Crónicas e comentários é um conjunto de textos baseados, maioritariamente, nas notícias vindas a lume na imprensa, mas também em outras variadas fontes e julgadas interessantes de apreciação pelo seu autor, independentemente do conteúdo.
Existiam em Portugal mais de dois milhões de fumadores, segundo dados do Inquérito Nacional de Saúde, de 2005. "Um estudo feito por uma empresa científica" parece indicar que esse número deve ter baixado pelo menos 5%, num ano de aplicação da lei antitabaco, o que equivale a cerca de 100.000 fumadores. Também «22% dos fumadores alteraram os seus hábitos, fumando, em média, menos nove cigarros por dia.»
Isto significa uma descida extraordinária na prevalência do tabagismo em tão pouco tempo e um benefício visível nas condições de saúde dos portugueses, em geral. Mas não nos pode fazer esquecer a confusão que se estabeleceu na sociedade portuguesa, um tempo antes antes e logo após a promulgação da lei.
Antes, foi a gritaria dos fumadores que viam o seu vício dificultado no futuro, sendo ainda obrigados, coisa que nunca lhes tinha passado pela cabeça, a não fazer fumar os que nunca tinham querido fazê-lo. Numerosas vozes se ergueram em defesa do fumo do tabaco, apenas condicionado à vontade do fumador inveterado. Chegaram alguns comentaristas encartados, do alto dos seus púlpitos, a culpar a lei de atentado à sua liberdade, passando por cima da liberdade dos não fumadores que eles próprios, sem respeito nenhum, obrigavam fumar, à força, com total impunidade.
Depois, foi um levantar de problemas de toda a ordem, nos locais de trabalho, nas salas de espectáculos e de reuniões, finalmente nas lojas, nos cafés e restaurantes, onde os fumadores eram praticamente os ditadores absolutos e incontestados.
Para culminar, foi metida no circuito a ASAE, culpando-a, a torto e a direito, de exageros na fiscalização, da perda de negócios do pequeno comércio, da caça à multa e muitas outras coisas mais.
Paulatinamente, a lei começou a ser cumprida, com protestos aqui e ali, até à sua aplicação correcta. Hoje, 94% da população entende que a nova lei protege a saúde. E um terço dos inquiridos (35 por cento) está de acordo com as restrições impostas, que a entrada em vigor da lei teve efeitos benéficos na melhoria da sua saúde, sobretudo para quem sofre de asma, alergia e rinite...
Ainda bem. Chega de desatino e confusão.
Vai sendo tempo das pessoas compreenderem que, em democracia, não podem fazer tudo o que querem. Melhor, é tempo de compreenderem que têm deveres a cumprir, a esforçar-se para corrigir os seus vícios e, não sendo possível, agir ao menos de forma a não prejudicar os seus vizinhos que não têm culpa disso...
Também não faria mal nenhum à nossa sociedade, nesta entrada do ano 2009 que agora se aproxima, se uma certa publicidade maldosa, um certo tipo de discurso agressivo e uma certa postura egoísta fossem mais honestos, mais comedidos, muito menos exuberantes.
Tenho em cima da mesa o Dicionário da Língua Portuguesa 2009, da Porto Editora.
Já o comprei há dois meses e não sei quantos mais terá de impresso, porque não diz. Mas também não importa muito, porque é de 2009, para 2009 e para depois de 2009, não sei por quanto tempo.
A curiosidade deste dicionário é que já traz as duas grafias, antes do acordo (aAO) ortográfico e depois (dAO)...É óptimo (aAO) ou ótimo (dAO), conforme se queira, até que a grafia acordada seja tornada obrigatória.
Sempre assim aconteceu com todos os acordos ortográficos, pela impossibilidade de aplicar uma nova ortografia de forma instantânea, como muitas pessoas pensam.
Também não é nenhuma tragédia o acordo ortográfico, como outros tentam fazer crer. Desde 1911 houve várias alterações e acordos, e à falta de maleabilidade e teimosia de alguns «sábios» se deve a existência de muitas das divergências de hoje, nas versões brasileira e portuguesa do idioma. Penso que este acordo, não sendo o óptimo para cada uma das partes, é uma acção de grande importância linguística e política, para todos os países da língua portuguesa. Tudo o resto é pura defesa de interesses mesquinhos, de vistas curtas, sob a capa de princípios de ética ou de defesa de étimos que, desde D. Afonso Henriques, têm vindo a ser alterados, a gosto ou a contra gosto dos entendidos ou das academias. E o importante, sempre que há alterações, é que todos saibamos escrever português conforme fica estabelecido e compreendido, nos países de língua oficial portuguesa e fora deles, com especial relevância para as altas instâncias internacionais.
Desde que me conheço, já passei por algumas transformações ortográficas. Longe de mim voltar a escrever como nos meus tempos de menino, de estudante de liceu, ou mais tarde ainda...
Parece-me que este acordo ortográfico (ratificado em Portugal pela quase totalidade dos deputados em Maio de 2008) é, sobretudo, confluente e corajoso, em oposição às tímidas, paralelas ou até divergentes modificações feitas no século XX, permitindo desta feita a unificação da escrita do Português, como exige a Grande Pátria Lusófona, à semelhança do Inglês, do Francês e do Espanhol.
A aplicação de um acordo deste tipo é coisa complicada, envolverá todas as escolas, muitas entidades e serviços, algum esforço de aprendizagem, persistência e o abandono de posições de teimosia e resistência. Está visto que essas situações de oposição renitente não são da maioria das populações, mas de alguns doutores do idioma. Mas sempre assim foi. As alterações ortográficas nunca tiveram o apoio total dos sábios. A maioria delas foi imposta pela voz popular ou pelo poder político, com os académicos a reboque.
A Porto Editora, ao imprimir o novo Dicionário da Língua Portuguesa 2009, com 265000 entradas, está dando um exemplo de nacionalismo e de eficácia, transferindo para um livro de uso corrente o que começava a andar por aí nos opúsculos, algumas vezes de consulta mais complicada e nem sempre à disposição.
Mais uma telenovela parece ter chegado ao fim, com a promulgação do Estatuto dos Açores. Digo parece, porque ainda poderá ter continuação a pedido de vários interessados, quando o Estatuto tiver que ser aplicado, em determinadas condições.
Mas, para além do que possa acontecer no futuro, o que já se passou foi um perfeito drama ou, se quisermos, um conjunto de cenas trágico-cómicas levadas a cabo por actores de primeira plana do nosso circo político-mediático.
Houve, efectivamente cenas com actos para todos os gostos, onde não faltaram as cambalhotas de trapézio, as palhaçadas do costume, as ameaças do domador, as incompetências das feras, o fim de cena com o seu ar de tragédia...
E no entanto, cá vamos todos, cantando e rindo, levados, levados sim, como se nada... como se se tratasse só de um circo!
O Presidente da República promulgou finalmente o documento, contra sua vontade, mandando os correspondentes recados aos partidos políticos que o encostaram à parede. Depois do burro morto, como diz o povo...
Agora, durante vários dias, a imprensa, os comentaristas ou analistas políticos vão entreter-se com o tema e entreter a população com as suas teorias, os seus próprios recados, as suas bizarrias, as suas jogadas, as suas fofocas...
E na altura própria, também o Tribunal Constitucional poderá intervir, abrindo a possibilidade de novas cenas, de novos actos com toga e tudo.
Cá estaremos todos, de ânimo levantado, para aguentar estas tropelias todas, sem piar! E por quê piar, se fomos nós todos que votamos nestes actores?
Várias «ligeirezas» ocorreram, durante todo este processo legislativo, a nível partidário, a nível parlamentar e a nível presidencial.
Em primeiro lugar, não se compreende a falta de estudo exaustivo da Constituição pelos deputados, assessorados pelos melhores constitucionalistas. Esse estudo deveria igualmente ter sido levado a cabo pelos Partidos e pelo Parlamento, para não deixar quaisquer margens para dúvidas, no que se refere ao diploma a votar e à sua aplicação futura. Os Partidos e o Parlamento, cuja obrigação é defender a constituição que votaram favoravelmente, já não a conhecem, já não se revêem nela, ou já a desvalorizam? Felizmente que o Tribunal Constitucional existe, para suprir estes anacronismos, mas poderiam ter-se evitado discussões, votações, atrasos e o ferir de susceptibilidades que sempre ocorre, pelo meio.
Em segundo lugar, não se compreende que um partido vote em unanimidade com os restantes, por duas vezes, o mesmo diploma, e se abstenha à terceira, com medo de zangar os correligionários das Ilhas, com vergonha da cambalhota suprema de votar contra. Aconteceu, mesmo assim, uma aprovação maioritária por dois terços dos votantes, o que obrigou o Presidente a promulgar a lei.
Em terceiro lugar, não se compreende que o Presidente, que tão seguro se mostrou da inconstitucionalidade de um certo artigo do diploma, como esgrimiu na sua declaração amarga à Nação, não o tenha enviado em tempo à apreciação do Tribunal Constitucional. Preferiu a comodidade ou a visibilidade da posição (ou oposição) política, arriscando demasiado e sem necessidade, vindo a perder por um voto!
Por que o fez?
Que lhe terá passado pela cabeça ?
Teve receio de que o Tribunal validasse o documento, contra a sua opinião?
Ou supôs que os partidos da oposição, com o seu incluído, não permitiriam a sua aprovação, como pretenderia?
De nada servem as suas amarguras e a tentativa de passar a culpa a outros, lavando as mãos como Pilatos, porque o último erro do espectáculo circense a que presidiu foi apenas seu!
Mais uma vez o Primeiro-Ministro, tranquilamente, tirou um coelho da cartola, por habilidade política pessoal, mas também por mera incompetência dos seus ineptos opositores. Tenho que lhe tirar o chapéu, como único actor coerente nesta cena de tantos actores desastrados, tenha ou não tenha razão, coisa que não quero discutir. Há por aí sentenças a mais, para quem quiser tirar as coisas a limpo...ou talvez não...
Já estou velho para ser actor de teatro, sinto-me bem no meu observatório, e cada vez tenho menos paciência para assistir aos espectáculos...
Assim vai a nossa Democracia, de representação em representação, de discussão em discussão, cada vez espremendo menos sumo para dar aos portugueses, cada vez mais espremidos e baralhados eles próprios, cada vez mais enredados nos seus próprios labirintos...
Quem disse que a linha recta era o caminho mais curto entre dois pontos?
Após vários dias de sol, a chuva miudinha vem fazer-nos uma visita prolongada, segundo avisa o Boletim Meteorológico. Por vezes engana-se, mas tenho a convicção de que agora vai acertar.
O boletim da convicção é uma coisa tramada!
Podem vir os argumentos mais valiosos e convincentes, que não conseguirão nunca desmontar a sua estratégia que reside precisamente em não ter estratégia nenhuma. A convicção existe, e pronto!
É minha convicção, desta vez, que, não só a chuva miudinha vai continuar, como é costume, sempre que se apresenta, como vai transformar-se em bátegas a atordoar-nos por alguns dias, para alegria dos agricultores que anualmente, de há uns tempos para cá, aumentam as suas queixas da escassez de água.
Ainda bem. Há uns anos atrás, por causa da falta de chuva na altura prevista, tivemos uma seca de truz, com a água a ser racionada e distribuída pelos bombeiros às povoações mais desfavorecidas. A minha convicção é que, no próximo ano, não vai haver seca generalizada, em Portugal. Palavra do meu boletim de convicção.
Mas, voltando à chuva miudinha, os brasileiros chamam-lhe garua, palavra que não vem nos dicionários honestos, como muitas outras de uso corrente. Os africanos designam-na por cacimba, palavra que os portugueses usaram, mas já substituiram definitivamente pela chuvinha e, sobretudo, pela expressão simultaneamente mais prosaica e certeira de chuva molha tolos.
Os portugueses são fantásticos para arranjar expressões precisas, caracterizadoras, marcantes para toda a vida. Neste caso, andaram à chuva, no meio ou à volta dela, sem qualquer protecção, já se vê, e molharam-se, os tolinhos! Já D. Afonso Henriques os tinha avisado sabiamente que quem anda à chuva, molha-se, mas eles não aprenderam, ou desvalorizaram os oportunos conselhos do nosso primeiro rei. Mal agradecidos!
O guarda-chuva, está claro, não é usado pelos tolos, neste caso. Pensam que não vale a pena levar, nem abrir, que a chuvinha não molha nada. Além disso, o guarda-chuva custa a abrir, a dobrar e a fechar, a palavra é composta, coisa que não acontece na maioria dos povos que inventaram uma palavra simples e assim não se molham nunca, como acontece com os nossos aliados ingleses que não dispensam a umbrella. Até os franceses tão dados a rococós, e que foram durante muitos anos os nossos mentores, simplificaram para parapluie e nuestros hermanos espanhóis, muito parecidos connosco em tantas palermices, arranjaram a simplificação apressada do paraguas...
Seja por influência dos ingleses, dos franceses ou dos espanhóis, a verdade é que não saio à rua sem o dito, nestes dias de chuva miudinha, porque não quero fazer de tolinho, como boa parte dos portugueses que se julgam sábios quando saem, nestes dias, e lhes sai o tiro pela culatra...
Ontem mesmo, adivinhando o que aí vinha hoje, visitei o meu chinês de estimação, no quarteirão em frente, e fui comprar um desdobrável, ao preço da chuva, pensava eu...mas ao preço da chuva, como se dizia dantes, já nem a própria chuva se consegue, nos tempos que correm.
Mas há contradições do diabo.
Tenho verificado ultimamente que até os chineses lutam com grandes dificuldades para manter as suas lojas abertas. Os supermercados estão a ficar inundados de artigos chineses, importados directamente da origem, a preços sem concorrência. Só falta já colocarem os rótulos e os letreiros em mandarim ou pequinês, nos artigos e nas prateleiras...
E como dirão eles chuva molha tolos?
Para comprar o guarda-chuva, ontem, não precisei de falar chinês, bastou-me fazer o gesto...
Acabou-se-me a pedalada e apetece-me sair, mas andar à chuva, nunca.
Olho pela vidraça e vejo que ainda continua a cair a mesma chuvinha pegajosa...
Logo o boletim meteorológico teria que acertar, desta vez!
O desejo de Festas Felizes é consensual., nos países de cultura ocidental e cristã. Sempre que possível, junta-se a família, confraterniza-se, trocam-se prendas e abraços, fazem-se votos de saúde e de uma vida melhor para o ano que aí vem. Para que tal aconteça, os familiares distantes metem-se no carro e fazem longos quilómetros, sem descanso, na ânsia de chegar mais cedo à casa de família. Alguns deles sofrem graves acidentes de viação, encontrando o hospital ou a morte, numa viagem sem regresso. Marcam assim, definitivamente e para sempre, esta data festiva, com o carimbo da desgraça, no espírito de familiares e amigos.
Há muitos anos que todos os portugueses falam na necessidade de pôr cobro a estas velhas desgraças da Quadra Natalícia.
Os sucessivos governos decretam medidas restritivas ou punitivas, todos os anos, as autoridades de vigilância das estradas destacam cada vez mais agentes e em turnos sempre mais alargados, sem grandes resultados. Estranhamente, parece que, nestes dias que se supõem de paz e de festa, muitos portugueses perdem a cabeça, exageram nos festejos e acabam na paz do cemitério.
«A GNR fixou hoje em dez o número de vítimas mortais nos cinco dias da Operação Natal. O balanço da Brigada de Trânsito refere 1.153 acidentes e 65 condutores detidos, dos quais 30 apresentavam uma taxa de alcoolemia igual ou acima de 1,2 gramas por litro de sangue.»
O relatório da Brigada de Trânsito é muito mais extenso, citando um número não despiciendo de condutores sem carta, sem seguro, sem cinto de segurança, e por aí fora, demonstrativos de uma total falta de civismo e de respeito pelas leis e pelos semelhantes que circulam nas mesmas estradas. Um destes energúmeno, por exemplo, foi apanhado com uma taxa de alcoolémia de 3,0 gramas, e outro a conduzir a mais de 200 quilómetros à hora numa estrada convencional...
Mas o que mais chama a atenção de um leitor atento é o desprendimento com que estes números são olhados pela população em geral, como se fossem uma fatalidade sem remédio, como se apenas coubesse aos governos e às autoridades resolver um problema que é, sobretudo, de cada um. E nada é mais errado que esta postura, da parte dos cidadãos.
Infelizmente, o que se aprecia por aí são as justificações mais incríveis para os atropelos às regras. Citam-se, por dá cá aquela palha, o mau traçado das estradas, a deficiente sinalização, a iluminação inadequada, a irresponsabilidade dos peões, a caça à multa por parte das autoridades, a má colocação dos sinais, os desajustados valores-limite afixados nos radares e nas placas limitativas de velocidade, enfim, mil e uma coisas, menos a responsabilidade do condutor.
Pior que isso são os artigos escritos em revistas da especialidade com responsabilidades acrescidas e que frequentemente se entretêm com textos desse mesmo jaez, numa defesa ridícula dos condutores pelas más razões, em lugar de incentivá-los, de estimulá-los a cumprir os seus deveres, a tornear as dificuldades de condução que inesperadamente aparecem a cada passo, a sair airosamente ou com menos perigo de problemas como um furo ocasional, uma fuga de óleo de travões, uma fractura acidental do pára-brisas, uma situação de encandeamento, uma actuação correcta nos casos de acidente, etc., etc.
A população desvaloriza todas estas incongruências. Estou certo de que pouco ou nada fará, de sua própria iniciativa, para dar a volta ao texto. E bastaria apenas um pouco mais de educação cívica, em casa, na escola, no trabalho, na rua, para diminuir drasticamente o número de acidentes e de mortes nas nossas estradas. Tão simples como isso, e tão difícil!
Por isso, talvez aberrante, mas sendo cada vez mais consensual, é que muitos pensam que a única forma de diminuir acentuadamente esta hecatombe de vítimas da estrada é a repressão policial, a fiscalização e a multa pesada, sem as quais o portuguezinho esperto não consegue viver, muito menos fazer qualquer coisa de jeito, mesmo para seu próprio benefício!
Estarão a exagerar? A árvore gigante iluminada e colorida, montada no cimo do Parque Eduardo VII, tornou-se hoje num local de peregrinação dos lisboetas, originando uma pequena embrulhada de veículos, praticamente sem polícia à vista, mas sem desgraças, que eu saiba...
Mas o Ano Novo aproxima-se e novos acidentes terão lugar, infelizmente com numerosos mortos e feridos, como de costume.
Há uns setenta anos, ninguém, em Portugal, sabia quem era o Pai Natal. Mesmo as renas eram animais quase só conhecidos dos nórdicos, e apenas os estudiosos, fora da Escandinávia, sabiam da sua existência.
Os presépios eram o louvor da Igreja e dos fiéis em honra do Nascimento de Cristo, desde os tempos medievais, e os animais mais utilizados na representação foram sempre, até aos dias de hoje, o burro, a vaca, o camelo, e as ovelhas...
A invenção do Pai Natal vestido de vermelho, sentado num trenó carregado de prendas e puxado pelas renas, teria que ser, fatalmente, dos Lapões, dos Suecos, Noruegueses e Finlandeses. A Comunicação Social e o Comércio desenfreado, incentivado sem dúvida pelas apetências e habilidades americanas, devem ter concorrido, decisivamente, para a sua institucionalização na maior parte dos países do Globo.
Hoje não há beco por esse mundo fora onde o Pai Natal não seja conhecido de graúdos e miúdos, viajando pela neve real das zonas geladas ou mais ou menos algodoada das zonas tropicais, ao encontro do pinheiro nórdico ou plastificado, com a sua estrelinha prateada no cimo, e as bolinhas e luzinhas a piscar em redor...
Os presépios, a pouco e pouco, apesar da resistência da Igreja, foram sendo relegados para segundo plano ou mesmo transformados em puro negócio de supermercado, subsistindo algumas maravilhas de arte nas catedrais, ou fechadas à chave, e aqueles que a devoção dos fiéis ainda constrói por aí, especialmente nos meios rurais.
Agora, em vez de presépios, as árvores de Natal, já plásticas na sua maioria, ocupam as praças, as ruas, as casas dos fregueses, com a miudagem dedicada ao seu enfeite...
Também a antiga tradição das prendas no sapatinho colocado de véspera na chaminé, ao lado do Menino deitado nas palhinhas, foi à vida, trocada pela descida do Pai Natal, depois da meia-noite, descarregando os brinquedos e zarpando num ápice, sem ser notado, sem deixar nem um ligeiro salpico de fuligem...
Nem isso já existe. As crianças agora nascem espertas, não engolem essas do sapatinho, nem do Pai Natal, nem quaisquer outras mentiras poéticas bem intencionadas. Hoje é pão, pão, queijo, queijo! As coisas não têm piada nenhuma, mas os comerciantes adoram! O Pai Natal é uma forma de embelezar a casa, de presentear os filhos, os familiares e os amigos com prendas a demonstrar amizade, ao menos de uma maneira fugaz, nesta quadra especialmente concebida para celebrar a fraternidade entre os homens, que deveria comemorar-se durante todos os dias do ano.
Também não é assim que acontece.
Os mísseis e os aviões espalham a destruição e a morte na própria Terra onde Cristo nasceu para pregar e lembrar aos homens que são todos irmãos. Pelo que vemos, nem sempre com resultados positivos. E no resto do Mundo as coisas não correm de melhor forma.
Num País que é o topo da civilização que nos rege, um maníaco, disfarçado de Pai Natal, lembrou-se de fazer das suas, levando a morte como prenda a uma família e amigos que comemoravam a noite sacra em volta da árvore enfeitada e iluminada... Ao bater à porta, perfeitamente uniformizado, uma criança de oito anos abriu, sorridente, para dar-lhe um beijo, levando um tiro como retribuição. Igual prenda sofreram oito familiares e amigos, na maioria crianças! Este Pai Natal assassino, foi a seguir incendiário, e acabou por cometer suicídio, pouco tempo depois.
No Iraque, No Paquistão, na Índia, no Afeganistão, na Somália, no Zimbawue, na Guiné-Conackri, no Sudão, na Palestina, em meio mundo (e até à nossa volta) a morte, a violência, e a fome fazem das suas. Estes flagelos cá estão a lembrar-nos que a vida é transitória e deve ser bem gerida, mas que não tem qualquer valor para muita gente, tanto faz que uns comemorem o Nascimento do Menino Deus ou que outros se regalem com a chegada do Pai Natal carregado de prendas, ou não liguem nenhuma á efeméride.
Não há respeito nem amizade por ninguém, queixamo-nos nós, de vez em quando. E, no entanto, ainda somos uns felizardos, no meio destas misérias, neste campo de tantas contradições que é o mundo em que vivemos.
Mesmo na minha frente, tenho um pequeno presépio de cores vivas, em madeira, execução manual de mãos habilidosas de indígenas humildes e respeitadores das tradições ancestrais dos Andes Peruanos, com as diversas figuras nas posições habituais, sem armas, sem drogas, perfeitamente ingénuas, sem intenções ocultas...
Como gosto de permanecer a olhá-lo, esquecendo tudo, tranquilamente, e a imaginar as sensações que devem ter passado pelas mentes dos seus simples executantes...
Não há dúvida de que este foi um ano de excessos, com ataques terroristas em locais insuspeitados, demissões de governos não previsíveis, crise económica e financeira que já levou bancos à falência e países à beira da banca rota, milhões de pessoas a morrer de fome, desemprego a tentar a escalada e muitas outras coisas que dariam para encher várias páginas.
O sentimento geral de frustração e de insegurança alia-se a um recrudescimento de um certo radicalismo em todas as circunstâncias, a que não é estranha a globalização imposta pelas tecnologias da comunicação em que vivemos.
Alguém me dizia, há tempos, que eu culpava a imprensa de muitos sucessos, quando ela era apenas o veículo, a cara dos acontecimentos...Mas eu insisto.
A imprensa, por mais neutra que possa parecer quanto aos eventos que relata ou comenta, é sempre intervencionista. Se não fosse ela, grandes faixas da sociedade, a nível mundial seriam ignorantes do que acontece e estariam proibidas de intervir, ou de receber simplesmente os benefícios e as desgraças daí resultantes.
Quando, há muitos anos, um eminente cientista e filósofo disse mais ou menos, para escândalo de muito boa gente, que o bater das asas de uma borboleta no Arizona originaria uma catástrofe na Cochinchina, ninguém, até os mais avançados em conjecturas, poderia prever que pormenores muito mais insignificantes viriam hoje a ser ainda mais determinantes, na vida de cada um. E, à medida que o tempo passa, mais e mais se acentua a interdependência das populações, neste universo em que o equilíbrio que gera o bom senso, e a liberdade se tornam cada vez mais difíceis, exigindo de cada um mais regras, mais inteligência e cooperação com os semelhantes, mais abdicação daquilo que até há cinquenta anos julgávamos intangível, em troca de novas tecnologias, novos vícios, novas necessidades, novas comodidades e novas misérias...
No meio de tantas conjecturas, do acelerar constante dos novos conhecimentos, sentimos, por vezes que a Humanidade se desumaniza, se transforma em números, em estatísticas, em matemática pura, abstracta, sem alma, navegando no macro e no micro sem consideração pelo Eu, pelo Presente, pela Vida. É certo que grandes sábios da Matemática, da Física, da Química ou da Biologia sempre trataram de fazer essa Matemática inteligível mas, para o comum dos mortais, a sua linguagem não passou de frases ininteligíveis ou de lugares comuns, sem sentido. Por outro lado, a Matemática mais comezinha também por vezes desespera os sábios e nem sempre é apreendida pelas maiorias.
Por exemplo, uma notícia, veiculada na imprensa de hoje, dá conta de que o ano de 2008 vai ser, exactamente, maior que os antecedentes, porque a Terra se atrasou, no seu movimento de rotação. E assim, «na passagem de ano, o último minuto de 2008 contará com 61 segundos!
Não se trata de um bónus, mas de uma necessidade de acertar o Relógio do Homem com o Relógio da Terra.»
“Nós usamos, ao nível internacional, uma escala de tempo atómico e essa escala é muito mais precisa do que a Terra. Para que não existam grandes diferenças entre a escala de tempo atómico e a rotação da Terra é necessário haver pequenos acertos”.
Tão simples como isso, tão complicado como a notícia faz crer, ou vice-versa, tudo dependo do sábio ou do ignorante, do literato culto ou do alfabetizado iliterato que passam os olhos pela notícia...
Hoje é dia de Natal do ano de todos os excessos, até de um segundo a mais antes do fim.
Uns dias atrás, os guerrilheiros do Hamas lançaram mísseis provocatórios sobre território israelita e, nesta madrugada de oração e respeito para islamitas e cristãos, a aviação judaica mandou-lhes uns petardos de retaliação que causaram vítimas, enquanto o Papa e M. Abbas, em plena zona sagrada de Jerusalém, davam honras ao Senhor, como se pregassem no deserto...
Porque, afinal, quem dará importância a estas palavras de paz proferidas para multidões?
A imprensa globalizadora e hipócrita fá-las ressoar, de uma ponta à outra do planeta, mas como se fizessem parte de um gigantesco anúncio comercial ante o qual todas as boas intenções e todas as celebrações moral e secularmente impostas são desvalorizadas em luzinhas e balões, em festejos, em ágapes lautos e escandalosos, em trocas de presentes sem significado, enfim, num simples e geral encolher de ombros...
Talvez esta barafunda artificial e a sua furiosa publicação comercial sejam, sem dar-nos conta, os maiores excessos deste ano, maiores que todas as crises económicas e financeiras que se adivinham por aí. Também elas, como todas as outras, não terão solução à vista sem o regresso da paz às consciências.
E a paz armada, que a humanidade sempre desejou aplicar, nunca foi nem será remédio definitivo, como todos os radicalismos, como todos os excessos...
Então por que será que o Homem, sabendo isso, se obstina, teimosamente, na aplicação das soluções erradas que vem fazendo, desde o exacto momento da sua criação?
Ou alguém pensa por aí agora que, com este excesso de um segundo no tempo de rotação da Terra, de tantos em tantos anos, virá a regeneração da Humanidade?