terça-feira, 23 de dezembro de 2008

BOLO-REI NO GUINESS

Força, portugueses!

Depois do mega cozido de Riba d´Âncora, da semana passada, pede-se mais um pouco de paciência aos portugueses ansiosos, que o Guiness ficará de novo à sua inteira disposição!

A grande notícia do dia 22 diz que «Matosinhos apresentou, este domingo, o maior bolo-rei do mundo, com 2 500 quilos, para garantir mais um registo português no «Guiness Book of Records».

Como é possível? Na minha perspectiva, não se trata de um único bolo-rei, mas de dois mil e quinhentos bolos de quilo, ligados uns aos outros, por algum pasteleiro habilidoso que conseguiu fazer as ataduras à socapa, de modo a que ninguém conseguisse detectá-las. E, sendo assim, os papalvos que se puseram a olhar para o bolo-rei gigante como boi para palácio, foram comidos, enquanto esperavam comer a sua apetecida fatia.

Mas provavelmente isto é apenas má-língua da minha parte, talvez eu esteja a exagerar. Eles, afinal, só desejavam colaborar num acto de benemerência de um pasteleiro bondoso, porque a notícia continua assim:

«O bolo foi vendido em fatias, em frente ao edifício-sede da Câmara de Matosinhos, com a receita a reverter a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC)».

A partir daqui, eu penso que se trata, não de um, mas de vários recordes a inscrever no Guiness, que me perdoem os autores da ideia original.

Primeiro, o tamanho descomunal do bolo-rei, ainda que meio aldrabado, na minha óptica malvada.

Segundo, um bolo-rei como receita a reverter para a luta contra o cancro, na freguesia do Senhor de Matosinhos, coisa que nunca tinha sido vista, naquelas bandas!

Terceiro, «o facto de o Bolo-rei ter sido apresentado, pela primeira vez, em frente ao edifício da Câmara». O tema é novamente de suma importância para Matosinhos e demonstra que em Portugal poderá haver crise de muitas coisas, mas não há crise de bolo-rei, de há vários anos a esta parte.

Quarto recorde do Guiness, o Porto foi destronado, finalmente, depois de dezoito anos de luta acérrima entre os respectivos pasteleiros porque «actualmente, o Guiness regista como maior bolo-rei do mundo o que foi confeccionado no Porto, em 1990, também por iniciativa do gestor de empresas Victor Antunes e dos seus amigos e cuja venda também reverteu para a LPCC.»

Quinto recorde a inscrever no Guiness, o número de pasteleiros utilizados: «A confecção do bolo-rei, que tinha dois elos e 17 metros de diâmetro, mobilizou 30 pasteleiros durante 15 horas.»

Ora aí está! De gente deste quilate é que o País necessita, em todas as profissões. Bem, em todas não direi, porque de pasteleiros estamos bem servidos...

Tencionava terminar aqui o artigo quando, encarei com a notícia da guerra do bolo-rei escangalhado, verdadeira novela pasteleiro-jurídica, em que «o Tribunal de Braga absolveu, na sexta-feira passada, os dois proprietários e o pasteleiro da «Nobreza», acusados pela Pastelaria Paula do crime de contrafacção por alegadamente terem copiado o denominado «bolo-rei escangalhado». Só faltava mais esta!

A notícia, à boa maneira jurídica, dava todos os pormenores do grande evento, com as intervenções dos advogados, das testemunhas e dos juízes, onde não faltava um relato histórico da invenção do bolo-rei escangalhado, há uns bons quarenta anos...

Esta seria, pois, a sexta possibilidade de inscrição no Guiness, de uma só vez!

E comecei a ficar enjoado.

Mas para cúmulo, o Diário Digital trazia ainda, logo na peugada, o título com a notícia seguinte: «Bolo-rei para diabéticos no Rossio!» «Campanha Natal Azul», a Associação Protectora de Diabéticos de Portugal (APDP) e a Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) vão distribuir mil unidades de um bolo azul, com base «numa receita adaptada ao nível das dosagens e dos ingredientes de modo a poder ser ingerido por diabéticos».

É também apresentado um prémio de jornalismo para distinguir trabalhos e ao mesmo tempo incentivar o desenvolvimento de textos sobre esta doença.»

E por aí fora, linhas e linhas fazendo jus a uma sétima inscrição no Guiness. Somos mesmo muito bons, nisto!

Sete inscrições no Guiness, só à conta do bolo-rei, não são façanha para qualquer um! Portugal vai longe. Força, portugueses!

Pela minha parte, peço desculpa de não dar o meu contributo. Já estou velho para estas pepineiras.

Fiquei farto.

Vou dar uma voltinha, por aí, para espairecer.

Que me perdoem os oportunos jornalistas e os eméritos pasteleiros a quem me atrevo a dar um conselho simples, de amigo, com muitos anos no activo:

-Não abusem!

domingo, 21 de dezembro de 2008

CIRCO DEMOCRÁTICO

As cambalhotas dos artistas

Para que se não diga que sou contra o regime democrático, começo por lembrar aquela frase, dita assim ou de forma parecida por um eminente político do séculoXX, segundo a qual a Democracia era o pior dos regimes políticos, enquanto não se descobrisse outro melhor.

Efectivamente, estas palavras são de uma extraordinária precisão e simplicidade, merecem-nos completa aprovação e toda a confiança possível. Podemos, pois, atirar-nos, com unhas e dentes, contra a Democracia, seguros de que nada de melhor iremos conseguir. Mais, podemos estar seguros de que, quanto mais expusermos os podres da democracia, mais ela se renovará e crescerá, como um cogumelo no meio do estrume, para gáudio e prazer dos apreciadores da boa mesa! Quem tal diria!? Ou melhor, quem já teria suspeitado disso, a não ser alguns estudiosos das Ciências da Natureza?

Estamos conversados.

O famigerado Estatuto dos Açores foi o cogumelo que saiu do escaldante caldo de cultura, semeado pela Assembleia da República e adubado pelo Presidente da República., onde proliferaram as sentenças de artistas vários de todos os quadrantes da Política, da Magistratura e da Imprensa, exibindo cada qual as suas habilidades, como num circo.

Na realidade, as cambalhotas políticas a que fomos assistindo, ao longo do desenrolar do processo, desde a apresentação da proposta de lei até à sua votação final, foram um espectáculo digno de nota alta, no Circo da Democracia Portuguesa. Ali foram apresentados vários saltos mortais, com e sem rede, e foi executado um triplo salto final, com mortal encorpado ou incorporado...

Por isso, do meio da agitação jornalística dos últimos dias que previa o fim da paz institucional, o começo das guerrilhas e das hecatombes nacionais que sistematicamente alimentam a imprensa culta que se imagina condutora do povo, surgiu o silêncio aterrador indicativo do falhanço, como se lhe tivessem cortado o pio...

E, no entanto, o que apenas se passou foi uma votação «maluca» na Assembleia da República, onde os prós e vários contras votaram a favor, e os principais actores do grupo dos contras resolveram abster-se! Pelo meio ficaram os ziguezagues e as cambalhotas de muito boa gente que veio demonstrar mais uma vez, no local dos espectáculos, que engloba a selecção dos melhores artistas do Circo da Democracia Portuguesa.

O povo português já sabia que era assim, mas talvez nunca com tanta clareza!

No final do espectáculo, os assistentes, ansiosos e receosos de algum acidente, embora com bilhetes grátis, saíram tranquilos porque ninguém saiu ferido, apesar das previsões dos comentaristas encartados, dos gritos de alguns artistas insatisfeitros, das diatribes dos mais radicais ou desbocados e da ameaça de bomba atómica do maestro principal.

Vamos, pois, ter um Santo Natal, na paz institucional permitida, mesmo com os problemas da Bolsa que sempre ocupam a imprensa e as eternas dificuldades das pequenas bolsas que vão sobrevivendo a custo e quase não conseguem ser notícia por absoluta falta de fofoca...

Também já não havia pachorra para tanta cambalhota.

Abusou-se do espectáculo. A desmobilização é geral

Por isso, e também por tradição, o Circo da Democracia Portuguesa vai estar encerrado durante alguns dias e a tranquilidade dos cidadãos seria absoluta se não fossem os acidentes nas nossas estradas e outros excessos previsíveis nesta época...muito mais que as votações dos Artistas e Contorcionistas da Assembleia da República, com todo o merecido respeito.

Viva a Democracia!



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

INVENTOS E MEGA EVENTOS PORTUGUESES

Comezainas e peditórios

Começarei por dizer que o título e o subtítulo que dei a este pequeno artigo não são contraditórios, como parece. Há muita coisa que parece e não é.

Do que não há dúvida é de que o mundo não seria o mesmo que hoje conhecemos sem as descobertas dos portugueses, nos séculos XV e XVI, chamem-lhes agora descobrimentos, achamentos ou outra patacoada qualquer. O que interessa é que foram os portugueses que deram novos mundos ao mundo e permitiram trazer para a Europa, assaltada pelos turcos e em grande aflição, as especiarias e outras raridades do Oriente, via Cabo da Boa Esperança, ou do Brasil, via Cabo Verde...

Tudo já lá vai. O Império desapareceu e ficou só na imaginação dos estudiosos. Ficaram também os livros de história para recordar aos curiosos destas coisas que os portugueses foram um Grande Povo, sempre à espreita de conquistar, de cristianizar e colonizar, de comercializar tudo o que lhe aparecesse pela frente, dentro do desconhecido meio mundo que começava nas tais léguas a Oeste de Cabo Verde, até às Molucas, a Oriente. E não só.

Foi assim que Lisboa se tornou o centro de comércio da pimenta, do cravinho, da noz moscada, da malagueta, do caril, do colorau e de muitas outros temperos excêntricos orientais que, a pouco e pouco criaram profundas raízes na tradicional alimentação dos portugueses. Mais tarde haveria de acontecer também o mesmo com o bacalhau a que os ingleses chamavam, ainda no século passado, peixe fedorento, mas que agora correm a saborear das tais mil maneiras que só os nossos cozinheiros conhecem e executam com mestria. A necessidade obriga!

E dessa maneira, pela mesma necessidade também, os portugueses tornaram-se grandes inventores de uma cozinha tradicional excelente, com os meios insignificantes que tinham à disposição e que eram desprezados pela maioria dos povos mais evoluídos.

Um dos exemplos mais interessantes é a matança do porco caseiro. Foi sendo adaptada aos tempos, refinada com variadas receitas culinárias e os diversos enchidos que fazem a tradição e o orgulho de cada povoação, e encheram há algum tempo de preocupação uns tantos comentaristas mais formalistas na interpretação das leis da CE, (muito mais que as próprias gentes rurais) perante imaginárias tropelias da ASAE...

Artigos incríveis foram então escritos sobre esses temas, pelos tais comentaristas que, na maior parte das vezes, só conheciam as alheiras de Mirandela falsificadas, as chouriças de Trancoso confeccionadas em Alguidares de Baixo, ou a chanfana de Foz de Arouce que vem descrita no livro de cozinha de algum editor curioso...

Tiro o chapéu à ASAE que eliminou tanta porcaria que havia por aí e que não devia fazer parte da comida tradicional portuguesa, a qual se encontra, felizmente, de perfeita saúde, para desconsolo dos tais profetas das desgraças.

Este ano, por exemplo, já vi, de passagem por zonas rurais, preparativos e sinais de execução da tradicional e cruel matança do porco, porque se escuta à légua! A mesma matança que nem assim, com tanto alarido dos bichos, atraiu as iras da Sociedade Protectora dos Animais e de outros artistas e literatos que simultaneamente atacaram a ASAE com toda a fúria, por serem grandes apreciadores de chouriças, morcelas ou sarrabulho, mas que nunca viram um boi à sua frente. Não os culpo disso.

Um filho meu, de quatro anos de idade que tinha vivido sempre numa grande cidade, no estrangeiro, quando chegou a Portugal, confundiu também uma pele de coelho posta a secar numa cruzeta, com a pele de uma vaca! A sorte dele é que, logo de seguida, eu tive a diligência de mostrar-lhe uma série de animais domésticos e nunca mais voltou a enganar-se. Nem todos têm a mesma sorte.

Mas, voltando às descobertas mais recentes dos portugueses, pondo de lado as fantásticas andanças marítimas dos séculos de grandeza, verificamos que quase todas fazem parte da cozinha tradicional.

É um elogio! Desconfio que não haverá muitos povos com uma riqueza e variedade de preparações culinárias artesanais tão grandes como Portugal, pois cada cantinho se arroga de ter inventado uma receita única, especial, a melhor do mundo, do que quer que seja. O bacalhau, a carne de porco e alguns vegetais são os grandes responsáveis dessa tremenda variedade que os turistas estrangeiros mais curiosos descobrem e com a qual se deliciam, quando nos visitam com tempo.

Vai daí, com a citadina febre de notícias habitual e a patusca ânsia rural de fazer reviver as grandes sagas de antanho, alguns descobridores actuais, de ideias mais avançadas, servindo-se das também tradicionais fofocas da imprensa, resolvem, de vez em quando, explorar um mega evento digno do Guiness. E assim apareceu a Feijoada Monumental da Ponte Vasco da Gama, a Super Caldeirada de Lagoa, O Pão-de-ló Monumental já não me lembro de onde, a Cataplana Gigante de algures, a Sardinhada Industrial de Portimão, a Paelha dali, a Salsicha Quilométrica dacolá, o Bolo-Rei de não sei quantos ovos, etc., etc.

O Porquinho do cortelho, claro, não podia ficar de fora. Uma notícia de um matutino de hoje dá conta de um almoço especial para mil e duzentas pessoas, a realizar domingo, numa freguesia do concelho de Caminha, cuja ementa é um Mega Cozido à Portuguesa. Pode ler-se que «em relação ao megacozido, já foram "mobilizados" cinco porcos, cuja carne entrou na confecção de mais de duas mil chouriças e dezenas de presuntos. Centenas de quilos de carne de vaca e de frango, assim como couves, batatas, cebolas e cenouras, são outros dos ingredientes.»

Em aparte à notícia, apraz-me esclarecer o seu autor que cinco porcos dariam, no máximo, duas dezenas, ou seja, vinte presuntos exactos, e certamente um número bem mais discutível de chouriças. Contudo, nem os presuntos nem as chouriças são comidos «em verde», mas necessitam de vários meses de fumeiro, até ficarem apetecíveis, motivo porque desconfio muito da tal «mobilização»!

De qualquer modo, tanto material para 1200 pessoas apenas, é obra, a menos que sejam de muito alimento...Fartar, vilanagem! (É sem ofensa.).

A notícia não refere, mesmo assim, quantos barris ou garrafões do imprescindível tinto vão acompanhar o farto repasto, nem se umas quantas garrafas de Água das Pedras serão postas à disposição dos esfomeados caminhenses mas, mesmo assim, quantos fregueses não estarão já a salivar abundantemente, enquanto aguardam a chegada da hora...e outros tantos ficam por lá a roer as unhas de inveja!

A notícia diz apenas que este é o sexto Megacozido da Terra, desta vez abrilhantado pela cantora lírica Sofia Escobar, natural de Viana do Castelo, e a sua receita pecuniária será entregue à Comissão de Obras da Recuperação da Igreja Paroquial de Riba d´Âncora.

A crise mundial ainda não deve ter chegado ali. Mas, pensando bem, para comezainas e peditórios a crise nunca chega, no nosso País.

Viva Portugal dos grandes eventos noticiosos e das invenções tradicionais espectaculares!

Ao diabo as multas da ASAE e igualmente os seus detractores derrotistas!

Tristezas não pagam dívidas! E como é por uma boa causa...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

FALSOS, DESONESTOS E LADRÕES

A vários os níveis

O que se vê e lê por aí, em termos de verdade, honestidade, e respeito pela vida e propriedade alheia é desanimador para alguém que tenha sido educado na observação estrita destes princípios. Bem sei que os princípios cada vez valem menos, nos dias que correm, e que as crises económicas cada vez são mais difíceis de inverter, tornando-se num caldo de cultura da falta de honestidade, da mentira e do roubo. Mas fazer destas anomalias a normalidade, como os recentes casos da banca quase conseguiam, ultrapassa todas as raias da moral e da decência humanas.

Comparados com estes, os casos de mutação ou usurpação de personalidade que ultimamente surgem nos jornais parecem pequenas brincadeiras de crianças. Também não é assim. Exigem a atenção dos profissionais sérios e não devem ser menosprezados por eles, ou postos de lado com um simples encolher de ombros.

Hoje, por exemplo, li num periódico a notícia de que dois idosos, dos arredores de Coimbra, tinham sido roubados em cerca de 2000 euros por dois desconhecidos que se apresentaram como funcionários da Segurança Social.

Já não é a primeira vez.

Há uns anos, outros espertalhões faziam-se passar por funcionários bancários ou das finanças e exigiam as notas de escudos, guardadas com esforço de muitos anos no colchão da casita do monte alentejano, para trocar por novos escudos ou euros imaginários.

O caso de falsos vendedores de lotaria com o vigésimo premiado já tem barbas de tão antigo, mas há gente que ainda cai, de vez em quando.

Muitos outros charlatães têm aparecido por aí e feito a sua época. Vêm e vão, voltam de tempos a tempos, quando lhes parece que o sistema está esquecido e surge de novo a oportunidade de serem bem sucedidos, ante a ressuscitada credulidade dos cidadãos. De há uns tempos para cá, têm, no entanto, aparecido casos insuspeitos mais rebuscados, mais inverosímeis, com uma aparência de seriedade e honestidade muito difícil de desmontar.

Foi o caso de um falso polícia, fardado e tudo, que cobrava multas aos desprevenidos que apanhava a jeito.

Foi o caso de um falso advogado que exerceu durante anos, com consultório estabelecido, exibindo certificados profissionais, representando clientes a quem nunca passou pela cabeça estarem em presença de um aldrabão!

Foi o caso de um falso médico que, além do consultório particular onde exibia os seus méritos, exercia num hospital público e frequentava conferências e congressos da especialidade.

Foi o caso de uma falsa juíza que extorquiu quantias importantes a pessoas ou entidades por um processo simples, insuspeito das vítimas.

Quantas outras situações deste tipo têm ocorrido, que já nem recordo? Já é caso para pensar qual será a profissão que está a salvo de ter gente desta, no seu seio...e como é difícil estabelecer uma barreira intransponível para evitar estas actividades fraudulentas.

O certo é que não se trata apenas de um caso de polícia. Infelizmente, nem a verdade, a honestidade e o respeito pelos outros cidadãos se determinam por decreto...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

PIRATARIA MODERNA


Das Caraíbas ao Corno de África

Longe vão os tempos da pirataria profissional, organizada e avalizada pelos governos interessados como um factor de desgaste, uma guerra encoberta às portas dos inimigos de estimação. Foi assim que, principalmente nos séculos XVI e XVII, os navios espanhóis, e também os portugueses, foram atacados pelos corsários ingleses, franceses e holandeses, para não falar dos turcos, dos chineses, e doutros de menor estofo.

Nas Antilhas, tornadas célebres pela pirataria oficializada, a caça aos tesouros que vinham do México, da Amazónia e do Peru para a Espanha tornou-se o pão nosso de cada dia, e os feitos dessa malta de ladrões foram frequentemente enaltecidos pelos governantes que os armavam e incentivavam na sombra. A História ficou assim cheia de heróis em vez de assassinos, e as histórias de quadradinhos dos dias de hoje fizeram as delícias de uma certa juventude, na última metade do século XX, só vindo a perder interesse pela transposição das peripécias para os ecrãs de cinema e de televisão. Mas ainda se vão vendo por aí os piratas de cara façanhuda, de facalhão e espada, de botas altas até à coxa, casaca cheia de botões e chapéu a imitar os da época...

No ano passado, fui dar um passeio para matar saudades ao Porto, onde frequentara a Universidade, nos anos 50. Resolvi, a certa altura, ir tomar um cafezinho ao Diu, na rua da Boavista, à Cedofeita, porque ali havia passado boas horas de convívio e estudo, com colegas de Faculdade. Não podia ser maior o meu espanto quando, logo à entrada, um pirata com perna de pau e pala negra no olho de vidro fazia as honras da gerência aos clientes. Ainda perguntei a um funcionário por que tinham escolhido o pirata para lhes dar as boas vindas e, já agora, porque não punham a tocar baixinho, de vez em quando, aquela canção brasileira, a condizer, que começava assim:

Eu sou o pirata

Da perna de pau,

Do olho de vidro,

Da cara de mau...

Mas ele encolheu os ombros, começou a rir e eu não tive coragem de continuar.

Nunca mais voltei a lembrar-me de piratas e quejandos, até começar a ler as notícias dos jornais, com os assaltos a petroleiros, paquetes de turismo, rebocadores e até cargueiros com material de guerra, em certa zona do Oceano Índico, à saída do movimentado e estratégico Estreito de Ormuz, no celebrado Corno de África.

A coisa não é nenhuma brincadeira. Vários países já mobilizaram barcos de guerra para proteger as suas embarcações, mas ainda assim a situação está a tornar-se insustentável. Segundo notícia da Lusa, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovou uma nova resolução autorizando por um ano as operações no território da Somália, em cujas costas piratas sequestraram hoje mais um cargueiro turco!

Até que enfim! A única forma de acabar com essa pirataria é enfrentá-la no seu próprio refúgio. Mas creio que não vai ser tão fácil como alguns pensam, porque antevejo que alguma organização terrorista deve estar a financiar esta gente.

Oxalá me engane.

Há duas horas atrás, fui ao Centro Comercial próximo de casa e tive mais um desses encontros surpreendentes, na área dos cinemas, nada menos que uma escultura em tamanho natural, do Capitão Gancho!

As crianças mais pequenas que passavam por ali, perguntavam aos pais que as acompanhavam quem era aquele...e eles lá se iam desenrascando conforme podiam, recorrendo às histórias de quadradinhos que tinham visto em miúdos ou aos filmes com Errol Flynn, de espada em punho, a saltar de corda em corda como um macaco, de veleiro para veleiro, sempre salvo, sempre vencedor, sempre alegre, sempre do lado da justiça e da razão, sempre castigador com as madamas que lhe apareciam pela frente...

Aposto que nenhum deles relacionou, ao menos por alguns momentos, essa «heróica» e mal retratada pirataria de antanho com a que ocorre actualmente no Índico, com gente de cara enfarruscada e metralhadora em punho, assaltando navios pacíficos, roubando, sequestrando e matando tripulantes e passageiros desprevenidos. E contudo, passados séculos, a pirataria é a mesma, servindo interesses inconfessáveis, apenas com outros actores, com meios diferentes e muito mais poderosos.

Será que, neste mundo de contradições permanentes, daqui a uns anos, alguns desses piratas somalis ainda se vão tornar heróis de banda desenhada ou de filmes de casa cheia, nos seus países de origem, em vez de apodrecerem esquecidos na prisão?

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

SAPATOS EM BAGDAD

Manifestações na Grécia

Durante dois ou três dias, a notícia de choque na Comunicação Social foi o par de sapatos atirado a George W. Bush, por um jornalista iraquiano. E logo de um jornalista!

O fulano deu-se ares de nacionalista inconformado com a presença do máximo responsável político pela Guerra do Iraque de 2003, pela derrota e julgamento de Sadam Hussein, pela sua deposição das respectivas e numerosas estátuas, e pela destruição dos milhares de retratos pendurados por lá, como enfeite.

O país, segundo a diplomacia americana, era suspeito de possuir bombas químicas que nunca foram encontradas, de falta de democracia e de outras coisas mais. Não conseguiu desmentir a tempo. O presidente Bush, por sua vez, era agora suspeito de ter avançado para a guerra, como retaliação à independência do Iraque perante a pressão ianque, o que não permitia que este se transformasse numa loja âncora em substituição do Irão, depois do desaparecimento do Xá. Até ver, ainda não conseguiu os seus verdadeiros objectivos, e não quer abandonar a presa, nos tempos mais próximos.

Ora, perante esta dupla frustração, o jornalista resolveu actuar por conta própria. Como não conseguia pôr-se a jeito para dar um pontapé no traseiro de G. W. Bush ou empurrá-lo para fora de cena, tirou os sapatos dos seus pezinhos, número 43, calçados depois da ablução e da oração na mesquita mais próxima, e atirou-os à cabeça do presidente americano. Teve pontaria. Mas não acertou por um triz, porque o homem foi suficientemente rápido para se esquivar aos arremessos. Afinal, 43 não era o seu número da sorte, embora fosse o seu número de pé, como descobriu, numa olhadela espectacular, o presidente Bush, pelos vistos muito bom nestas coisas! O atrevido foi logo agarrado pela polícia, revistado e preso a bom recato, para julgamento, não fizesse ele, por acaso, parte da Al Qaeda...

Tema de primeira, para a imprensa mundial!

Menos atenta ao fenómeno esteve, porém, a imprensa grega, entretida com as manifestações dos estudantes e de outros recalcitrantes impacientes, ante os polícias aturdidos. A população da Europa, admirada, expectante, ficou a ver como o chefe de governo descalçava a bota. Não sei ainda se o conseguirá.

O facto é que ele teve muita sorte, porque os seus jornalistas não costumam descalçar os sapatos por dá cá aquela palha. Ou não se lembraram ainda, que é o mais certo.

Por enquanto, a imprensa europeia vai-se entretendo a mandar recados a quem muito bem entende mas, com a crise que está instalada, se pega a moda de atirar sapatos aos presidentes, alguns podem não ter a sorte de desviar-se a tempo, como Bush, mesmo com sapatos de outros números e detectáveis à légua...

Talvez por cá o preço dos sapatos faça pensar um pouco os eventuais jornalistas recalcitrantes. É menos arriscado, mais profissional, mais fácil, mais barato e mais eficaz atirar artigos de jornal.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

BANCA E D.BRANCA


Em Portugal e no Mundo

Em Portugal, a D. Branca ficou célebre, pelo seu negócio de milhões de escudos, em cascata, numa fuga para a frente que nada tem de engenhoso, mas tem muito que ver com a esperteza de alguns, aproveitando a ganância sem escrúpulos de muito «boa» gente. Como sempre, os espertos de momento, desprezando princípios morais e desejando enriquecer à pressa, investindo em negócios simples, de honestidade aparente mas duvidosa e à sombra de uma falsa concepção moral, foram ludibriados como crianças imberbes. O espantoso do sistema que enganou tantos milhares de pessoas é a sua simplicidade desarmante.

A D. Branca proporcionava juros altíssimos aos investidores e dessa maneira atraía novos incautos ao apetecível negócio, em proporção geométrica, enquanto os juros pagos cresciam apenas em proporção aritmética...ou não cresciam mesmo, porque muitos investidores voltavam a investir no mesmo sistema. A crise rebentou com a notícia da fraude publicada nos jornais e a corrida à bolsa da D. Branca que, «coitada», já não podia devolver o que tinha gasto, posto a bom recato ou entregue como juros a alguns quantos felizardos da sorte que se retiraram a tempo.

Também a D. Branca e o seu grupo familiar não inventaram nada de novo. Esquemas semelhantes andam por aí em jogos de serões nocturnos ou gabinetes de máfia, onde os jogadores que perdem vão apostando sempre a dobrar para tentar recuperar das perdas, ou nos casinos, legais ou ocultos, onde o entusiasmo dos ganhadores os faz jogar até ficarem na miséria, para gáudio e proveito dos proprietários do negócio.

O truque está sempre no abuso da credulidade humana, no desejo bem humano também, na sociedade dos nossos dias, de enriquecimento rápido, a qualquer custo. Simples, meu caro Watson, como diria Sherlock Holmes!

Por mais incrível que pareça, o caso do escândalo financeiro de Bernard Madoff, o antigo presidente da bolsa Nasdaq, de Nova Iorque, é a cópia fiel da nossa D. Branca, ou do nosso BPN, à escala da banca planetária!

Muita gente se perguntará agora como isso foi possível, mas a resposta é sempre a mesma: credulidade e ganância, a nível mundial. Os bancos fazem os seus negócios na base da seriedade e confiança que inspiram aos seus clientes. Na cadeia piramidal que junta os bancos mais pequenos até chegar ao topo da Banca Anglo-Americana ou Mundial e aos grandes negócios da Bolsa, a seriedade e a confiança continuam a ser a base do sistema. Se alguma peça do alto desse sistema abdica em seu proveito da seriedade requerida, aproveitando a ganância escondida dos investidores, perde-se a confiança e a credibilidade. Está tudo perdido!

O Fundo especulativo de Bernard Madoff, detido na semana passada pelas autoridades dos Estados Unidos, arrastou grandes bancos americanos, mas também causou perdas enormes de muitos milhares de milhões de euros a grandes bancos europeus, como o BNParibas, o Banco Santander e outros grandes da banca do Reino Unido, da Suiça, da França, etc.

Vale a pena ler a notícia que transcrevo abaixo e comparar com a nossa pequenina D. Branca, ou o nosso minúsculo BPN.

«O esquema de Madoff – um especialista em hedge-funds e corretor em Wall Street que já assumiu o seu negócio como uma «grande mentira» – baseava-se apenas na captação de novos investidores para remunerar os mais antigos com juros elevados.

Segundo números na imprensa nova-iorquina, a fraude que escapou ao crivo das entidades de supervisão e regulação ascende a uns 50 mil milhões de dólares (cerca de 38 mil milhões de euros).»

Nos EUA, como em todo o Mundo, como em Portugal, a prisão incidiu rapidamente sobre a D. Branca, o Presidente do BPN, o Madoff, o homem da fachada, mas ficam de fora os numerosos compadres das seitas...O dinheiro roubado sumiu para sempre, para desespero, sobretudo, dos mais pequenos!

Outra novidade, que não chega a ser, é o último parágrafo da notícia., onde se verifica que a entidade de supervisão da fabulosa e tecnológica América, falhou redondamente, como já havia falhado em outros diversos e badalados casos, tal como a polícia falha constantemente nos numerosos roubos e assaltos que ocorrem por lá, a nível mais rasteiro...O mesmo aconteceu também na Inglaterra, na França, na Alemanha, na Itália, em Portugal...

Podemos estar certos de que, tanto a polícia como os supervisores bancários fazem tudo o que podem. Devem, no entanto, ser obrigatória e constantemente melhorados nos meios e nas técnicas ao seu dispor, para tentar superar, ou ao menos igualar, a melhoria constante da técnica inventiva utilizada nos processos de crime e vigarice que pululam no mundo inteiro, as quais geralmente levam a dianteira, quanto mais não seja pelo normal efeito de surpresa. Todo o investimento feito pelos governos e pelas entidades de segurança nesse sentido, a nível nacional e internacional, será sempre bem-vindo.

O ideal seria que a polícia e as entidades supervisoras possuíssem um oráculo infalível e fiável que determinasse uma actuação adequada, antecipada ou em tempo útil, e nos permitisse a todos dormir descansados.

Mas isso dos oráculos já foi chão que deu uvas.