terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ECONOMIA DE POLEIRO


Cada cabeça, sua sentença

Já passava da meia-noite, resolvi dar uma vista de olhos pelas sentenças abalizadas dos nossos economistas encartados, na cerimónia da comemoração do décimo aniversário do euro. Pensava eu que iria encontrar a solução para os numerosos problemas da nossa economia e algumas dicas interessantes sobre a crise financeira e económica que atinge o mundo inteiro, mas fiquei desapontado.

Tudo o que consegui apurar foram lugares comuns, bocas para a plateia enquadradas nos conhecidos chavões tornados populares como bens de consumo, inflação, recessão, deflação, rendimento disponível, produtividade, emprego, crédito, endividamento, investimento, união monetária, e por aí fora.

É certo que a economia já não é o que era dantes, na minha óptica uma ciência altamente positiva onde o único chavão que se ouvia era o «produzir e poupar», como mandava o Salazar. Hoje trata-se de uma ciência de muitos chavões, muitas complicações, muitos palavrões, onde a maioria das cabeças especialistas na matéria andam a reboque dos acontecimentos, emitem muitas sentenças lapidares, e obtêm os fracos resultados bem consolidados que vemos... Mesmo os Prémios Nobel da Economia, tão celebrados na sua altura, não conseguem mais de três ou quatro anos de confirmação das suas teorias, caindo redondamente, ultrapassados pelos acontecimentos, o que significa, num certo sentido, que a Economia anda sempre a reboque desses mesmos acontecimentos, embora fosse suposto que os seus gurus deveriam andar à frente.

Curiosos hoje são também os títulos da imprensa que pretende acompanhar as sumidades: A entra em colisão com B e C. C discorda de B e A. B concorda com A e manda recados a C ...

É assim a vida. Cada qual se julga o supra-sumo, mas estatela-se ao comprido logo a seguir, isto é, a crise bandarilha-os a todos, e muito bem estaremos nós se eles não acabarem com uma estocada igual à que lhes aplicou a crise dos anos trinta.

O que me preocupa é que não sei o que andaram a fazer desde essa altura até aos dias de hoje. Já nessa ocasião o fiasco da Bolsa lhes tinha dado uma lição formidável, mas não serviu de nada, mantendo-se eles teimosamente nas suas pomposas teorias de economia falaciosa. Por incrível que pareça, também nada devem ter aprendido da lição de economia centralista do Bloco Além Muro.

E agora, não sei se uns quantos aldrabões da Banca Norte Americana e Europeia que aprenderam as técnicas comezinhas e bem portuguesas do Alves dos Reis e da D. Branca, e as executaram numa escala muito maior, chegarão para abrir-lhes os olhos, porque continuam a não querer pensar a sério numa modificação do sistema económico-financeiro mundial e persistem na mesma panaceia da Bolsa...Qual?

Estou certo de que, resolvida a crise actual ao fim de dez ou quinze anos, por si própria e não por acção dos sábios economistas, é certo e sabido que lá estarão eles de novo todos encostados à Bolsa, até que apareça outro Madoff para lhes ensaboar a cara outra vez e nos deixar de rastos a todos nós. Bem sabemos que é o que acontece de tantos em tantos anos...mesmo sem ter aprendido mais que a economia caseira.

No intervalo das crises, esses sábios lá se vão entretendo, executando cálculos de sumir, fazendo jus aos seus belos ordenados e mandando recados ao pagode aflito que conta os tostões para sobreviver...

Agora até se apoiam no desgraçado do Barak Obama que julgam ser remédio santo para tudo, e ainda nem tomou posse. Coitado dele, nos tempos que se aproximam! E os economistas todos, que andam a fazer? Nada! Acusam os políticos, lavam as mãos como Pilatos, mandam bocas uns aos outros, fingem resolver mil equações de mil resultados para as mil incógnitas... e aguardam tranquilamente!

Mas, afinal, que sei eu de Economia, para estar também aqui a mandar dicas e a fazer avaliações de tantos entendidos na matéria, eu que apenas sei gerir com pinças a minha magra reforma?

Peço desculpa a todos esses senhores, se os ofendi. Foi sem querer.

É que, meus caros, só ouço o pessoal a falar da crise, mas numa barafunda de acusações mútuas e de soluções sempre inconclusivas, como se ela fosse, em Portugal, um bicho-de-sete-cabeças! Não sabem nada de História. Ela já vem do tempo de D. Afonso Henriques e só a valentia e a abnegação de uns quantos heróis conseguiu iludi-la, de vez em quando, ao longo dos séculos. Provavelmente é o que nos falta agora, num tempo em que só abundam as teorias, a corrupção e as lamentações...

De positivo, ainda não vi quase nada, nem da parte dos senhores economistas nem de outros especialistas, para debelar a tal crise para a qual alguns, muito bem caladinhos, já tinham chamado a atenção há tempos e outros, mais ratões ainda, tinham ou têm a solução ideal mas não dizem!...

É por estas e por outras «palermices» que apregoam e tentam impingir-me diariamente que estou triste e descrente, mais uma vez. Ponham-se de acordo, trabalhem a sério e, ao menos, não chateiem!

A minha última esperança é que apareça entretanto um novo Roosevelt na América (como na crise dos anos trinta), e ponha em prática alguma nova ideia luminosa para nos tirar a todos do fosso. Até lá, há que aguentar o mais estoicamente que for possível.

Desculpem, mas isto é grande demais, não vai só com as vossas desencontradas e baratas generalidades de poleiro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

MORTE NA ESTRADA


O desprezo das evidências

Parece um pleonasmo, uma aberração, mas a verdade é que há evidências que só se tornam visíveis depois de muita falta de visão ter manietado a inteligência.

Um jovem servente de pedreiro regressou da Suiça, onde estava emigrado, à sua terra natal, sentado ao volante de um carro desportivo que fora o seu sonho de menino. Resolveu, logo no dia seguinte, convidar duas garotas suas amigas de infância, a dar uma voltinha na sua máquina nova e, poucos minutos depois, a alegria transformou-se em tragédia. O bólido, a 200 quilómetros à hora numa recta com várias lombas, despistou-se, no piso húmido, partiu-se ao meio contra um pinheiro e incendiou-se deixando os três ocupantes desfeitos e carbonizados.

Evidentemente que a estrada, o carro, o condutor e as amigas não estavam preparados para o que aconteceu. Também os familiares das vítimas, os vizinhos e amigos, a própria população de Ferreira do Alentejo não estavam. Ninguém estava preparado para tanta evidência, para mais numa trágica comemoração de um aniversário, em pleno início do Ano Novo!

Mas a evidência só se tornou real e visível aos olhos dos que escaparam, depois da ceifa mortal que tivera lugar. Nenhum dos circunstantes tivera a visão de alertar previamente os acidentados para a evidência que estava à vista de todos...

É sempre assim. As evidências mais evidentes só se tornam visíveis após o desastre em que a falta de visão foi evidente, ou a própria visão foi obnubilada.

Durante vários anos, o itinerário principal 5 foi conhecido pela estrada da morte, o I P 5 de má memória, apesar das evidências conhecidas de todos, o mau traçado da via, a deficiente sinalização, o enorme trânsito que o ocupava e, mais que tudo, a evidente falta de cuidado e de cumprimento das regras de condução pelos motoristas que o utilizavam. Era evidente que, com o conhecimento propagandeado aos quatro ventos, das deficiências da via, os condutores se rodeassem de cautelas, cumprissem rigorosamente as regras de trânsito e os diferentes sinais de limitação ou aconselhamento existentes ao longo do percurso. Mas essa evidência raramente foi vista a tempo. Geralmente, só se tornou evidente depois de cada morte ocorrida, e foram muitas, ao longo destes anos.

Um diário aponta hoje para mais uma evidência post mortem. A auto-estrada A 25 matou, num ano de uso, um quarto das vítimas do anterior IP5 que veio substituir. Certamente isso aconteceu, mais que tudo, pela separação física das vias de circulação de sentidos opostos, o que veio quase impossibilitar os choques frontais, e não pela evidência de má condução só tornada visível aos próprios quando já era evidente a impossibilidade de alterar comportamentos...

Era evidente, previsível que as camionetas de reboque e os pronto-socorros viessem a ter menos utilização, com a abertura ao trânsito da auto-estrada, mas isso só se tornou visível com a publicação das contas da Brigada de Trânsito, no fim do ano, e a contabilidade dos operadores que viviam à custa dos acidentes.

Tantas evidências à vista, sempre desvalorizadas, cansam. Mesmo a quem é inteligente, paciente ou usa óculos.

É caso para pensar, evidentemente, por que motivo os perigos mais evidentes nos deixam quase sempre cegos, patetas, indiferentes na altura própria?...

Não consigo ver a razão da nossa cegueira, do nosso desprezo por essas tremendas evidências. Quem sabe, talvez o motivo seja a nossa íntima convicção de que somos superiores a tudo e a todas as evidências...

E é evidente que não.

domingo, 4 de janeiro de 2009

MÉDICOS FALTOSOS


A falta de competição

Quem não faz nada, um dia há-de ter vergonha. Foi com estas palavras que o administrador do Hospital de S. João, no Porto, vai publicar, em locais de acesso aos funcionários da unidade, os nomes dos médicos com elevado absentismo. O objectivo é sensibilizar os profissionais de saúde para aumentar a qualidade de trabalho.

Poderá parecer um exagero de gestão, tratando-se de funcionários com um índice cultural elevado, mas o cumprimento do dever não se mede pela cultura nem pela sapiência, ou pela falta delas.

Há cerca de três anos, a administração dos hospitais viu-se na necessidade de implementar um sistema de marcação de ponto, utilizando as impressões digitais do indicador direito, devido à burla das presenças verificada na assinatura dos livros de ponto, o que já era uma vergonha intolerável. Nessa altura, os protestos dos Sindicatos e da Ordem foram tremendos, para vergonha dessas próprias instituições. A Ordem, ao menos deveria dar, na altura, uma boa reprimenda aos seus associados e aconselhá-los a cumprir as suas obrigações.

Agora, verifica-se que nem a assinatura digital resulta, na totalidade, porque há médicos que faltam sistematicamente, justificando com atestados continuados as suas desmedidas ausências. Mas não são só os médicos a faltar despudoradamente.

Diz ainda o administrador do S. João: “É preciso que se desmistifique a ideia de que só acontece com os médicos”, sublinhou António Ferreira. Contudo, explicou a estratégia de alguns funcionários públicos: “Temos profissionais que faltam 59 dias, vêm trabalhar dois ou três e faltam mais 59, com base em atestados”.

Chama ainda a atenção para dois factos que revelam a falta de sentido do dever que ronda por aí. No funcionalismo público, a taxa de absentismo bruta é de 14-16%, enquanto nos contratos individuais de trabalho anda à volta de 1%, o que explica muita coisa...

Não quero dizer com isto que toda a Função Pública é incumpridora das suas obrigações, pois tem, como todos os empregos, bons e maus profissionais, mas a ideia que, desta maneira, se passa para o exterior, não pode ser boa.

Pessoalmente, com mais de trinta anos passados em empresas privadas com numerosos trabalhadores, nunca verifiquei que se ultrapassasse a fasquia de 3% de faltas!

No caso dos médicos dos hospitais, onde muitos serviços são executados em grupo ou em inteira dependência uns dos ouros, como nas cirurgias, certas análises, etc. a falta de um elemento pode acarretar graves problemas. Eu próprio, em determinada ocasião, estive três horas medicado, numa maca, aguardando a entrada para a sala de operação que não chegou a realizar-se pela falta de um elemento da equipa...

Que poderá optimizar-se ou fazer-se de forma razoável, com funcionários injustificadamente faltosos, trabalhando ainda por cima, num hospital?

A falta de médicos, resultado de largos anos de numerus clausus corporativa e disfarçadamente aprovados, conduz a estas e outras aberrações. Este é o maior problema do nosso Sistema de Saúde, não tenhamos dúvida, e só terminará quando existirem médicos suficientes, em competição pelo emprego, como sucede nas noutras profissões.

Mas quanto tempo ainda vai isso demorar, no passo de cágado em que andamos, com cerca de 2500 médicos estrangeiros contratados, com numerosos alunos a cursar Medicina em Espanha, em Inglaterra, na República Checa, em França, eu sei lá mais onde, e os doentes a sair para Cuba, Espanha, etc. a fazer simples operações de cataratas, rapidamente e a metade do custo?

EXEMPLOS


Portugueses de primeira

Ontem tinha descoberto, num jornal, o exemplo extraordinário de um médico com 93 anos de idade e 68 de exercício e aprendizagem permanente da profissão. Não contente com esse exagero de trabalho, competência e humanitarismo, continuava a cumprir a sua missão profissional, dando consultas durante cinco dias na semana. O seu maior desgosto era ter uma neta, quase médica, que discordava frontalmente do seu «exagerado» profissionalismo sem horários, sem tempo para descansar ou dedicar aos seus...

Hoje, a notícia que me deixou «arrasado» foi a de um senhor de 83 anos que continua a dar aulas no ensino superior, a orientar teses de mestrado e doutoramento e prepara a publicação do próximo livro. Padre até aos 50 anos, escreveu livros, foi pai, conselheiro, psicoterapeuta e professor possuindo um brilhante currículo académico onde se incluem quatro licenciaturas, algumas em universidades estrangeiras, e dois doutoramentos. Vive nos arredores de Coimbra, em cuja universidade formou várias gerações de psicólogos e, apesar de jubilado há 13 anos, ainda se desloca, às quartas-feiras, ao Porto, para leccionar. Tem várias publicações no activo e não lhe sobra tempo para nada.

Diz ele, com modéstia que, «enquanto cá estiver, continuarei ao dispor de quem precisar».

Casos destes são exemplos dignos de registo, numa época de exigências permanentes de benesses sem dar as devidas contrapartidas pessoais.

Gostaria de poder falar com estes portugueses exemplares e tentar penetrar no íntimo das suas consciências, para apreender na íntegra as suas faculdades de inteligência e humanismo, a sua forma de convivência com a sociedade à qual prestaram uma vida inteira de serviços sem queixas nem reclamações, sem radicalismos políticos ou doutrinários, com a única exigência de querer trabalhar sempre mais, para o bem comum, até morrer...

Na sua biografia não constam atitudes agressivas, actos de oportunismo ou corrupção, jogadas menos honestas e faltas de amizade ou lealdade para com terceiros. Nem consta que se tenham oposto a aumentos de trabalho nem à avaliação escolar ou profissional, durante toda a sua vida, porque souberam sempre ser os melhores...

Que mais poderá dizer-se em abono destes senhores?

Apenas que são portugueses de primeira.

E pena é que sejam apenas raras excepções, no panorama nacional.

sábado, 3 de janeiro de 2009

OS MAIS VELHOS DO MUNDO


Sem falácias nem penachos

A mulher mais velha do mundo, a portuguesa Maria de Jesus morreu, esta sexta-feira, na freguesia da Madalena, em Tomar. Tinha 115 anos.

Levantou-se, tomou o pequeno-almoço como habitualmente, e foi enviada por precaução ao hospital, numa ambulância, devido a um pequeno inchaço...

Aqui fica mais um registo para o Guiness, no que a senhora parece ter sido fértil. Na realidade, Maria de Jesus nasceu a 10 de Setembro de 1893 na freguesia de Urqueira, concelho de Ourém, acabando por percorrer três séculos, sobrevivendo a numerosas dificuldades da vida, tendo como única precaução conhecida a abstenção de bebidas alcoólicas e de café. De há um tempo a esta parte, tomava, como único remédio, um comprimido de conhecido hipotensor.

Mas o mais interessante da vida desta senhora nem é a sua resistência física, num ambiente de trabalho e de pobreza, rodeada de filhos, netos e demais descendentes, mas a sua vontade de viver, pois já depois de fazer os cem anos, aprendeu a ler, corajosamente.

Também é de realçar a coragem desta mulher que atravessou não sei quantas crises económicas, políticas e sociais, mudanças de regime e de formas de vida, guerras, fomes, misérias, revoluções e desatinos sem conto. A tudo conseguiu sobreviver, devido talvez à sua postura cheia de bondade e isenta de radicalismos, dando aos portugueses e ao mundo em geral uma lição tremenda e inesquecível de trabalho, numa convivência exemplar em sociedade.

Em Portugal, apesar das páginas e páginas de notícias aberrantes com que os jornais e as TVs se esmeram em preencher todos os cantinhos das nossas vidas, já cheias das numerosas dificuldades do dia-a-dia, sabe bem, de vez em quando, ao menos, ter conhecimento de exemplos destes, aos quais deveria ser dado mais espaço jornalístico do que um cantinho em rodapé, no meio dos grandes relatos dos assaltos do dia. Honra seja feita ao Diário de Notícias que já noticiara, há meses, a ida do Presidente da Câmara de Tomar à homenagem do último aniversário da senhora, apresentando-lhe os cumprimentos da população e trocando dois dedos de conversa com a velhinha que ainda mostrava razoável entendimento.

O Diário de Notícias de hoje, noutro espaço a desdizer do habitual décimo de coluna reservado geralmente a estes acontecimentos, dá a notícia de que, na freguesia de Grijó, vila nova de Gaia, vive o «jovem» Augusto Moreira, de 112 anos feitos a 6 de Outubro de 2008, o homem mais velho de Portugal desde o falecimento, ontem, de Maria de Jesus.

Trata-se do quarto homem mais velho do mundo e o segundo da Europa! Como curiosidades, a notícia dava os seguintes factos da sua vida atribulada, também cheia de trabalho e de dificuldades: aos 108 anos ainda andava de enxada na mão, lavrando os campos, e bebia a sua pinguinha de tinto, desde jovem!

Não dizia a notícia se o Augusto Moreira sabia ler ou não, como a Maria de Jesus. No entanto, podemos estar cientes de que ambos podem ser considerados uns autênticos sábios da verdadeira postura moral a seguir na vida, certamente donos duma felicidade interior sem ambições, sem exageros, sem condecorações, mas duradoura...

Alguém disse já que a felicidade não tem idade. Mas que dizer de quem soube mantê-la durante uma vida mais que centenária?

Um outro caso citado no jornal, fazendo igualmente jus ao espaço concedido, é o de um médico de 93 anos, com 68 de exercício da profissão, que já tratou mais de um milhão de doentes ao longo da sua carreira, e continua a exercer durante cinco dias por semana, num verdadeiro sacerdócio tão raro nos nossos dias.

Vem esta notícia a propósito de outra muito mais destacada, acerca de uma medida em estudo pela Ministra da Saúde que prevê a possibilidade de utilização voluntária de médicos reformados para colmatar a falta de clínicos em algumas áreas do sobrecarregado Serviço Nacional de Saúde.

A qualquer um poderia ter ocorrido semelhante ideia, que em tempo de guerra não se limpam armas. Mas o trágico da reacção a esta medida é que o Sindicato dos Médicos e a respectiva Ordem vieram já protestar, defendendo os seus interesses corporativos a todo o custo!

Não é a primeira vez. Há uns meses, a Ordem e o Sindicato protestaram violentamente contra a Administração e contra um médico reformado que exerceu sem uma queixa, durante quinze dias no Posto de Saúde de Odemira, a substituir o clínico oficial doente.

É caso para perguntar, a estes senhores onde acham eles que está a felicidade e o cumprimento mais adequado do Regimento de Hipócrates, no desempenho altruísta de um colega com 93 anos, ou na defesa calculista dos seus negócios, sem respeito pelos doentes?

O mundo está às avessas e não é por culpa da cultura, da ciência ou da sapiência dos homens, mas unicamente por causa das suas ambições desmedidas, da sua concupiscência.

Como foi, e ainda é diferente a atitude daqueles idosos que até teriam razões de sobra para protestar, como a Maria de Jesus, o Augusto Moreira e o médico Armindo Ribeiro, que levaram uma vida exemplar ao serviço do próximo, sem falácias nem penachos!...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES


O meu, o teu e o deles...

A primeira coisa que cada Presidente da República diz, após ser eleito, é que, a partir daquele momento, é o presidente de todos os portugueses. Efectivamente, é assim que manda a Constituição, e eu acredito piamente que ele o sinta, de alma e coração. Acredito também que, ao longo do seu mandato, cada presidente se esforce ao máximo para cumprir a sua missão, a contento de todos, embora de acordo com o seu entendimento, as suas convicções pessoais, os seus conhecimentos da Nação e dos seus problemas em geral.

O simples bom senso diz-nos que é nessa base que o Presidente pauta a sua acção e prepara os seus discursos à Nação, qualquer que seja o motivo porque o faz.

No Ano Novo, qualquer presidente que se preze digna-se dirigir aos seus representados os seus votos tradicionais de Bom Ano, quase sempre acompanhados de algumas palavras de circunstância, geralmente redigidas com o maior cuidado, para não ferir susceptibilidades, numa quadra de paz e de fraternidade universal.

Mas as palavras nem sempre são o que parecem, nem sempre parecem aquilo que se pretende dizer, nem sempre são tão inócuas ou cheias de bondade como se quer. O português é um idioma matreiro que permite interpretações diversas com uma simples entoação, uma simples mudança de vírgula, um simples acento ou alteração de ordem...

E os portugueses também são exímios nas interpretações mais diversas de uma mesma frase, de uma mesma palavra...

Meia dúzia e frases feitas, conhecidos lugares comuns repetidos diariamente por meio mundo, podem assim prestar-se às mais variadas elocuções de retórica barata.

No começo deste ano, as interpretações do discurso do Presidente, feitas pelos vários partidos políticos e pelos comentaristas das diferentes cores e tendências, foram as mais diversas, para não fugir à regra costumeira.

Alguns viram ali recados brandos, outros ameaças veladas, outros ainda conselhos de pessoa avisada, os últimos uma consonância com as suas posições próprias, todos enfim uma forma de aproveitamento das suas intenções, uma subliminar maneira de fazer a sua própria propaganda e o descrédito dos partidos opostos.

É caso para dizer que o discurso de fim de ano do Presidente, redigido como um lugar comum para todos os portugueses aos quais era dirigido, na melhor das intenções, serviu às mil maravilhas, aos politiqueiros de serviço, como arma de arremesso para desferir os golpes baixos habituais nos seus inimigos de estimação e de coroa de louros às suas próprias hipóteses ou propostas.

Nada que não estivesse previsto.

Antes de ouvir as palavras do Presidente, também eu já tinha intuído o que se iria passar. E foi com um sorriso de condescendência que esperei alguns minutos apenas, também previstos, pelas primeiras reacções.

Senti uma onda de riso inicial, na confirmação das minhas suposições, e logo a seguir um sentimento de pena e tristeza pela falta de respeito dos diferentes partidos e comentaristas pelos portugueses em confraternização, os quais têm a infelicidade de os ler e ouvir...

O Presidente não estava a falar em código, não necessitava da intervenção de tais tradutores ou intérpretes, e os portugueses também não são assim tão burros, não haviam pedido a sua intervenção, mas tiveram que gramá-los!

Aposto que, se o presidente dissesse apenas Bom Ano Novo a todos os portugueses, não conseguiria livrar-se dos comentários bizarros de uns quantos, ou de algumas críticas ferozes de outros, pretendendo ver nelas o que Maomé não descobriu no toucinho. Muitos haveriam de criticar ideias que julgariam subjacentes, sem estarem lá, e muitos mais criticariam também a falta de outras tantas no texto.

Afinal, para essa gente da política, o Presidente é meu, é teu, é deles, sempre de cada um à sua maneira, como se encarnasse a fase querida da metamorfose e nunca atingisse o insecto perfeito...

Também a maior parte da imprensa não transmitiu o discurso na íntegra, retirou pedaços e intercalou os seus comentários, nem sempre isentos. Mas é livre.

Por isso, cada um deve possuir a sua boa dose de paciência e fazer o seu quinhão de esforço para conseguir pensar sozinho, sem a ajuda de tais muletas.

A vida é uma opção constante, no meio de mil condicionantes...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

CUBA LIVRE


A tentação da coca-cola

O líder cubano Fidel Castro felicitou o «heróico povo» pelo 50º aniversário da Revolução que o levou ao poder, em mensagem publicada nesta quinta-feira na capa do jornal oficial Granma. Fidel, com 82 anos, está afastado do poder e tem sido substituído pelo seu irmão Raul Castro.

Creio que a dinastia familiar termina aqui.

Entretanto, Raul Castro entende que, apesar das dificuldades, a revolução cubana não falhou.

Nem outra coisa seria de esperar de líderes tão agarrados ao poder, num país que se vangloria, há meio século, de ser a vanguarda do socialismo (o seu, claro) onde a população tem uma vida nivelada por baixo e cerceada da maioria das suas liberdades individuais.

Não é estranho também, a todo este processo de degradação implementado, o cerco económico imposto pela colossal nação vizinha, o qual só será levantado quando o sistema político implantado na Ilha der mostras claras de modificação.

Independentemente da justeza ou não do cerco americano e da teimosia do governo cubano, o «heróico povo» não passa disso mesmo, sendo a única vítima desses radicalismos que não fazem sentido, mesmo que cimentados durante cinquenta anos.

Não falando já na falência da URSS, a China empreendeu inesperadamente, de há uns anos para cá, uma adaptação realista, com crescimento económico espectacular, mantendo ainda o controlo do regime ditatorial governamental no topo do sistema...

Essa inteligência ou capacidade de adaptação às realidades não teve Fidel Castro e parece não ter também o seu irmão e sucessor.

Por isso, milhares de emigrantes continuam a abandonar sorrateiramente Cuba todos os anos, fugindo da Pátria da Igualdade, da Pobreza e da Opressão, onde foi simplesmente decretado viver livre e feliz, para o chamado Império das Riquezas, das Desigualdades Sociais e da Liberdade bem ou para o mal utilizada...

A atracção é fatal!

Mesmo que os irmãos Castro não queiram abrandar a ditadura do sistema governativo, o seu fim aproxima-se inexoravelmente. Alguém disse já que o Futuro da Revolução Cubana depende da sua capacidade de evoluir, coisa que os chineses intuíram inteligentemente, mas os dirigentes cubanos parecem negar-se a compreender.

Por quanto tempo ainda poderá Fidel elogiar o heroísmo do povo cubano? Um momento haverá em que este povo heróico e sofredor se sentirá cansado de chamar obrigatoriamente heróis aos ineptos líderes da revolução e não suportará mais a degradação e a apatia a que o condenaram com eternas promessas de púlpito, incumpridas.

É muito provável até que os cubanos já prefiram neste momento, se os deixarem, ser menos heróicos e festejar o primeiro dia do ano com coca-cola e umas pedras de gelo.

Vai sendo tempo de acabar com tais teimosias encapotadas ou disfarçadas de jargões políticos ultrapassados, apregoando enganadoramente Cuba Livre...

Quando será?