domingo, 23 de novembro de 2008

QUEM FICA MAL NA FOTOGRAFIA?

Já não depende do fotógrafo

Hoje deu-me para uma certa ironia amarga, depois de mergulhar, desde há vários dias, nas notícias de cenas pouco edificantes apresentadas pelos jornais à opinião pública.

Quando uma pessoa diz algo que supõe verdadeiro e outra desmente, costuma dizer o povo que uma delas vai ficar mal na fotografia. Mas o certo é que, no tal país dos brandos costumes que conhecemos, já nos vamos habituando a reconhecer que ambos acabam por sair em beleza! É o que acontece nos diferendos entre as altas personalidades, as corporações profissionais ou de interesses, e os próprios partidos políticos. As excepções só confirmam a regra e aos pequenos ela não se aplica, porque só tiram a fotografia para o B.I. ou quando, por algum azar, vão parar à choça!

Embora custe a acreditar a muito boa gente, neste Portugal de coisas bizarras, a verdade e a mentira nunca são a preto e branco. Entre aquele que afirma e aquele que nega existe sempre uma zona invisível ao comum dos mortais onde ambos convergem e se abraçam, às escondidas ou mesmo às claras, depois do espectáculo degradante dos insultos em público, em que só faltou baterem-se. Até acontece, de vez em quando, acabarem num almoço em restaurante a condizer com o estrato social dos contendores. No Parlamento, por exemplo, acontece quase diariamente. Cá fora, demora mais algum tempo.

Também a imprensa tira os seus proventos do diz-que-disse-ou-não-disse para vender mais uns quantos números, enredando o Zé na fofoca ou folhetim diário de quadradinhos, embora seja de destacar, contudo, o seu papel no despoletar de muitas situações anormais que vão acontecendo por aí. Pena que, muitas vezes, fique também ela igualmente enredada nessas histórias, perdendo-se numa série de artigos contraditórios, de acusações e desmentidos, numa luta de todos contra todos que só termina com o lançamento oportuno de outra novela ou nova e longa série de quadradinhos.

Estes casos vão-se sucedendo assim, nos noticiários, com uma regularidade impressionante, alternando o empolamento das situações mais mesquinhas e inverosímeis, com a apresentação bombástica de coisas muito mais sérias e do interesse do cidadão comum...

Acabado o folhetim de turno, o assunto volta à normalidade do esquecimento ou fica em banho-maria, com os verdadeiros e os mentirosos repousando tranquilamente, ou gozando das suas mordomias, enquanto a Justiça se entretém com as suas montanhas de papéis, os seus códigos, os recursos, e as sentenças finais em que tudo é possível terminar, quando as prescrições não acontecem. Nesses casos, embora sempre com visos de legalidade, o Zé desconfia, por sistema.

Os enredos do BCP, do BdP, e agora do BPN, são péssimos exemplos em que os actores de serviço saem pouco dignificados ou mesmo desqualificados. Os portugueses lamentam vivamente, mas lá se vão habituando a estas cenas, aguardando pacientemente os respectivos desfechos, descrendo sempre dos resultados dos inquéritos, da eficácia das comissões, dos meandros da Justiça e até dos veredictos finais que venham a ser proferidos por ela.

É por estas e por muitas outras que os nossos patrícios se tornaram desconfiados, até da própria sombra.

Na verdade, foram-nos habituando a isso, desde que a democracia liberal se instalou, nos meados do século XIX, num refinamento das atitudes opostas cada vez mais agressivas e permanentes, com as consequentes revoltas populares ou militares a que o caciquismo reinante também não foi estranho, tudo em nome da salvaguarda do futuro da Pátria, dos mais sagrados princípios...

Assim acontece ainda, sem a violência física de outrora, não pela defesa da sacrossanta liberdade de voto, mas simplesmente pela caça ao voto, agora exercida com grande eficácia da propaganda e uma violência verbal inusitadas, muito próprias da época que atravessamos!

Também foi pela caça ao voto que a imprensa veio paulatinamente a ser utilizada e a ocupar o lugar dos encontros de ajuste de contas a dois, dos duelos de antigamente. Agora os duelos são públicos, na imprensa, com muita parra e pouca uva, com resultados finais geralmente nulos, com os adversários a saírem todos da contenda com os bolsos recheados, muito felizes e contentes, sempre de consciência tranquila, prontos para a fotografia de família!

Valha a verdade que, há cento e tal anos, havia, ainda assim, um pouco mais de pudor, porque a fotografia ainda dava os primeiros passos e era frequente ficar mal quem não se portasse bem, quem não estivesse muito quietinho. Foi assim que, mesmo em Portugal, alguns mal fotografados terminaram na cadeia, no suicídio ou emigraram de vez...

Mas agora, já não depende do fotógrafo. Na era da tecnologia digital e das velocidades, qualquer um pode disparar o obturador e as fotos saem sempre bem. É muito, muito difícil a alguém sair mal na fotografia, por mais tropelias que faça.

E por isso nunca deixaremos de ser o país a que já nos habituaram...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

INOVAÇÃO E DESENRASCANÇO


Desde a fundação ao BPN

Veio ontem o Presidente da República recomendar às empresas uma aposta forte na inovação, quando o que mais há por aí é inovação! Fiquei perplexo.

Pois não sabe o Senhor Presidente, apesar de entrado na idade, que os portugueses são peritos em inovação, a todos os níveis, em todas as circunstâncias? Que fizeram o D. Afonso Henriques, o Infante, o Vasco da Gama, o Camões, o D. João VI, o Manuel de Arriaga... e o vigarista Alves dos Reis?

Como passar por alto a inovação tradicional portuguesa, o grande poder de desenrascanço que demonstraram os portugueses ao longo de séculos, desde a nascença, qual característica genética de que mais nenhum povo pode orgulhar-se? Como esquecer que um país pequeno, falto de recursos, rodeado de nações poderosas, se manteve independente, durante mais de oito séculos, senão à custa de inovação, do tal desenrascanço?

Desde a agricultura de subsistência, verdadeira arte de desenrascanço puro, continuando pela gastronomia espectacular onde as invenções e as habilidades culinárias fazem crescer a água na boca aos turistas que nos visitam, até ao comércio das coisas mais bizarras aos preços mais incríveis, coisa a que apenas os chineses conseguem responder, e às indústrias mais artesanais que possamos imaginar, baseadas na mão-de-obra barata ou no trabalho infantil, tudo é inovação permanente e duradoura, em Portugal. Eu penso que existe uma explicação simples para esta aparente incongruência, esta divergência relativamente aos outros países europeus onde este tipo de inovações já passou à História: a nossa falta de cultura.

É ela que nos torna obrigatória e sistematicamente desenrascados, onde os outros são clarividentes, estudiosos e planeadores ante as dificuldades do dia-a-dia. O português não tem cultura suficiente para aperceber a clarividência das situações e a planificação antecipada dos remédios necessários. Daí nasceu o planeamento na hora...a planificação no joelho!

Em nenhum país do mundo esta articulação óssea teve tanta importância como em Portugal. A cabeça também vale qualquer coisa, de vez em quando, mas pouco, nesta Terra em que tudo é feito sobre o joelho, uma inovação tipicamente portuguesa.

O resultado é que em Portugal nunca houve filósofos, nem cientistas, nem artistas, nem inventores de renome, e as raríssimas excepções só confirmam esta regra, porque as cabeças, eventualmente aptas para ganhar esses atributos, foram subvertidas pelo trabalho no joelho!

O joelho dá para tudo, nesta nação paradisíaca, segundo Camões, porque não foi pensada ou planeada a sério. Se o tivesse sido, Portugal não existiria! Este paraíso deve ter sido obra de momentos, de repentes, não de um largo pensamento ou de uma planificação extrema. Em Portugal existe a ideia de que coisas demasiado pensadas e planeadas podem ser muito eficazes, muito rentáveis à distância, mas não são belas nem eficazes a curto prazo. Que teria acontecido a D. Afonso Henriques se ficasse calmamente a pensar, a planear como bater na mãe? Que teria acontecido aos Lusíadas se Camões não tivesse salvo, a nado, num gesto de desenrascanço inaudito, a sua obra inovadora? Se os republicanos, no 5 de Outubro de 1910, ficassem a pensar e a planear até à exaustão como fazer a revolução, ainda hoje estávamos em monarquia...que me perdoe o Almirante Reis que até se suicidou de incredulidade, coitado!

Por isso Portugal é mesmo um paraíso, sem nada de eficaz nem de rentável, notável inovação lusa. Aqui, todas as empreitadas são uma desgraça em termos de eficácia. Todas as empresas vegetam à beira da falência. Todos os empregados se esforçam por fazer o menos possível. Todos os patrões descansam no gozo máximo dos seus rendimentos, por mais magros que sejam. Remédios, todo o mundo tem, mas ninguém usa.Tudo isto existe, etc., e ainda o Senhor Presidente quer mais inovação que esta, nas empresas? É pedir demasiado!

Tenhamos ainda em consideração que a maior invenção portuguesa dos últimos tempos, depois da espantosa trapaça de Alves dos Reis, que ficou célebre no mundo inteiro, deve ter sido a subsídio dependência criada após a nossa entrada na CE! A não ser que as inovações levadas a cabo nestes anos recentes, pelo BPN, tenham ganho já o primeiro prémio da inovação, desde a implantação da República até agora.

O senhor Presidente da República dedicou boa parte da sua vida aos números. Talvez por isso os seus discursos actuais são uma série de lugares comuns, nada inovadores, para agradar a gregos e a troianos.

Mas ficam-lhe bem esses sentimentos. Ele é o Presidente de todos os portugueses e as intenções são boas.

Nessas condições, eu faria o mesmo. Nunca inventei nada, a não ser este artigo. Aposto que até já tenha dito coisas mais acertadas, mas o mal é que ninguém me ouve, como ao Presidente...Porém, mesmo sem qualquer espírito revanchista e para terminar, a minha sensação é que ao Presidente muitos ouvem mas, lá no fundo, poucos fazem caso, porque confiam mais no seu próprio poder de desenrascanço. É típico!

Também os directores do BPN inovaram demasiado, à portuguesa, isto é, confiaram demasiado na sua própria capacidade de desenrascanço, foram longe de mais e deitaram tudo a perder, tal como o Alves dos Reis, na sua célebre fraude de milhões ao próprio Banco de Portugal! E só serão mais inovadores que este senhor, se conseguirem livrar-se da cadeia.

Enfim, tristezas de um País de espertos que fariam D. Afonso Henriques corar de vergonha e arrepiar caminho, se fosse vivo!

Até eu, às vezes, sinto vergonha de viver neste País de trapaça inovadora...

Moral da história: nesta confusão deliberada entre inovação e desenrascanço, cada leitor que se desenrasque do texto e tire as conclusões que quiser, inovando o menos possível.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O CARRO MOVIDO A AR


Bom, bonito e baratinho

Desde que o petróleo e os seus derivados começaram a subir de preço, não têm parado de aparecer notícias bombásticas, no sentido de aperfeiçoar os motores dos automóveis, de forma a economizar nos respectivos consumos.
O caso não é novo. Desde o começo da utilização dos motores de combustão, movidos a gasolina ou a gasóleo, muitas tentativas levadas a cabo para o seu melhoramento tecnológico têm sido coroadas de êxito, obtendo-se, ao longo dos anos, assinaláveis aumentos de rendimento, com a correspondente diminuição de consumo e razoável descida na emissão de poluentes.
Paralelamente, muitas tentativas têm sido feitas, no sentido de descobrir novos carburantes, com rendimento, preço e poluição inferiores aos derivados do petróleo. À medida que passam os anos e novas crises energéticas têm lugar, essa procura vai sendo incrementada, com resultados mais ou menos animadores. Há muitos combustíveis susceptíveis de serem utilizados nos motores de combustão actuais, ou depois de modificados. Mas os custos ou as circunstâncias de obtenção, armazenagem, distribuição e segurança de utilização nem sempre conseguem convencer a indústria automóvel, as entidades governativas, os ambientalista e os próprios consumidores. Não vale a pena perder tempo a enumerá-los, mas é interessante citar alguns em uso em certos países, com vantagens imediatas, sendo que, a médio ou longo prazo, se transformarão em mais um grande problema para as populações locais ou mesmo para a Humanidade. Assim acontecerá, por exemplo, com o etanol usado no Brasil, com grande sucesso, pela sua origem agrícola ou florestal. Outras propostas caricaturais são o bio etanol, o bio diesel quando obtidos a partir de culturas agrícolas intensivas, numa Terra com água cada vez mais racionada e com milhões de habitantes a morrer de fome, todos os dias.
Propostas interessantes, no entanto, são a obtenção e utilização de combustíveis a partir de resíduos geralmente não reciclados e que terminariam quase sempre na incineração pura e simples. Devem ser acarinhadas, no meu ponto de vista.
Também os estudos tendentes à utilização prática da electricidade como propulsor dos veículos têm vendo a desenvolver projectos muito atractivos, nos quais a economia e a baixa poluição serão de considerar no futuro, se a melhoria de alguns componentes, como as baterias, tiver sucesso.
Também relacionados com as baterias e os sistemas eléctricos estão os chamados carros a hidrogénio, obtido pela decomposição electrolítica da água, e que a imprensa já baptizou com o nome de carros a água, em contraposição com os carros a vinho ou a água-ardente, no caso dos carros utilizando etanol, mais conhecido por alcool etílicol...
E agora noticiam os carros a ar, os quais virão revolucionar todo sistema de transportes e acabar de vez com as crises existenciais do petróleo, segundo os seus inventores e a imprensa que lhes deu crédito.
O ar, até ver, ainda é a coisa mais barata que há no mundo, embora o ar puro cada vez seja mais difícil de gozar. O inventor parece que não dá muita importância ao caso. Comprime o ar a vários quilos de pressão, armazena-o em recipiente adequado, carrega uma certa quantidade no depósito especial do carro e aí está, abre a torneirinha do ar comprimido com a chave, mistura-o automaticamente com um pouco de ar da região, injecta-a no motor, fazendo mover as suas palhetas e, a partir daqui, a viatura... até voa!
Fácil, mesmo muito fácil e nada poluente, até porque o próprio ar rejeitado volta a ser reciclado, num moto contínuo perpétuo. Ao contrário da Lei de Lavoisier, neste processo nada se cria, nada se perde, mas absolutamente nada se transforma! Não há degradação de energia, a solução adequada e radical para todos os males de que enferma a Humanidade...
Não sei por quê, lembrei-me de um tio, já velhote que gostava de me ditar sentenças, quando eu era pequeno. Dizia, convictamente que ser um bom inventor era a melhor coisa a que podia aspirar-se na vida, e eu deveria encarreirar por aí.... Por exemplo, quem inventasse um remédio contra a queda do cabelo e acabasse com os carecas, faria uma fortuna imensa, num instante. Nunca me esqueci deste conselho, mas nem eu nem ninguém conseguiu até hoje pô-lo em prática. Hoje sei por quê, mas já pouco me importa.
Ainda não sou careca, mas gostaria de ter um carro, movido a ar, que fosse bom, bonito e baratinho...só para contrariar as petrolíferas exploradoras e comprazer a todos os sábios inventores que a imprensa nos apresenta todos os dias.
Talvez aproveitando o vento soprando com força numa vela latina colocada no tejadilho...Ou engarrafando o vento formidável dos tsunamis...Como é que ainda ninguém se lembrou disso?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

RAPAZES SEM NOME


Claques sem honra

Há muito que se desconfiava da respeitabilidade das claques organizadas nos campos de futebol, especialmente dos grandes clubes nacionais. Cenas de pancadaria e agressões injustificadas a espectadores e a polícias, lançamento de verylights, um dos quais mortal, destruição de viaturas, incêndio propositado de um autocarro, etc., foram algumas das últimas manifestações destas claques a que urgia pôr cobro. Umas tímidas determinações foram tomadas pelas autoridades tutelares e ultimamente a obrigatoriedade do seu registo legal, coisa que não era cumprida, bem ao jeito português.

O incêndio de um autocarro ocorrido há pouco tempo, depois de uma partida de hóquei em patins, colocou a polícia judiciária em campo e a sua acção culminou com uma invasão da «sede» do grupo dos No Name Boys, a apreensão de droga, armas, dinheiro, diversas viaturas, etc. e a prisão de 30 elementos da claque que foram sendo apresentados ao juiz de instrução criminal.

Diz a Rádio Renascença que, «terminadas as audições, dos 30 detidos na operação “Fair Play”, seis ficaram em prisão preventiva, quatro com apresentações periódicas e 20 com Termo de Identidade e Residência

Apetece-me elogiar, desde já, as forças policiais, pela eficácia desta sua acção.

Mas nem tudo são coisas dignas de elogio no rescaldo desta operação, após uma análise mais atenta, e até várias perguntas se impõem às mentes honestas e pacatas dos cidadãos comuns, especialmente aos que gostam de assistir tranquilamente a jogos de futebol.

Como é possível que um grupo de energúmenos se instale durante anos, num armazém localizado no interior de um grande estádio de futebol?

Como foi possível que sucessivas direcções do clube tenham passado por alto essa irregularidade, aleguem agora total desconhecimento e neguem toda e qualquer responsabilidade sobre este grave assunto?

Como foi possível levar para o interior de um estádio privado, com instalações normalmente fechadas e guardadas, onde os espectadores aos desafios são proibidos de levar consigo simples canivetes e sendo revistados dos pés à cabeça, dezenas de armas de fogo sem registo, verylights e matracas de basebol?

Como, à descarada, foi possível transformar ainda este incrível armazém num depósito grossista e distribuidor droga, nas barbas de muitos milhares de pessoas?

Como foi possível alguns adeptos manifestarem-se contra a polícia, à saída do tribunal onde decorriam os interrogatórios? Fariam parte do grupo, ou eram simples adeptos ingénuos e bem intencionadas?

São perguntas que veremos maioritariamente respondidas ou não, no decorrer das audiências do julgamento. A lentidão da nossa justiça ajuda pouco a estes esclarecimentos.

Ainda outras perguntas poderão, entretanto, ser feitas pelas pessoas de bem.

Quantas mais claques sem honra, claques de fachada para outras actividades ilícitas como esta haverá por esse país fora?

No auge de um certo aumento de criminalidade verificado durante os meses de verão, recordo as críticas jornalísticas e partidárias feita às rusgas levadas a efeito pelas forças policiais aos bairros degradados, onde vários meliantes, acoitados no meio de moradores honestos, foram caçados e diversas armas apreendidas. E no entanto, agora que uma rusga policial irrompe no estádio de futebol do clube mais popular do país, o silêncio é de cortar à faca, não se ouve o zumbido de uma mosca! Penso que as forças policiais que intervieram nesta operação deveriam merecer, da imprensa e dos partidos, ao menos uma simples menção honrosa!

Também aos dirigentes desportivos não se ouviu uma palavra de louvor, muito menos de incentivo a outras operações similares noutros estádios, em Lisboa, no Porto, em Guimarães ou noutras cidades....onde é preciso investigar a fundo e desmascarar, se for o caso, os restantes No Name e Super que por aí fazem escola...

Eles que tanto falam, até demais, sobre os problemas das arbitragens!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

METER TUDO NA ORDEM


Ironias perigosas

A notícia é do Correio da Manhã:

«A presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, questionou-se hoje, em jeito de ironia, "se a certa altura não é bom haver seis meses sem Democracia, mete-se tudo na ordem e depois venha a Democracia.

'Quando não se está em Democracia é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se. E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem Democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a Democracia', afirmou Ferreira Leite para demonstrar, de seguida, como se deve fazer uma reforma em Portugal e num regime democrático.Etc.»

Pensando bem, está fora de causa o pendor democrático de M.F.L. No entanto, apesar da intenção dos comentários efectuados, do local onde foram feitos e do tom irónico utilizado, não deixam de ser preocupantes. Poucos políticos se atreveriam a fazê-los, mesmo desta forma e de uma maneira tão contundente, com medo talvez de que algumas frases como estas pudessem ser tomadas à letra.

É que, em vários países da América Latina, onde a Democracia funciona às segundas, quartas e sextas, as populações já estão habituadas a que uma ditadura oportunista alterne com ela, às terças quintas e sábados, com os domingos reservados para os ofícios religiosos e as necessárias e folclóricas eleições intercalares.

Tudo começa com a desobediência intencional ou tradicional às leis e a discussão permanente, sempre sem resultados, instalada a todos os níveis da administração pública. Logo, criado o clima de ineficácia total, os homens que detêm as armas utilizam-nas em seu proveito, fazendo o golpe militar ansiado pela população ordeira, farta de conversas e de ineficácia. Para dar credibilidade ao acto, prendem ou expulsam os recalcitrantes e opositores mais importantes, prometem o regresso à democracia e a entrega do poder aos civis, dentro de uns seis meses, logo que tudo esteja metido na ordem. Mas as promessas falham, as dificuldades governativas aumentam com o tempo, as finanças e a economia começam a andar para trás e, antes que se instale o caos organizado ou se verifique alguma revolta sangrenta, os militares promovem umas eleições e entregam o governo ao poder civil. A este cumprirá «tirar então as castanhas do lume» e iniciar um novo ciclo, aproveitando o curto prazo de descrença e de expectativa das populações. A fase descendente tomará início dali a meia dúzia de anos ou até antes, e o país aproximar-se-á perigosamente de novo golpe militar, fechando o ciclo. Claro que, nestes ciclos, há sempre as variantes adequadas às circunstâncias.

É impensável um cenário destes em Portugal, apesar das aberrantes declarações partidárias que ouvimos todos os dias, vindas de variados quadrantes. Infelizmente, nenhum partido pode gabar-se de comportamento exemplar, nas suas campanhas permanentes de propaganda para acesso ao poder ou para a sua manutenção. É com alguma frequência que todos resvalam para a acusação fácil, para a contestação sistemática, para a discussão estéril, para a caça ao voto, para a obtenção de mordomias...abusando assim, pelos maus motivos, da paciência dos cidadãos, tudo numa certa lentidão inerente ao próprio processo democrático.

O que significa que, ao chegar o tempo de eleições, uma grande massa de eleitores, cada vez maior, se deixe ficar tranquilamente em casa, cansada de esperar a mudança de atitudes e um tanto desiludida com a política, talvez até com o próprio sistema. Muito da culpa desse desinteresse da população reside na perda de credibilidade dos partidos.

Tudo isto é democracia, dirão alguns. Mas os partidos poderiam melhorar a sua própria actuação, dando da democracia que é a sua razão de ser, uma imagem melhorada e, sobretudo, uma redobrada eficácia. Para o que bastaria colocarem de lado muitas divergências ridículas e elevarem sempre, acima dos seus interesses, o interesse nacional.

Assim dizem que fazem, mas fazem muitas vezes o que não dizem...

Brincar assim impunemente com os sentimentos dos cidadãos pode ser perigoso. Por enquanto eles ainda acreditam que as ditaduras são sempre piores que os regimes democráticos, com todos os seus defeitos. Não os façam mudar de ideias.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

PORTUGAL OU A BARBARIA


Em que país estamos?

Insurjo-me com frequência contra a imprensa noticiosa, pelo abuso que faz das más notícias e a quase sistemática ocultação das notícias que vale a pena ler. Estas não vendem e a exploração da coscuvilhice, da maledicência, do crime, da corrupção ou da simples fofoca são operações de marketing eficaz, com assento em todos os manuais da especialidade.

Em certos dias, a mera leitura dos títulos de primeira página de alguns jornais deixa-me um travo de amargura, uma tristeza que não raro me impede de ler as páginas que seguem.

E outras vezes faço um grande esforço para lê-las. Hoje foi um desses dias.

Depois de referências às manifestações de protesto dos professores contra a avaliação, alegando motivos burocráticos que não convencem ninguém de boa fé, e depois de alunos de pouca idade, arregimentados, fecharem escolas a cadeado e atirarem ovos e tomates a membros do governo, em exercício, a notícia do dia centrava-se numa claque de futebol investigada pela polícia, resultando a descoberta de armas, droga, dinheiro e bilhetes. Pior que isso foi a reacção de outros membros da claque (ou adeptos), agredindo um fotógrafo da RTP e um dos polícias que viera em seu socorro, à saída do Tribunal.

O que me preocupa neste momento é que, nestas notícias, há um denominador comum. Não se trata de criminosos vulgares, como os que enchem as páginas do «Crime», mas de gente geralmente responsável que as circunstâncias tornaram irresponsável, intolerante, agressiva...

Pelo meio há crianças arrastadas na voragem dessa mesma irresponsabilidade dos adultos, dessa falta geral de educação, sobretudo da parte daqueles a quem compete ministrá-la.

No caso da claque, nota-se, além disso, uma ausência total da própria cidadania desportiva. Será por isso que se auto baptizaram «no name boys»?

Está bem claro que a liberdade democrática de todos estes intervenientes é o resultado de um conceito muito mal assimilado e ainda pior utilizado.

Já quase não temos analfabetos e possuímos estádios de primeira. Mas a educação e o civismo são muito mais do que isso.

Ocorre-me perguntar: estamos em Portugal ou na Barbaria?

Por vezes já não sei...

domingo, 16 de novembro de 2008

ACUSAÇÕES, EXIGÊNCIAS, PROTESTOS

ACUSAÇÕES, EXIGÊNCIAS, PROTESTOS

O país de brandos costumes

É interessante folhear desapaixonadamente as páginas da nossa imprensa e atentar na terminologia política ali expressa. Possivelmente poderiam ser outras as palavras vertidas nos títulos, mas a contundência dos artigos não seria a mesma. Pelo menos até que os leitores viessem a fartar-se delas. Provavelmente é o que já está a acontecer neste momento.

Manuela acusa o Governo. O Governo acusa o PSD. O CDS acusa Sócrates. Vitalino Canas acusa Paulo Portas. Jerónimo de Sousa acusa o PS. O BE acusa o Ministério das Finanças. Os Sindicatos acusam o Ministro do Trabalho. Sócrates acusa a CGTP...

Todos se acusam uns aos outros, sem excepção. Agora até Manuela Ferreira Leite acusa a Imprensa.

Também nas notícias da sociedade civil em geral o mesmo acontece. Os dirigentes desportivos acusam os árbitros. Os alunos acusam os professores e os governantes. Os professores acusam os governantes e os pais. Os pais acusam os professores, a polícia, as finanças, quem lhes aparece pela frente. E, no fim da linha, os juízes acusam o poder político e os cidadãos até já acusam a Justiça!...

É um mar de acusações, aquele com que a imprensa diária nos brinda constantemente. Não há afirmações, intenções, averiguações, denúncias até, mas simplesmente acusações!

Não só. Também nos enche os olhos de exigências!

Não há pedidos, não há sugestões, não há ideias, não há conversas, não há ofertas, não há entendimento, conciliação, cedência, harmonia, mas apenas exigências, depois das acusações.

Os professores exigem o fim das avaliações. O Governo exige o cumprimento das leis. Os militares exigem os subsídios. O Ministério das Finanças exige o corte nas despesas. Os bombeiros exigem mais viaturas. A ministra exige melhor cumprimento. O INEM exige mais meios e mais autonomia. A Direcção e a população exigem mais rapidez dos serviços. Os doentes exigem melhor Serviço de Saúde. As Farmácias e a Indústria Farmacêutica exigem os pagamentos da Tutela, em atraso. As Finanças exigem o pagamento das dívidas ao fisco. E por aí fora, numa linguagem parecida com a que utilizam os assaltantes das bombas de gasolina, quando exigem a massa ao funcionário intimado...

É sempre um mar de acusações e de exigências, qualquer que seja a página que estejamos a folhear. Poderia haver discurso directo ou indirecto, palavras alternativas, mas há simplesmente acusações e exigências!

A terceira «palavrota» agora em voga na imprensa é o protesto.

Os deficientes protestam contra a escassez do subsídio. Os trabalhadores protestam contra os baixos salários. Os presos protestam contra as condições da prisão. Os sindicatos protestam contra o novo Código de Trabalho. Os juízes protestam contra a redução das férias judiciais, e assim por diante. A vantagem ou desvantagem, neste caso dos protestos é que os governos nunca protestam, só acusam ou exigem.

A imprensa portuguesa é um mar de acusações, exigências e protestos de todos contra tudo o que mexe.

Mas, neste país que todos clamam de brandos costumes, quem não acusa, nem exige, nem protesta, é um palerma! Se não, vejamos os adágios populares:

Quem não se sente, não é filho de boa gente.

Quem não fala, consente.

E portanto, quem não acusa, não exige, não protesta é um palerma!

Assim se explica por que razão a linguagem da nossa imprensa é tão agressiva, tentando, talvez, fazer dos portugueses, aos olhos dos estrangeiros, um bando de corruptos, de criminosos, de revolucionários, de inconformistas. E afinal, depois de residirem por cá durante algum tempo, eles descobrem a outra face oculta do país, a tal dos brandos costumes que os jornais não mostram, aquela em que Portugal é antes um bando de laxistas, em que a permissividade às leis ou a fuga ao seu cumprimento estão instituídos como lei suprema, indiscutível. Descobrem ainda que a maioria dos portugueses, afinal, não acusa directamente ninguém, mas suspeita de toda a gente, da própria sombra, se for necessário, descrê da política, da imprensa e da própria Justiça. Por último, verificam que as exigências não passam, na maior parte das vezes, de meras intenções e os protestos não passam da boca para fora.

São essas características negativas, tão ausentes das suas terras de origem, que fazem as delícias dos turistas que nos visitam ou por cá residem. Interiorizaram há muito que os portugueses barafustam muito, mas não fazem mal a ninguém. São até, para os mais arrogantes deles, uns pobres diabos simpáticos, numa terra de bom clima, bonitas paisagens e vida barata.

A sorte de muitos desses turistas é não saberem, nem fazerem por saber, uma linha de português. Se conseguissem ler os jornais, cheios de crimes, acusações, exigências, protestos, condenações, fugiriam logo aterrorizados, para os seus países.

A menos que não dessem nenhuma importância, ou dessem o devido desconto às notícias, como fazem os cidadãos nacionais residentes...

Mais não digo.

Só acuso, exijo reparações e protesto contra quem não estiver de acordo comigo.