segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Crónica de conversa fiada

O NOVO AEROPORTO

Começo a estar saturado de tantos pontos de vista dos sábios treinadores de bancada …Vejo que continuam a defender a hipótese Portela mais um (sendo o outro, o Montijo, Alcochete, Tires e até Sintra ou Beja!); para além das hipóteses do aeroporto único: a Portela, a Ota, Rio Frio, Alcochete, o Poceirão, veremos se não aparecem mais…

O argumento fundamental, comum a todos, é sempre o mesmo: o custo mais baixo: para uns, de imediato, para outros, a longo prazo.

Talvez valha a pena lembrar a esses treinadores de bancada a frase que fez cabeçalho durante bastante tempo, nos artigos de opinião de César das Neves: «não há almoços grátis» e que, no fim de contas, era por ele utilizada como arma de arremesso, provavelmente sem admitir ricochete…

Cada um é livre de exprimir a sua opinião e defendê-la, com os argumentos ao seu alcance, com conhecimento, honestidade e sem radicalismos. Também admito que muitos mudem de opinião, com sinceridade, à medida que lhes chegue uma informação mais correcta, embora muitos outros o façam por meros interesses partidários, económicos, estratégicos, etc., que nada têm a ver, no fundo, com a questão. Mas não me dá gozo nenhum escutar ou ler argumentos mais que rebatidos, ou mesmo falsos, enquanto outros são ocultados, não sei bem por quê. Alguém sabe, certamente.

Mas basta de conversa fiada.

Uma coisa é certa, sem margem para dúvidas: há anos que vimos investindo milhões, nas obras de ampliação e melhoramento da Portela e seguiremos nesse trilho, nem sabemos até quando (!), enquanto os tais treinadores de bancada (que são sempre assessorados, dizem, pelos melhores especialistas da República e Arredores) continuarem a mandar bocas sábias e os sucessivos governos (apoiados em técnicos de terceira), a tomar sempre decisões estúpidas…

Seguramente, algum dia iremos ter um novo aeroporto, pelo custo duplo (ou triplo) do que nos teria custado uma simples opção, se tivesse sido tomada há meia dúzia de anos atrás (com dinheiro ou sem ele, que já D. Afonso Henriques se queixava do mesmo mal) e após termos perdido, talvez para sempre, a corrida de colocar Portugal no mapa dos aeroportos imprescindíveis, na Europa e no Mundo globalizados dos Airbus, dos Boeings ou dos Antonov gigantes.

Mas deixemo-nos de lamentações!

Haverá sempre a possibilidade de apanhar um Cessna em Tires e ir a Madrid tomar o Jumbo de serviço…pois o TGV também ainda continua na discussão dos sábios, quero dizer, dos tais treinadores do costume que ainda pretendem a sua passagem pela Serra da Estrela, provavelmente para revitalização da pista de sky. Claro que poderá ser apanhado provavelmente em Badajoz…

Mas ainda bem que não sou radical. Para mim, tudo estará perfeito, desde que não me façam ir de carroça, que já estou velho de mais para isso.

Certo, desde que não me venha a cair um aeroplano na cabeça!

A propósito, ocorreu-me agora mesmo uma ideia luminosa que vou fazer chegar aos senhores jornalistas e comentadores de serviço que são quem grita mais alto e portanto quem mais manda no meu País de políticos e sábios a cada canto:

a construção de uma pista tipo porta-aviões gigantesco, no Tejo, mesmo em frente do Parque das Nações, integrando a Ponte Vasco da Gama e tudo!

Seria uma pista sem limitações de expansão futura, não exigindo expropriações de terrenos e outras traficâncias, excepcionalmente bem localizada, deixando as populações protegidas em caso de eventuais acidentes, fácil de construir com os meios técnicos actuais e, finalmente, pertinho do Pavilhão Multiusos, dos Hotéis de Luxo e do Casino!!!

Ora aí está, sem necessidade de estudos técnicos nem ambientais! Fácil, barato e dá milhões…

Bem…só não sei se a C.E. irá nisso. São uns ignorantes!

Crónica dos dias de hoje

PEQUENA HISTÓRIA


Há dias, um dos meus netos a quem os pais deram um telemóvel, apesar dos seus sete anos, o qual maneja com uma perícia que me deixa a um canto, ficou muito zangado quando lhe restringi o seu uso, devido ao saldo já quase no fim.

-Avô, vais ao multibanco, é fácil...

-Isso é que era bom. Não tenho dinheiro para isso!

-Avô, então deixa-me ligar à mãe, que ela carrega no multibanco, num instante!

A minha mulher ficou siderada.

-Estes miúdos agora...

Não permiti que concluísse. Virei-me para o meu neto e atirei, com ar censório:

-Miguel, quantos anos tens?

-Sete, avô.

-E já tens um telemóvel! Sabes tu com que idade o avô teve o primeiro telemóvel?

-Sei lá?!...

-Aos setenta!

A minha mulher fez um rápido assentimento de cabeça, mas não surtiu qualquer efeito.

Eu ainda propus conversa com os pais, pelo skype e outras alternativas similares. Mas ele abanava sempre a cabeça, até que disparou, mais uma vez, como se eu não tivesse ouvido a primeira:

-Ó avô, deixa-me ligar para a mãe...

-Não, Miguel, já quase não tens saldo.

-Então envio uma mensagem!

Fiquei sem coragem para continuar. Abandonei o combate, sorrateiramente, fugi para a sala contígua, peguei no meu telemóvel e comecei a fazer tentativas de aprendizagem para tentar eu próprio mandar mensagens...

Até agora, não tenho a certeza de ter conseguido fazê-lo com rapidez, mecanicamente, como ele o faz!

Às vezes lembro-me do D. Afonso Henriques, da sua valentia e dos seus reais, enormes problemas. Aos olhos do meu neto, se vivesse ainda, seria certamente mais nabo do que eu. E a D. Tareja, muito mais!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Crónica enviesada de espectáculo

ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

É o dia 12 de Dezembro de 2007. Há pouco, sem querer, navegando distraída e mecanicamente na net, fui parar à frase do dia do Público.pt, a beleza que a seguir transcrevo, com a data do dia 13 e tudo, o que não é de admirar, porque as revistas que se prezam trazem sempre a data antecipada de uma semana, no mínimo…

“Queira-se ou não a Assembleia da República tem má imagem e pouca credibilidade, sendo o órgão de soberania mais desprestigiado. Por múltiplas razões: do facto de ser o mais ‘exposto’ e polémico centro de poder, até ao antidemocrático preconceito contra a instituição”. José Carlos de Vasconcelos, “Visão”, 13-12-2007.

A frase do conhecido e emérito analista não alerta para nada de novo, mas é um interessante ponto de partida para a crónica. Vamos ver o que posso fazer disto.

Antes de mais, pegando na maneira de tratar estes temas pela Comunicação Social, ocorreu-me logo perguntar, como os entrevistadores encartados das nossas TVs aos desgraçados que têm a pouca sorte de lhes cair na rifa:

-De quem é a culpa?

Mas também qualquer senhor deputado em pleno uso das suas prerrogativas, se fosse entrevistado, diria logo, sem papas na língua, mesmo antes de responder directamente ao que quer que fosse:

-Estou de consciência tranquila!...

Está visto. Este estado de espírito acusador da Comunicação Social, simultaneamente polícia, advogado de acusação e juiz, muito mais que informador atempado, preciso, verdadeiro, e isento, faz tremer como varas verdes os incautos que lhe caem nas garras inquisitoriais, não vá o diabo tecê-las…

(Lá estou eu a resvalar para críticas caricaturais à Comunicação Social!)

A verdade é que nem sempre a C.S. pergunta de quem é a culpa, e nem sempre a resposta é a de alguém que se supõe de consciência tranquila.

Hoje, por efeito provavelmente, ou também, das novas tecnologias, a culpa é cada vez mais difícil de atribuir, mesmo com escutas adequadas. E, pelas mesmas razões, com tantos esconderijos técnicos a baralhar-nos, o facto de o indigitado estar de consciência tranquila cada vez mais soa a falsete…

A consciência já deu o que tinha a dar! Ninguém acredita nela. Isso era dantes, na época dos pecados veniais ou mortais, das confissões semanais e pascais e das missas obrigatórias ao domingo, porque as igrejas, nos dias de hoje, ficam meias desertas ou até fechadas por falta de sacerdote ou sacristão, que os bispos e cardeais não são para aqui chamados e só descem às paróquias nos dias de festa…

Ontem, não sei porque carga de água, resolvi sintonizar a TV no Canal 2, programa em directo da Assembleia da República, de certeza aquele que tem menos tele audiência, muito menos, de longe, que as maiores pepineiras que ali se publicitam! Ainda hesitei, por instantes. Valeria a pena estar a perder o meu tempo a ouvir piropos e lugares comuns, à mistura com acusações, devoluções e palmas orquestradas de véspera? Ou ainda a pura propaganda de caça ao voto para inglês ver, claro, porque o português há muito que já não tem pachorra para isso? Muito mais interessante seria ver a «Floribela» ou os «Morangos Com Açúcar», isto para não falar na transmissão de um qualquer desafio de futebol, mesmo da terceira divisão. Mas atrevi-me.

Consegui assim, com algum esforço, aguentar meia hora. Mas deu para confirmar a ideia que tinha em mente e concluir pestes.

Como é possível branquear, como agora se diz, a opacidade da Assembleia da República perante o cidadão comum? Acaso os senhores deputados já se debruçaram sobre isso, ou continuam a pensar que os portugueses são todos analfabetos e incultos, como nos tempos do Eça e do Ramalho, e sempre dispostos a pagar ordenados e reformas acima do comum dos mortais, a troco de uns copos de vinho a martelo? Por que desprezam tão descaradamente aqueles que tanto acarinham na altura de eleições legislativas? Acham que basta dizer ao Zé Povo que trabalham afincadamente no remanso dos gabinetes?

De repente, ocorreu-me uma ideia luminosa. A «malandreca» Comunicação Social bem poderia entreter-se a filmar o trabalho aturado dos senhores Deputados da Nação nos gabinetes, em vez de publicitar os medonhos e caricatos debates da Assembleia, reduzindo esta, no seu areópago, muito simplesmente, às votações rápidas e eficazes dos textos discutidos e burilados nos bastidores, e às sessões solenes! Era o ovo de Colombo!

Não pensei duas vezes. Na minha ingenuidade, e muito rapidamente, meti-me a passar ao papel essa ideia para enviá-la a quem de direito, qual quadratura do círculo, isto sem ofensa para um determinado programa televisivo com três comentaristas encartados mais um lançador de biscas, os quais, de tão conhecidos e repetidos, já só conseguem fixar os olhos atentos de alguns telespectadores distraídos dos anúncios dos restantes canais.

Mas cheguei atrasado. Os portugueses, tirando a gesta da chegada à Índia por via marítima, no primeiro lugar, chegam sempre atrasados! Dei-me conta, simplesmente, de que estava a esquecer a necessidade imperiosa que o Canal 2 tem de preencher o seu largo tempo de emissão, de forma educativa e económica, nesta época de contenção pública de despesas em que os melhores humoristas são pagos a peso de ouro.

E o espectáculo caricato, ou grotesco, proporcionado em certas sessões da Assembleia pelos senhores deputados, já foi pago antecipadamente por todos nós, para uma programação de quatro anos…

Mesmo assim, nessas ocasiões, prefiro a Floribela.

Como a grande maioria dos portugueses, aliás.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Estarei a exagerar?

POLÍTICA CASEIRA

Acordei cedo e mal disposto. Ainda antes do pequeno-almoço, fui para o computador ler as últimas da net, sem qualquer objectivo fixo.

A certa altura, depois de ver e ler tanta bagunça, apeteceu-me escrever alguns comentários sobre a novela que diariamente se vem desenrolando na Câmara de Lisboa. Mas, afinal, para quê? É sempre a mesma coisa... ou, como diz o povo, gira o disco e toca o mesmo. Para onde quer que nos voltemos, o panorama é igual. E ao longo da manhã, poderia ainda escolher dezenas de motivos do mesmo género.

Desisti. Em política, algumas coisas são sérias...ou parecem. Dá muito trabalho escolhê-las. Em geral, pouco do que é dito ou se publica é inocente, ou é o que parece. Fala-se de transparência linear minuto a minuto, mas os procedimentos são cada vez mais opacos e tortuosos... A politiquice tem tudo isto inquinado até aos ossos! Os políticos deviam ter um mínimo de vergonha na cara, em vez do chicoespertismo sempre pronto a actuar, sempre à espreita, sempre da última geração...

Onde é que eu teria lido que a Política era uma coisa séria? O Zé Povo é que a sabe toda, quando resume tudo numa frase: quem for sério, está tramado. Por isso, os sérios são cada vez menos!

Agora o reverso:

A Política é um mal necessário, tanto como o pão que comemos, nem sempre branco, fresco e mole, nem sempre escuro e rijo, nem sempre simples, migado, torrado, ou apenas condimentado com doce ou com manteiga, como gostaríamos... Dependemos dela, pois. Não temos outro remédio senão aguentá-la, com algumas virtudes e com todos os muitos defeitos que apresenta, alguns dos quais, ainda por cima, nos transformam em vítimas indefesas.

Quem se mete nela, tem que possuir um estofo muito especial, uma carapaça mais dura que a concha da tartaruga e um faro ou uma perspicácia mais rápida que a do lince, para conseguir sobreviver. Os brasileiros dizem-no de uma forma mais simples e eficaz: «política é p´ra leão»! (Lá estou eu outra vez a recorrer à sabedoria popular...)

Por último, à laia de compensação, durante a desgastante carreira, a «obrigação» fatal do político é prever e utilizar os furos onde encaixar os seus interesses pessoais, de forma a conseguir a almejada reforma dourada. Político morrer pobre é uma excepção, muito mais excepcional ainda que morrer na ponta de uma baioneta. Eu não conheço estátuas erigidas a políticos pobres. Devem ser extremamente raras... ou estou enganado?

Tinha pensado ficar por aqui, quando me passou pelos olhos a notícia de que um senhor deputado da nossa praça, depois de abalroar pela retaguarda o carro de outro condutor, se tinha negado a soprar no balão e voltado as costas, pura e simplesmente, ao prejudicado e ao polícia de serviço. O cartão de deputado também dá para isso? É o mais certo.

Lá bem nas linhas do fundo, no entanto, lá se ia dizendo que a Comissão de Ética da Assembleia da República provavelmente iria retirar-lhe a imunidade parlamentar, para poder ser julgado, autuado, obrigado a alguma indemnização ou qualquer outra coisa, por exemplo ser ilibado de culpa. Se isso acontecer, é bom, claro está, sempre que o honesto polícia se livre de algum aperto, ou não fique tolhido numa futura promoção…

Mais não digo, senão ainda me acusam de estar a exagerar…

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Crónica de Janeiro


Notícias e entrevistas para a posteridade

26-1-2007. O frio tem sido o prato forte das notícias durante estes dias. Claro que com alguma coisa teriam que se entreter os meios de Comunicação Social, quando escasseiam os escândalos e as «fofocas» para primeira página. Há umas horas, num noticiário televisivo, fui surpreendido pela chamada a terreiro de um jornalista enviado a Bragança, na esperança de conseguir uma entrevista sensacional…

O facto aguçou-me a curiosidade e lá fiquei à espera, de olhos fixos no pequeno ecrã. Foi entrevistado, finalmente, após algumas considerações prévias do funcionário de serviço sobre o frio inclemente que, segundo ele, atrapalhava tudo e todos, um senhor de aspecto rural, natural de uma aldeia próxima que, logo à primeira pergunta pedindo comentários aos problemas eventualmente causados pelas baixas temperaturas, respondeu calmamente que elas eram um acontecimento habitual naquele mês e naquelas paragens, ao qual toda a gente das redondezas estava habituada…E o locutor do noticiário teve que desviar a atenção dos televidentes para outra entrevista preparada em Évora, com o mesmo objectivo. Ali, sim, apesar de ser o Alentejo do calor tórrido de Agosto, a temperatura era de três negativos e uma senhora lá confirmou que estava muito frio, mas era bom que viesse a neve que ela achava tão bonita, etc.

E assim, a tentativa de criar um casus jornalístico com acidentes, reclamações e desgraças, acabou em puro fracasso. Tudo porque a neve não veio, o frio não assustou ninguém…e também ninguém se lembrou de entrevistar algum dos sem abrigo que pernoitam por aí, deitados nas lajes cobertas com o cartão de alguma caixa espalmada e tapados sumariamente com uma manta de trapos surripiada a algum depósito do lixo!

Mas talvez nem valesse a pena. São sempre os mesmos a tentar ajudar ou a contactar estes sem-abrigo a quem uma vez, numa entrevista de noite de consoada muito luminosa, muito badalada, muito festivaleira e comemorativa, aqui há alguns anos, uma jovem jornalista de casaco felpudo (seria estagiária?) perguntava, de microfone em punho, deitando de vez em quando o olhar para a câmara do operador, a um desses infelizes meio desmaiado:

-Tiozinho, o senhor está a dormir?

E como ele não respondia, ou não queria:

-Tem frio? O senhor não ouve? Sente o frio?

Então ele virou ligeiramente a cabeça, deitou-lhe uns olhos de carneiro mal morto, salvo seja, como a querer dizer, sem abrir a boca:

--Não me chateies!

E ela insistia, ao ver o seu olhar simultaneamente revoltado e suplicante:

-O senhor está sozinho? Não tem família? Sabe que é noite de consoada?...

E ele, nada! O seu olhar cada vez se punha mais enigmático, enquanto ela continuava, com o microfone ameaçador:

-Está triste? Está triste?...

Não sei como terminou a entrevista (na realidade um monólogo!), que aquilo era demais para mim. Desviei os olhos do pequeno ecrã e já não me lembro se abandonei a sala, se mudei de canal ou desliguei o televisor.

A cena não se passava em Bragança, nem em Évora, mas numa gélida noite, véspera de Natal, em plena Lisboa, sem neve, nem acidentes de maior, nem desportos de Inverno…

28-1-2007. Hoje, pelas onze e tal da manhã, caíram uns farrapitos envergonhados de neve em Lisboa e imediatamente a Comunicação Social entrou em cena, com todo o espalhafato,a mostrar a sua habitual eficiência profissional às populações ávidas de notícias. À falta de melhor…

(Enviado ao Público, em 28-1-2007)

Por terras da Beira Raiana

MIUZELA EM AGOSTO

2007. Em Agosto fui à Miuzela, passando, de caminho pela Cerdeira do Côa, sobre a velhinha ponte do rio Noémi, quase ao lado da casa da minha tia Amélia que, na companhia do meu avô (seu irmão) visitava, nos passeios de verão, aproveitando a ida a uns banhos de mergulho a um pé arroxeado, coisa que um curioso qualquer das redondezas lhe recomendara, naquela época em que os médicos na Província eram raros. Eu estava de férias, a minha avó falecera há pouco, os meus tios tinham as suas vidas, eu e o Albertino éramos as únicas companhias de que o meu avô podia dispor, naquele Verão, nos seus curtos passeios até à capela de S. Martinho e ao cemitério novo onde já havia preventivamente mandado reservar campa própria, com laje de granito. Lá viria a ser depositado, cerca de três anos depois, como ele antecipava, depois da grande partida que o dito pé lhe pregara, não obstante os esforços dos médicos do Hospitais da Universidade de Coimbra.

Passei o rio bem devagar, olhando aquelas margens e o casario circundante que me haviam sido tão familiares e, num arranque súbito, pisei o acelerador para fugir dali, rua acima, até chegar ao cruzamento com a placa da Miuzela do Côa.

Esforço baldado. A estrada de alcatrão não conseguia fazer-me esquecer o antigo caminho alargado de saibro que várias vezes passara a pé, devagar, acompanhado do meu avô, apoiado na sua bengala… através das mesmas vinhas rodeadas das mesmas paredes seculares feitas de pedregulhos de granito, com alguns pinheiros e barrocos pelo meio. Depois da curva, no alto, sobressaindo da cintura de hortas e lameiros, a Miuzela trepava pela colina, com as casas de paredes brancas e negras entremeadas, a igreja, a torre-prisão-relógio assente numa grande laje quase no centro da povoação, a escola, o formidável barroco com as três cruzes do Calvário, e a cintura de vivendas construídas pelos emigrantes de sucesso, enquanto o sol do meio dia dardejava alegremente sobre os respectivos telhados de moderna telha nacional…

Por momentos, pareceu-me ouvir os condutores dos carros incitando as vacas, os carros chiando, aos tombos pelas rochas irregulares dos caminhos serpenteando por entre as paredes das vinhas, os rebanhos passando em tropel, guiados pelos cães e pelos pastores assobiando, de cajado cruzado atrás dos ombros, as vacas pastando nos lameiros próximos…e as mulheres enxotando os burros carregados com lenha, sacos de batatas, eu sei lá que mais…

Mas a ilusão só permaneceu na minha mente por escassos minutos. Na realidade, nem um animal nas pastagens, nem um aldeão sequer na faina agrícola… Por mim passaram, em curto espaço, um automóvel, uma carrinha e um tractor.

Parei o carro num divertículo da estrada, saí por momentos, puxei da minúscula máquina fotográfica que levava presa ao cinto, à japonesa, e disparei fazendo a pontaria ao aglomerado do casario, salpicado de automóveis modernos que antevia de classe média ou média alta…

Regressei ao carro meio confundido, sentei-me e fiquei ali pensando, por momentos, nem eu sei em quê. Segui, passada a indecisão, lentamente, pela estrada alcatroada, parando junto ao monumento aos mortos da Guerra do Ultramar e à Escola Alexandra Martha da Cruz que eu frequentara aos seis anos de idade. Pela minha mente passaram, nitidamente, aqueles primeiros dias de aula, na primeira classe, tentando desenhar as letras com uma pena de aparo de bico rachado molhado no tinteiro de louça fixado na carteira, depois do professor Martins, na sua secretária, pacientemente, escrever a primeira letra de cada linha do caderno bipautado, com uma espectacular caneta de tinta permanente, a primeira que vi, na minha vida e que eu, ao chegar a casa, pedia ao meu avô para comprar… Impossível, naquele ano de 1938!

Reparei que recentemente haviam sido colocadas vidraças protectoras no espaço ligando as duas portas centrais, que no meu tempo davam entrada para a sala das meninas e a dos rapazes, e as respectivas casas de banho nos topos. Tive ganas de pedir a chave a alguém e entrar ali, cerca de setenta anos depois…Outra impossibilidade!

Caminhei a pé pela rua calcetada, na direcção do mercado, passando primeiro pelo café com mesa de bilhar funcionando, longe dos tempos das tascas da Ti Beatriz Gaga, do Álvaro e outras, onde ia, por vezes, com o Albertino, comprar a onça de tabaco «rubio» e as mortalhas ziguezague para o meu avô que, no Inverno, enrolava os cigarros uns atrás dos outros, acendendo-os, nos meses de Inverno, com uma brasa retirada da lareira com a tenaz, enquanto o fumo da lenha, nem sempre bem seca, quase me fazia chorar e lá fora a cadela Coimbra, que o meu tio Fausto levava à caça para os barrocais do Côa, ladrava à aproximação de algum visitante que avançava com cuidado na laje fronteira coberta de gelo, até bater à porta…

O local do mercado, encostado ao barroco formidável culminando nas três cruzes do Calvário, como disse, lá continuava, impossível de fazer desaparecer. Faltavam as bancas das fazendas, dos calçados, dos doces, das alfaias agrícolas. Ainda se transaccionariam porcos, vacas, cavalos, burros e muares? O dono do café já me desenganara. Agora, o negócio eram os tractores, as máquinas ferramentas, as roupas pronto-a-vestir, os rádios, os televisores, os queijos e as farturas, etc…uma limpeza que os automóveis e as carrinhas traziam, arrumavam e levavam à tardinha, com uma facilidade espantosa, juntamente com os feirantes, cada vez mais exigentes e cada vez em número mais reduzido.

As ruas onde dantes havia que fazer curvas por entre os pedregulhos e as bostas dos animais, transportando lanternas, cântaros de água e molhos de palha, estavam agora esmeradamente limpas, possuindo as respectivas tampas do sistema de esgotos, os contadores de água, os postes e as lâmpadas de iluminação, e até os depósitos para deposição de lixo, tudo numa calçada impecável, com valetas, passeios, não faltando as identificações respectivas, colocadas nas paredes das casas de esquina…

Subi ao Calvário, passando pela sede da Junta de Freguesia, o Posto da Guarda Republicana, o Centro de Dia com as suas carrinhas, a Associação Cultural e Desportiva, com o moderno ring e campo de basquete, coisas que na minha meninice eram impensáveis, porque totalmente desconhecidas…

Um velhote de oitenta e cinco anos, sentado à entrada do Centro, ainda me perguntou o que eu queria dali e, numa primeira impressão, não soube responder-lhe…Saquei da máquina fotográfica e lá me ocorreu dizer:

-Estou aqui de passagem, a matar saudades.

-Então o senhor é daqui?

--Não e sim…Os meus antepassados eram de cá. Provavelmente ainda devem andar por aqui alguns familiares…

-Ah!...

Não ouvi o que ele disse a seguir. Senti-me, inexplicavelmente incapaz de continuar. Apontei a objectiva para o Centro Cultural e para a paisagem que se desfrutava dali, despedi-me e caminhei de regresso ao carro. Avancei pelas ruelas estreitas, passando pela casa do tio António Beirão, da tia Felismina e da tia Amélia, em direcção à porta da Ti Beatriz Gaga, ao portão dos carros de vacas e curral dos meus avôs, às casas dos seus primos António Freire, César e Mariquinhas e parei em frente da escadaria da varanda de pedra que dá entrada para a porta principal da casa de família, coberta com uma formidável glicínia de alguns cem anos de idade a cuja sombra o meu avô materno me ensinou as primeiras letras, em cálidas tardes de Verão...Um automóvel estava estacionado no largo fronteiro, mesmo por trás da capelinha onde a minha avó vinha, à tardinha, com um grupo de mulheres piedosas rezar o terço, nos dias de Verão. A quem pertenceria ela agora?

Mais uma vez, não tive coragem de subir e limitei-me a tirar duas ou três fotografias. Cem metros adiante, em andaimes armados nas paredes da Igreja Matriz, dois funcionários faziam trabalhos de reparação de pintura. Olharam para o meu carro cuja marcha, vagarosa lhes pareceu estranha, tal como a minha cabeça levantada com ar inquisidor…Saudei-os e dirigi o volante para largo da fonte de chafurdo, agora definitivamente fechada, onde tantas vezes fora acompanhando a Ti Maria Sécia, a mãe do Albertino, no transporte de água para casa, carregando o grande cântaro de vinte litros à cabeça, várias vezes ao dia… O Albertino, o principal funcionário da casa, era afilhado dos meus avôs e, pela tardinha, levava as vacas ao lameiro, ali perto, depois de lhes dar de beber no tanque, ao lado da fonte. Quantas vezes também o acompanhei nesta tarefa, aproveitando para ir a cavalo, seguro nos seus braços, com grande receio da minha avó!

Decidi, subitamente, afastar-me dali. Já na estrada, de saída, virei o volante na direcção dos pedregais de Porto de Ovelha, terra de um endireita famoso que, aos seis anos de idade, me curou de uma fractura no pulso, após uma queda de um burro preguiçoso que picara com um prego, num lameiro do Vale Paião, na altura do corte do feno. São cinco ou seis quilómetros que o Albertino percorrera a cavalo, à desfilada, para chamar o homem que viera por idêntico meio de transporte, a fim de dar dois puxões ao osso, comigo quase desmaiado de dor, e recomendar a aplicação local de papas de linhaça… Ali perto, uma moderna ponte sobre o Côa, permite a passagem dos carros e prolonga a estrada, mesmo ao lado das antigas poldras, na direcção de Vilar Maior, mas também de Malhada Sorda, Freineda, Castelo Bom, Nave de Haver, Vilar Formoso e Almeida, a sede de concelho.

Como vão longínquos esses tempos de cavalgadas por montes e vales, dias inteiros ao sol, à chuva, ao vento e à neve, em trajectos que hoje se fazem em minutos, em meia hora, no máximo, por razoáveis vias asfaltadas municipais, algumas das quais não figurando ainda, por desleixo ou ignorância, nos mapas mais recentes das estradas do país.

Cheguei a Vilar Formoso, agora já sem o aparato das fronteiras tradicionais, mesmo à hora do almoço. O antigo café atascado onde uma vez, há uns bons trinta e cinco anos, apreciei duas mulheres espanholas e duas portuguesas numa operação de contrabando consistindo na troca de carne gorda por carne magra, na presença cúmplice de um guardia civil e de um guarda fiscal, era agora um respeitável restaurante, mesmo ao lado da bonita estação de caminho de ferro forrada a belíssimos azulejos, mas quase sem movimento. Ali decidi almoçar, curtir por um momento as minhas mágoas e saudades da manhã e saborear depois um cafezinho, antes de partir para outras aventuras…

Consta que, actualmente, a Miuzela e Porto de Ovelha são as duas aldeias, em todo o país, onde é maior o número de licenciados por cem habitantes. Será exagero? Não sei. Entre outras personalidades, é da Miuzela um General de topo do Comando das Forças Armadas e de Porto de Ovelha o juiz Procurador-Geral da República. Mas é evidente que só lá vão nas férias, tal como os emigrantes

Crónica familiar...


PONTO DE VISTA

Hoje recebi uma opinião de um sobrinho com bastante cultura e um artista na escrita, em apreciação de alguns textos do blog. Referia ele que eu cada vez me fazia mais cáustico, sobretudo para a Comunicação Social, poupando os feitos dos governantes…certamente porque, perante os seus actos e as suas responsabilidades há sempre muito que dizer.

Está certíssimo. Não lhe tiro um grama de razão.

Mas há uma explicação para essa minha escolha. A Comunicação Social é que me põe ao corrente das notícias e não o Governo, a Autarquia, ou a Instituição, quaisquer que sejam a tendências partidárias, religiosas, profissionais, etc. E a minha experiência de largos anos abriu-me os olhos para as «malandrices» postas a circular através do papel de jornal, da rádio, da TV, e agora da Internet, umas vezes inconscientemente, outras propositadamente, a verdade é que cada vez mais repetidamente, quase constantemente!

Claro que a Comunicação Social repete permanentemente que é apenas o veículo das notícias e só pretende mostrar as virtudes ou defeitos da origem…mas, ocultando sempre as fontes, fica o rabo de fora do gato do sábio ditado popular…

A realidade, pois, é bem diversa. A Comunicação Social nem sempre se limita à transmissão verdadeira pura e simples das notícias e ao relato exacto dos factos, mas exerce uma actividade selectiva deles, usando critérios próprios; critica-os de acordo com as suas variadas tendências, conveniências, ou objectivos, quanto mais não seja tendo em vista o rendimento comercial imediato. Os artigos pagos e os anúncios encaixados são a garantia de vida da Imprensa escrita, oral ou televisiva. E, além disso, a propaganda subliminar exercida pela Comunicação Social é incomensurável!

Portanto, há que ter cuidado em extremo com o que sai na C.S., hoje em dia. E cada vez se torna mais difícil extrair a verdade de uma notícia, do embrulho em que nos é servida, por bem simples que pareça ser. Exagero? Não!

Ainda não falei, por exemplo, de alguma investigação jornalística superficial, medíocre e pouco fundamentada.

Ainda não falei, por exemplo, da avidez de transmitir notícias na corrida, antes do vizinho da concorrência, nem que para isso tenha que inventar-se uma passagem, antecipar-se uma hora, subentender-se um pormenor…chegando por vezes a noticiar-se, como tendo ocorrido, factos na realidade adiados ou inexistentes!

Ainda não falei das parangonas de acusação de pessoas, de lançamento de boatos, de ataques incríveis, directos ou encapotados a personalidades, órgãos de soberania, incluindo a própria Justiça, instituições, etc., tantos dos quais sem provas concludentes, baseados apenas nas «dicas» das célebres fontes ocultas…

Ainda não falei dos artigos pouco isentos ou até propositadamente tendenciosos de certos comentaristas, funcionando quase como anúncios de direcção única…

A Liberdade de Imprensa tudo permite. Ela é, nos regimes democráticos actuais, sobretudo um extraordinário e quase invencível poder, como é fácil constatar através da existência dos verdadeiros trusts dos EUA, da Itália, da Inglaterra, da Austrália…e do Portugal da pequena escala. A Imprensa é a notícia, mas principalmente o comando, a polícia, o fiscal e, simultaneamente, o acusador e o juiz impoluto e sem culpas. É falacioso pensar que um jornal, por exemplo, pode ser condenado por qualquer infracção à lei. Em algumas situações acontece, de facto, mas sempre sem grandes consequências. E no caso de haver vítimas caluniadas, é impossível indemnizá-las cívica e moralmente do mal que lhes foi feito e não tem preço.

Mas nem por um segundo sou contra a classe ou a profissão jornalística, tantas vezes sujeita às condicionantes actuais do cruel mercado de trabalho, como outras. Na Imprensa, como em tudo, há muitos e bons profissionais, outros nem tanto.

Finalmente, e para cúmulo, a grande Imprensa demite-se quase totalmente de grande parte das suas responsabilidades, impondo ao público o crime pormenorizado, o escândalo, a fofoca, sempre à frente da acção cívica e formadora das populações, coisa deixada, vamos ver até quando, à pequena Imprensa Regional ou local que sobrevive honestamente a duras penas.

Desta maneira, opto muitas vezes por deixar de lado uma possível crítica dos poderes constituídos, sejam governativos, autárquicos, institucionais, etc. A razão é simples: em primeiro lugar, uma crítica honesta e objectiva dessas entidades é sempre difícil, quando os elementos de base estão na posse dos eventuais criticados, no topo da hierarquia, geralmente com dados muito mais precisos e concretos que aqueles de que o cidadão comum pode dispor; em segundo lugar, os elementos que chegam às nossas mãos são aqueles que a Comunicação Social fornece, com transparência ou opacidade variáveis. É arriscado pois, honestamente falando, partir daqui para comentários além da superficialidade corriqueira, da maledicência pura, ou da fofoca política, sendo preferível esperar para ver…o que faz perder muitas vezes o sentido da oportunidade, está visto.

Por isso, é-me mais fácil e cómodo, egoisticamente falando, confesso, fazer comentários a certos comentários que deixam a porta aberta… e é rápido. Penso ter-me explicado.

Para terminar. Alonguei-me demais nos vícios da Comunicação Social. Poderia, já agora, como medida de compensação, avançar com a enumeração das suas enormes e incontáveis virtudes, se isso não fosse uma tarefa impossível…e desnecessária. Basta uma referência, em meia dúzia de palavras, para branquear largamente todos os defeitos que diariamente lhe atribuímos:

O Mundo não seria o que é hoje, sem a sua importantíssima intervenção. Nem pode viver sem ela.

Eu, muito menos!