h15 de 5 de Novembro de 2004. Atravessou a estrada para apanhar o autocarro mas o sinal ainda estava vermelho para os peões. Dois carros pararam no amarelo para as crianças passarem; enquanto G.R.A., ao volante do seu Porsche, passou pela terceira faixa e colheu Rita.
«O corpo de Rita foi projectado a cinco metros. Bateu no semáforo e arrancou-o do chão. A rapariga de 15 anos acabava de ser colhida por um Porsche junto à escola, na passadeira. Morreu.
«Foram ouvidas 11 testemunhas e várias falaram em excesso de velocidade. Mas o cálculo que faria fé em tribunal deveria ter sido pedido ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil.»
«26/04/05. Ministério Público (MP) decide acusar o condutor por homicídio negligente, apesar de não referir na acusação qual a velocidade excessiva em causa.
«19/01/06 Juiz de instrução criminal devolve a acusação ao MP. O processo não segue para julgamento sem que o magistrado estime a velocidade em causa.
«03/10/06. MP insiste em não alterar a acusação e obriga o juiz a arquivar todo o processo
«31/01/07. Pai da vítima recorre para a Relação mas já nada há a fazer. Três desembargadores acusam o MP de ter prejudicado a investigação por “birra”. Resta ao pai pedir uma indemnização cível.
«O acórdão refere ainda que a “birra” do procurador também é contra o seu colega que representou o MP no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa. PGR MANDA ARQUIVAR»
O comentário do pai, que copio, a seguir, pode não ser o mais correcto mas, que outra coisa, além deste desabafo, poderia esperar-se dos factos ocorridos e atrás descritos?
«Três anos e quatro meses depois de a filha morrer atropelada, António Marques da Silva continua “à espera de justiça” e diz que há-de conseguir. “Para comentar a actuação do Ministério Público, tenho de me socorrer das recentes declarações do bastonário da Ordem dos Advogados... Ele está dentro do meio e lá saberá o que diz – ou a justiça está a dormir ou há aqui interesses que se levantam. Mas, sabendo nós que se trata [o condutor do Porsche] do filho de um alto oficial da Marinha na reserva não sei o que estará por detrás de tudo isto”. Resta-lhe para já o recurso ao cível – mas “nunca será com uma eventual indemnização que se fará justiça...”.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

VINHAS, VINHOS E TASCAS

Crónica de uma certa evolução alcoólica

No princípio do Verão passado tive a ideia brilhante de dar uma passeata a Barca de Alva, atravessar o Douro e percorrer vários quilómetros de curvas e contracurvas por entre as vinhas plantadas nos socalcos que bordejam o rio, a verdadeira origem do tão afamado Vinho do Porto. Há muito tempo que não fazia semelhante viagem e pude apreciar de novo a paisagem magnífica de cores únicas, impossíveis de descrever, de uma beleza incomparável.

Deu-me para pensar, durante o percurso, como teria sido possível a construção daqueles muros, daqueles patamares imensos com a plantação intensiva e exclusiva daquelas vinhas a perder de vista, tudo sem máquinas, só a pulso e com o esforço de muitos braços, num terreno agreste, de uma inclinação complicativa que apenas terminava no rio profundo, perigoso, de corrente violenta e rápida.

Lembrei-me da primeira vez que fizera tal trajecto e da impressão fantástica que tivera, sobretudo porque era Outono e as folhagens apresentavam aquela mistura indefinida de tons entre o verde, o ocre, o vermelhão, o castanho. E no meio, salpicando a paisagem, as casinhas brancas, as adegas…

A certa altura, cansado da perigosa e demorada viagem, parei, já não sei onde, para descansar, sentei-me por momentos numa pequena esplanada, a tomar um café e a apreciar calmamente o panorama que se divisava dali.

E então os meus pensamentos levaram-me até uns cinquenta anos atrás e ocorreram-me algumas descrições fabulosas que tinha lido, de escritores do romantismo do século XIX sobre as Terras, as gentes, os seus usos e costumes, a sua difícil forma de vida no meio daquela beleza, provavelmente a única coisa susceptível de lhe trazer alguma felicidade…

As coisas evoluíram bastante, desde esses tempos do carro de bois e do cesto de vime ao ombro, vezes sem conta, montes acima.

Sempre desejei ler tudo o que me aparecia sobre esta região e o seu principal produto - o vinho. Mas mesmo há cinquenta anos, parecia-me bem difícil encontrar livros sobre vinhos, mesmo percorrendo boa parte das livrarias de referência. As edições que se encontravam eram escritas por alguém de certa elite social ou a ela ligado, eram limitadas, feitas em papel couché, primorosamente encadernadas e pouco acessíveis à maioria das bolsas.

Continuávamos ainda, nessa altura, na época das vinhas tradicionais tão idolatradas, com as cepas cuidadas sempre da mesma forma, utilizando técnica que passava de pais para filhos, desde centenas de anos atrás. Também era a época das tascas a cada esquina, aos milhares por esse país fora, quase tantas como os bêbados que ziguezagueavam nas estradas, ou caíam roncando com esforço até cair de mortos nas valetas.

O alcoolismo tornara-se uma doença comum, uma verdadeira epidemia sufragada pelas sopas de cavalo cansado a que nem as crianças de tenra idade escapavam, ao pequeno-almoço, antes de partir para a escola, ou para os trabalhos do campo. Adaptararam-se hospitais para tratar desta lacra social e a utilização ou compra de vinho foi mesmo proibida nos estabelecimentos de venda ao público, a menores de 16 anos.

Mas foi preciso entrarmos na CE para se estabelecerem regras rígidas na preparação de áreas demarcadas para o cultivo da vinha, no fabrico do vinho, na sua armazenagem, no seu transporte, na sua comercialização. E hoje, ao desaparecimento das tascas e das zurrapas, sobrepôs-se o aparecimento de bares e de marcas de qualidade declarada, registada e apreciada!

De repente, apareceram dezenas de livros sobre vinhos, de todas as formas e feitios, nas livrarias ou nos supermercados, escritos pelas mais diversas personagens, promovidos pelas mais diversas marcas e empresas do ramo, ou simples exploradores turísticos.

Um grande progresso teve lugar, portanto, nestes últimos trinta anos, quanto ao cultivo da vinha e à exploração vitivinícola.

E ainda bem.

No entanto, nesta época em que vivemos, e em contraposição, se os bêbados desapareceram das estradas onde circulavam a pé porque os carros eram raros e o nível de vida era baixo, parece que se transferiram para o interior dos milhares de automóveis que agora circulam nelas.

Que tal evolução!

Ora, se antigamente acontecia os alcoólicos virem a falecer nas bermas, agora sucede que, não só morrem eles próprios ao volante, como matam quem os acompanha ou quem apanham pela frente, tanto faz que seja na berma, como no alcatrão…

Paguei o café, enchi-me de coragem e meti-me no carro, de regresso a casa, trezentos e tal quilómetros adiante. Felizmente não encontrei bêbados no caminho e cheguei sem novidade.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

DURA LEX, SED IRS…

Crónica da Quercus e do ambiente fiscal

No país das capitais, onde já contei mais de trinta e provavelmente não são todas, começando na Capital do Norte e acabando na Capital da Chanfana, as anedotas sucedem-se na C. S., a um ritmo avassalador, sempre de acordo com o aumento do número de páginas publicadas. E ainda bem que assim é, porque os portugueses já não têm pachorra para ler coisas sérias sobre assuntos ridículos e coisas aberrantes sobre assuntos sérios, todos os dias passadas na imprensa diária. Talvez assim os leitores descuidados ou desprevenidos tenham papel de sobra para as suas necessidades ou emergências íntimas. Porque, num periódico de 100 páginas, podem ser aproveitadas 95 para esse efeito e apenas 5, com muitas reservas, para arquivo. Menos mal que agora se vão alargando as zonas dos ecopontos pelo pais fora devendo atingir, dentro de breves anos, a totalidade das zonas habitadas e, sendo assim, há sempre uma possibilidade cada vez mais alargada de reciclar o papel tão absurdamente desperdiçado, mesmo depois de usado em assuntos tão fundamentais ao corpo humano.

Já o mesmo não se passa com as árvores donde se fabrica a pasta de papel, cada vez mais cortadas cerce, sem possibilidade de reposição, tanto mais que os famigerados ecologistas se atiram como macaco à banana, aos plantadores nacionais de eucaliptos que, segundo dizem, chupam a água dos terrenos em proveito do papel, mas cujas folhas alguns poucos agricultores mais esclarecidos colhem e exportam para a extracção, sempre e só no estrangeiro, de essências para a Indústria Farmacêutica, Cosmética e outras, com lucros assinaláveis para os quais não somos, nem queremos sobranceiramente ser perdidos nem achados.

E aqui está como a Quercus, interessando-se pelo supra sumo da qualidade de vida do país, do aproveitamento integral da água e da conservação da natureza, consome muito mais papel que eu (que utilizo quase 99,9% das vezes em que escrevo, o computador), mandando para a Comunicação Social balelas atrás de balelas, a fundamentação zero!

Interessante seria que a Quercus combatesse a utilização intensiva do petróleo, promovesse a pesquisa, o fabrico económico, a armazenagem, o transporte e a utilização fácil de energias alternativas limpas baratas, como o hidrogénio, por exemplo, e se deixasse de exageros, enquanto faz uso do automóvel até à exaustão, mais do que muitos outros humanos que nem são ecologistas, ou ainda vegetam à fome, de rastos como as lagartixas que tanto protegem …

Agora está na moda destes senhores o biodisel, lançado como a panaceia universal, promovendo a reserva de milhares de hectares de terrenos, alguns ocupados por florestas protectoras, para o cultivo de plantas para abate e combustão, mas esquecendo-se de que a alimentação está em primeiro lugar para a Humanidade, com organismos geneticamente modificados ou não. Os cereais começam a aumentar de preço, as populações não comem biodisel, as áreas agrícolas depressa se degradam, e ficaremos entregues à sorte de alguém descobrir mais uma solução de recurso para quinze ou vinte anos…

Claro que estes problemas ainda não estão bem visíveis neste país das capitais, porque a C.S. perde o seu tempo com a fofoca, embora cada vez haja menos castanhas na Capital Carrazeda de Anciães, ou carne de cabra na Capital Nacional da Chanfana que é Foz de Arouce. E, quando o petróleo escassear ou estiver a uns bons centos de euros o litro, até a Capital Nacional das Rotundas que é Viseu ficará entregue aos bichos…se eles ainda tiverem que comer, nessa altura!

Também os pais vão ter, então, grandes dificuldades para obter alimentos para os filhos, mesmo que o Pai da Engenharia Nacional ressuscite, mesmo que o Pai do Satélite Português se esfalfe por resolver equações matemáticas para trazer benefícios de outros mundos, mesmo que o Pai do IRS e do IRC em Portugal ganhe todas as questões que o opõem ao fisco, como relata uma notícia caricata de hoje. Deus nos acuda!

Entretanto, e até lá, sigamos a velhinha máxima das Selecções: «Rir é o melhor remédio».


Aqui vai a transcrição da notícia, para quem não acredite no que estou dizendo:

25-02-2008 7:27:23

«Pai do IRS e IRC alvo de penhora após pagar dívida
O Fisco mandou congelar conta bancária de Paulo Pitta e Cunha, considerado o pai do IRS e do IRC em Portugal, mas o fiscalista denunciou a situação e a penhora foi entretanto anulada, revela o jornal Público esta segunda-feira.

A Direcção-Geral dos Impostos (DGCI) penhorou uma conta bancária ao fiscalista e presidente da comissão que preparou a introdução do IRS e do IRC em Portugal, em 1989, Paulo Pitta e Cunha, por uma alegada dívida de pouco mais de 340 euros…».

domingo, 24 de fevereiro de 2008

CRÓNICA DO XEQUE-MATE SALOIO

Deixem trabalhar a PJ

Acabei de ler o comentário de um «opinion maker» da nossa praça, em que referia, entre outras passagens pouco felizes, que a demissão de um Director da PJ que reside no Porto, a Capital autónoma do Norte e do Trabalho, tinha sido um xeque-mate ao Procurador-Geral da República, que reside em Lisboa, a Capital do Poder, dos burocratas e dos malandros…Não foi escrito, mas subentende-se, é tradicional.

Achei uma certa graça e não dei grande atenção ao comentário. Trivialidades destas estou já habituado a ler, há muitos anos.

Mas, aquilo que eu julgava uma bolinha de sabão, afinal era algo mais. Tinha-se transformado num aerostato! Isto porque, mais adiante, outro comentarista encartado atirava-se ao governo como gato a bofe, culpando-o de tudo o que estava a acontecer na PJ, a coitadinha de serviço neste caso, desde o descontentamento pelos vencimentos e reformas, às guerras entre Norte e Sul, às interferências «abusivas» do Ministério Público, etc, tudo por causa da não publicação de uma certa lei reformadora…

E um terceiro referia-se às rivalidades de protagonismo entre o Ministro da Justiça e o Procurador-Geral, que teria sido ultrapassado, desautorizado, etc.

Já não aguentei mais. Que será preciso para que as pessoas que escrevem se dediquem a dar ideias, a fazer comentários justos, e deixem a fofoca permanente e destruidora? O país não necessita dessas coisas

Mas a verdade é que está na moda atirar pedras, seja a quem for que tenha um mínimo de autoridade ou queira fazer um pouco de governação. A Intifada, da invenção do Yasser Arafat e seus apoiantes, tornou-se um símbolo de luta por uma liberdade ideal inatingível, aquela que não vai a lado nenhum a não ser a guerra, a destruição, a fome e a miséria.

Ora o Governo e o Procurador são, neste momento, os detentores da Palestina cá deste Burgo e vá de atirar-lhes pedras até fartar. O magistrado, que até há uns meses era o supra sumo, despromovem-no ao nível de um vulgar funcionário. O Governo que já foi, no início, o depositário de todas as esperanças para corrigir os nossos males passados e futuros, culpa-se de todo o mal que existe, de autismo, de autoritarismo feroz, de fazer tudo à bruta…e agora, a dois anos das eleições legislativas, de tudo fazer apenas para propaganda política eleitoralista...

E aqui está o retrato fiel do espírito burguês campónio, finório e oportunista do portuguesinho desta aldeia que embandeira em arco nas festividades saloias e mata à sacholada na discussão pela gota de água do poço que já não chega ao rego da horta.

A qualquer comentarista sério que se preze exige-se, acima de tudo, independência, honestidade para lá do xeque-mate tortuoso e inteligente, da intifada violenta e popularucha, de tantos malabarismos adequados às circunstâncias ou de terrorismos alqaédicos da moda, mesmo literalmente falando.

Ninguém foi capaz de chamar a atenção, e isso era o primordial, dos senhores da PJ e do Ministério Público para o facto de que a virtude está no trabalho eficaz de conjunto para que foram criados, não na fragmentação de interesses mesquinhos. Tentou explorar-se ao máximo a polémica desnecessária e a desunião que não conduz a nada.

Deixem ao menos a PJ e o Ministério Público trabalhar, que bem são precisos ao país! Não lhes inventem ou aumentem os problemas que os afligem e, sobretudo, não fabriquem ou explorem novas tricas entre eles, que só servem para corroer as instituições e a própria Sociedade.

E quanto ao governo, ponham os erros da governação a nu, sem medo e, se souberem, alvitrem soluções e correcções, não se envergonhando de confessar também quando se enganam, ou de elogiar quando ele merece. A honestidade vale milhões!

Imaginar um xeque-mate para preencher o comentário obrigatório do dia, desancando o primeiro que aparece pela frente, não é coisa que deva fazer-se, muito menos de que eu goste.

Nem o xeque-mate foi inventado para fofocas destas.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O PESSIMISMO NACIONAL E A MÁ-LÍNGUA

Pequena crónica das profecias do Bandarra

22-2-2008. Um grupo selecto de personalidades especialistas em tudo e mais alguma coisa, sábias nas mais diversas disciplinas, armou-se em profeta das desgraças, inundou a imprensa do dia prognosticando um futuro negro para o país, tão escuro que nem o Prior do Crato, depois da derrota da Ribeira de Alcântara, foi capaz de prever!

Não fora o hábito inveterado que os portugueses cultos têm de fazer sobressair o seu pessimismo sobre as coisas mais importantes da nação, da mesma forma como eles e os restantes nacionais aplicam a má-língua quando se expressam sobre o vizinho do lado, o discurso destes senhores poderia ser tomado com alguma seriedade. Assim, com o derrotismo nacional tradicionalmente instalado de alto a baixo na sociedade portuguesa, propagandeado diariamente pela Comunicação Social como uma fatalidade, mais uma achega como esta pouco ou nada importa já.

Discursos deste tipo fazem parte da idiossincrasia pátria cultivada desde há séculos, neste país pequeno como uma aldeia grande, com as virtudes e defeitos inerentes. A elevação aos píncaros das vitórias insignificantes convive com o afogamento nas profundezas pelas derrotas mais mesquinhas e incríveis, levando sistematicamente ao desânimo sem fim à vista.

No fundo, no fundo, este é o resultado da má-língua institucionalizada, ou melhor, da maledicência ensinada nas escolas, profissionalizada nos empregos, vivida na própria vida familiar e cívica em geral, publicada e propagandeada finalmente, badalada aos quatro ventos por forma a que ninguém fique imune aos seus efeitos.

O resultado é este país de casmurros pessimistas a propósito de tudo e de nada, vestidos de cinzento e negro, com os olhos postos no chão, esperando a cada momento a chegada da sentença de morte, porque nada é bem feito por ninguém, nada se aproveita em parte nenhuma, todos os outros são uma corja de incompetentes, corruptos e criminosos e cada um é sempre vítima de qualquer carrasco ao virar da esquina.

E descobriram então estes Bandarras que a nação estava em perigo de morte!

Claro que, ao longo de séculos, muitos outros já haviam profetizado o mesmo, sem resultado. Bandarra só houve um, era natural de Trancoso onde tem justamente o seu monumento, e a história prova que foi sapateiro de profissão. Não consta que artistas de outras profissões se tenham distinguido nas profecias em Portugal, por mais cultos que sejam os seus membros!

Para grandes males (a toda a hora tão apregoados), lá diz o povo, há grandes remédios. É que, nos tempos de hoje, já ninguém acredita em profecias.

Estarei errado?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A LEI DO TABACO E OS FURA-REDES

Crónica do país sem polícias, sem ficais e sem juízes

Há bastantes anos, ainda eu era novinho, o Belenenses contratou um jogador oriundo das colónias, o conhecido Matateu que, durante vários anos, foi a dor de cabeça dos guarda-redes dos clubes adversários. Marcou tantos golos que os comentadores desportivos da imprensa diária o apelidaram de fura-redes! A verdade é que o Belenenses nunca voltou a ter, desde então, nenhum marcador de golos que se lhe assemelhasse. O Matateu ficou célebre e ainda hoje é lembrado pelos adeptos do futebol, tantos anos passados, e depois de tantos fura-redes mais tarde aparecidos nos nossos relvados.

Vem isto a propósito da «famigerada» Lei do Tabaco tão badalada, requerida e elogiada antes de ser posta em prática, sobretudo pelos não fumadores, como igualmente badalada, contestada e denegrida, especialmente pelos viciados do fumo do tabaco.

Apesar das discussões eternas prévias e de todos os obstáculos levantados à aplicação da lei, coisa que em Portugal sempre acontece quando ela é publicada no Diário da República, a Lei do Tabaco lá se vai aguentando, mesmo depois dos violentos protestos contra a ASAE, cujo Director Geral foi apanhado a fumar numa zona considerada, conforme a conveniência, de fumadores por uns, ou de não fumadores por outros…

E assim, dando este caso como exemplo, muitos outros tiveram lugar, ou simples hipóteses foram levantadas sobre a aplicação correcta da lei, os seus exageros, os parágrafos a mais ou a menos, aparecendo pelo meio da discussão estéril e parva, uns quantos fura-redes fumando ou permitindo fumar, à socapa ou à descarada, com base na simples displicência…ou na sua «superior» interpretação dos parágrafos do citado diploma legislativo.

Durante muitos anos, convenci-me de que, no estudo das leis e na sua aplicação, a palavra final era dos juízes, os homens íntegros legalmente destinados para o efeito, os quais, devido ao exagero que por vezes punham na sua interpretação, eu chamava até de virgulistas…

Mas agora, com o acirrar dos ânimos dos cidadãos que por tudo e por nada, por todos os meios buscam iludir uma lei que não lhes convém, com pleno desprezo dos outros, os fura redes foram aparecendo, cada vez mais numerosos, cada vez mais refinados e virgulistas, tentando arranjar fugas para o não cumprimento dos diplomas. Às vezes conseguem, no seu preciosismo doentio, levar a melhor sobre os polícias, os fiscais e os juízes, fazendo de bobos ou incompetentes os próprios legisladores.

Ontem pude apreciar um desses desplantes que os diários assim apresentam:

Diário Digital: «20-02-2008 17:44 Fuga à legislação do tabaco: Bares e discotecas do Porto dizem ter encontrado falha na lei. A Associação de Bares e Discotecas do Porto diz ter encontrado uma falha na lei do tabaco, que permite aos empresários contornar a proibição do fumo. Basta criarem associações sem fins lucrativos para que, de acordo com a legislação, já seja permitido fumar. »



SIC: «A Associação de Bares da Zona Histórica do Porto (ABZHP) apresenta quarta-feira dois espaços que conseguiram contornar as limitações impostas pela nova legislação sobre consumo de tabaco, revelando quais os argumentos jurídicos que permitem «fugir à lei», refere a Lusa. »

«Vamos apresentar dois off-shores para a Lei do Tabaco», afirmou António Fonseca, presidente da associação.»

Parece que, neste paraíso à beira-mar plantado, não há mais nada que fazer.

E aqui está um exemplo do que existe de mais caricato na nossa legislação, por mais parágrafos que contenha, e que a torna diferente da de outras paragens; há sempre, neste país de sábios de algibeira ou espertalhões de tasca, quem descubra nas linhas impressas no D.R. a falta de alguma vírgula, nalguma passagem estratégica! O que quer dizer que, apesar dos mil cuidados postos na redacção e tecedura das leis e, apesar deles, há sempre fura-redes especializados a viciá-las, no interesse próprio ou da pandilha …

Há dias, num grupo de amigos, um deles, inocentemente, na sua boa intenção, dizia que era necessária uma polícia ou uma fiscalização implacável, para meter tudo isto nos eixos. E logo outro fazia ver que isso não daria resultado nenhum, dado o extraordinário «profissionalismo» dos tais fura-redes, e o melhor era fazer sempre leis consensuais, para não haver a tentação das fugas…Um terceiro argumentou logo que isso seria impossível, mesmo utópico. E um quarto disse ainda:

-Quem me dera que em Portugal houvesse civismo quanto baste da parte dos cidadãos!

O sexto rematou:

-A verdade é que, se esses fura-redes não existissem, os polícias, os fiscais e os juízes não seriam precisos para nada!

Também eu me atrevi a formular o meu comentário:

-Meus caros, um país sem polícias, sem fiscais nem juízes, só no Céu! Nós estamos numa democracia apenas com trinta e quatro anos de existência onde o fura-redes Matateu ainda é rei, provavelmente mais humilde e honesto que muitos outros fura-vidas emproados que por aí vingam, dando voltas à lei ou à sombra dela…

Mas tentar modificar a mentalidade de dez milhões de paisanos, enraizada de séculos, seria pura utopia, tarefa inglória e sem fim à vista. Mesmo que fosse exibido o maior poder persuasivo do mundo!

Na verdade, e por muito que isso custe a uns quantos bem intencionados, entre os quais vaidosamente me incluo, só nos resta aguentar!