domingo, 13 de janeiro de 2008

CRÓNICA DE UM DIA DE CHUVA

Os magistrados e o futebol

O escândalo do Apito Dourado, com escutas ou sem elas, e outros escândalos mais nas áreas do desporto, com o futebol à cabeça, vieram destapar aquilo de que toda a gente falava, mas muitos não queriam ver exposto ao sol: a cumplicidade bizarra entre alguns magistrados e certos órgãos estatutários das agremiações desportivas.

As situações foram vindo a lume, o incómodo da classe tornou-se evidente, e o Conselho Superior de Magistratura, como guardião da ética corporativa, fez uma petição ao Governo para que estudasse e pusesse em prática uma lei, proibindo os juízes de exercer cargos nos órgãos estatutários das entidades envolvidas em competições desportivas profissionais, o que ainda não foi deferido, para sua grande mágoa, um ano depois de feito. Disso se queixa, neste momento.

É interessante, no entanto, apreciar a situação e o pedido do CSM. Se, por um lado, os juízes se reclamam sempre, e muito bem, de todos os direitos de soberania que lhe cabem, e defendem, com todo o direito também, as suas liberdades de cidadãos a tempo inteiro, por outro pretendem abdicar desse direito neste caso particular…porque temem não poder conseguir cumprir os deveres que a ética exige minimamente a qualquer cidadão que se preze e por aí, deitar abaixo o bom nome que a classe deve preservar a todo o custo.

É como agarrar o touro pela cauda.

Os juízes fazem parte, e ninguém se insurge contra isso, de numerosos Conselhos de Administração e de Justiça de empresas, mas disso não pretendem abdicar, provavelmente porque os erros por vezes ali cometidos, como acontece a qualquer ser humano, aliás, não têm a visibilidade que adquirem no futebol.

É natural também que a presença dos magistrados, com a sua cultura superior e a sua especialização profissional na aplicação da Justiça, seja sempre bem vinda no mundo do desporto, como no das empresas, públicas ou privadas, apesar de alguns maus exemplos que se têm verificado. Uma árvore nunca fez a floresta e a nossa Justiça tem dado, paralelamente, muitos e bons exemplos de dedicação e cumprimento do dever, aos cidadãos.

Não faço ideia do que o Governo, irá fazer a respeito deste assunto, nem me interessa. Sei apenas que, curiosamente, numa anterior proposta governamental para restringir a presença de magistrados nas entidades desportivas profissionais, já em 1993, o Tribunal Constitucional votou contra!

Mas isso pouco importa. O que me preocupa é que uma classe que até gosta de lembrar aos cidadãos que é parte de um órgão de soberania da Nação e tem o dever de zelar pelos bons costumes, aplicar a lei e defender a cidadania nacionais, não seja capaz de fazê-lo ela própria sozinha, de consciência tranquila, acima de todo e qualquer ruído de fundo, e necessite de pedir ajuda ao Governo para solucionar as suas próprias questões de ética!

Algo vai mal na Nossa República.

Estou muito triste.

Chove lá fora.

sábado, 12 de janeiro de 2008

ESCUTAS PROVIDENCIAIS


Portugal salva a Torre Eiffel

Quando, há anos, visitei Paris pela primeira vez, fui ver, como toda a gente, a celebrada Torre, o emblema da Cidade Luz, e ocorreu-me uma coisa que talvez não passasse pela cabeça a muitos: subir a pé pelos férreos degraus, até onde a força dos músculos o permitisse. Não se tratava de uma prova de resistência, mas apenas de ir apreciando, á medida que ia subindo, a própria construção da torre, espectacular em muitos aspectos, e o desenrolar paulatino da paisagem, cada vez mais grandiosa, mais abrangente, mais bela…aproveitando a circunstância para fazer umas interessantes fotografias do entrecruzamento das vigas e dos panoramas que a vista ia descobrindo. Subi até ao primeiro patamar e dei o tempo gasto e o esforço dispendido por muito bem empregues. Conservo religiosamente as fotografias tiradas na altura.

Não sei se hoje poderia ter feito isso, depois de tantas medidas de precaução antiterrorista que a América e a Europa, principalmente, se viram obrigadas a tomar, após o tremendo e inesquecível atentado de 11 de Setembro.

De vez em quando, todos somos alertados para novas descobertas de iniciativas terroristas e novas precauções, cada vez mais drásticas, mais minuciosas, mais vastas…cada vez utilizando mais meios de detecção e de defesa. Assim, as pesquisas na Internet e as escutas, em toda a parte e com todos os meios possíveis, tornaram-se um lugar comum em todos os países, algumas vezes com prejuízo das próprias liberdades individuais.

Portugal não fugiu à regra, sujeitando-se igualmente a normas de cooperação internacional rígidas e inquestionáveis.

O nosso sistema de escutas já tinha dado provas de eficácia intervencionando os telefones fixos e móveis na caça aos ladrões, aos pedófilos, aos corruptos, aos aldrabões das facturas falsas e fuga ao fisco, aos viciadores das arbitragens de futebol, às redes de emigração clandestina, aos traficantes de droga, eu sei lá que mais…mas não sabia que podia ir mais além.

Entretanto, eis que dou de caras com uma notícia sensacional:

Interceptada em Portugal conversa sobre ataque à Torre Eiffel

(2008-01-11 15:35:52)

E assim ficou esclarecido que o nosso sistema de escutas é o melhor do mundo!

A Torre Eiffel fora salva graças a escutas feitas por gentes portuguesas…

Nem acredito! Eu que tantas vezes descartei a habilidade dos escutas de serviço e desvalorizei as escutas de base, estou desolado.

Afinal nas escutas somos os melhores!

Peço desculpa.

TIRO AOS PATOS -II

Em Alcochete e arredores…

No Tiro aos Patos anterior, fazia eu uma referência ao possível loby que teria servido de muleta à Administração Superior da Nação para aprovar, tão ladina, a localização do nosso futuro maior aeroporto internacional e fazia uma sugestão, meio a sério, meio a brincar, ao poder investigador da imprensa especialista, para deslindar tamanha suspeição. Ali havia gato! Não sou assim tão perspicaz como poderá pensar-se, mas, desta vez sinto-me inchado com o acerto da minha previsão.

Hoje, logo de manhã, um conhecido matutino, em crónica editorial, fazia referência ao nome de Alcochete dado à Carreira de Tiro, como resultado do «loby» maçónico dos começos da Velha República, em 1913, por Pereira Bastos, casado com uma alcochetense e Ministro da Guerra do Governo de Afonso Costa, nosso bem conhecido político e maçon dos quatro costados! Não fosse a mulher do Pereira Bastos de Alcochete, e esta vila (?) teria passado à história…isto é, nunca teria ficado na História (com letra grande, claro), apesar de ter sido a terra natal de D.Manuel I, coisa que já não interessa nada a ninguém nos dias de hoje! O outlet comercial ali instalado é muito mais importante e badalado.

Não fica por aqui o furor jornalístico coscuvilheiro e pedagógico do matutino, conseguindo o feito notável de mostrar, simultaneamente, que a quase secular Carreira de Tiro de Alcochete fica encurralada entre as freguesias de Samora Correia, Canha e Poceirão, sendo que a linda povoação de Alcochete, embora perto, não deveria ter sido para ali chamada, para nada!

Em vista do que, o meu oráculo pessoal avisa-me já de que o futuro aeroporto, a breve trecho ou lá mais para diante, vai mudar de nome.

Não será crime, na minha perspectiva, mas alguém irá ser culpado dessa mudança, na altura própria, porque é do partido A ou B, porque fuma às escondidas, porque tem relações de amizade com o dono de um sobreiral das redondezas, porque faz gala de duas acções do Bank of América e joga póquer em vez da bisca de três, bebendo uns golos de aguardente velha nos intervalos…

Mas outras coisas interessantes descobri nos comentários dos mesmos monopolistas dos ditos que ainda há pouco tempo se entretinham a atacar a construção do novo aeroporto e do TGV com unhas e dentes, que o país não tinha dinheiro, não tinha hospitais, antes tinha outras prioridades e não precisava de altos voos, nem de grandes velocidades que só interessavam aos poderosos «lobies» dos Negócios, da Política, da Construção Civil, dos Bancos, dos Chico Espertos Nacionais. É que agora, na primeira página, aparecem esses projectos como potenciadores de 76000 empregos, obras imprescindíveis que já deveriam ter sido iniciadas há mais tempo…e de quem é a culpa do tempo perdido?

Sem comentários.

Os autarcas dos «desertos» de Serpa e de Mértola é que não gostam nada da futura localização do Campo de Tiro que por aquelas redondezas irá ser encastoado, mesmo na zona de fronteira, e atiram alguns obuses, de prevenção, em várias direcções.

Enfim, o tiro aos patos continuará, mesmo depois de todas estes malabarismos saloios com que se entretém os nossos costumeiros informadores de faca e alguidar, para suma desgraça daqueles que vão caindo e sendo depenados.

Mas para mim, tanto se me dá.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

TIRO AOS PATOS

O novo aeroporto

Já está praticamente decidida a localização do novo aeroporto principal do país. Bem, segundo uns, mal segundo outros. Mas o que se questiona principalmente não é a boa ou má decisão, mas se o Governo recuou, se o Presidente interferiu, se o Ministro será ou não demitido… Digo também praticamente decidida, porque ainda resta um último berbicacho: o estudo final de impacto ambiental para a zona de Alcochete. Nada que não consiga ser ultrapassado, apesar da Quercus e seus apaniguados se oporem sempre, por sistema, a todos os grandes e pequenos projectos de obras públicas que são apresentados para execução. No fundo, radicalmente, terão razão mas, mal de nós se déssemos ouvidos, permanentemente, à Quercus na defesa dos seus passarinhos raros, das suas lagartixas de estimação, das suas águas subterrâneas e salinas desativadas, sem contrapor um mínimo de bom senso…As aves da região de Alcochete já estavam habituadas aos estrondos de canhão da carreira de tiro, cada vez mais reduzidos em número, devido à crise financeira que o país atravessa.

Contava-me há tempos, um amigo com ligações à tropa, que em certos exercícios de tiro de peça, a brigada, ou lá como se chama, formava junto do canhão respectivo, depois de receber a instrução respectiva e dar provas de ter aprendido bem a lição, preparando-se para actuar. O comandante dava ordem de começar, cada elemento ocupava o seu posto e procedia-se ao posicionamento da peça e à afinação da pontaria, feita a qual o faxina que municiava fazia menção gestual de carregar o respectivo obus, fechando a seguir a culatra, na realidade vazia. A ordem de disparo era dada, o encarregado carregava no botão e um subordinado instruído fazia:

-PUM!!!...

O alvo era sempre atingido! E procedia-se à fase seguinte de limpeza do cano, nova pontaria, novo carregamento fingido, etc., até acabar com as munições imaginárias combinadas e preencher o relatório.

Se a cena se passasse em Alcochete, as aves de estimação estariam, de parabéns e a Quercus descansada! O Campo de Tiro de Alcochete era um sucesso, as instalações eram um brinquinho, os canhões, embora antigos, estavam perfeitamente limpos e oleados, o pessoal não tinha excesso de trabalho e podia entreter-se perfeita e calmamente a fazer as contas do próximo aumento ou de promoção de carreira! Que me desculpem os militares se exagero, que nada tenho em seu desfavor.

A verdade é que não sei como as supremas autoridades da nação caíram nessa de elegerem Alcochete, um Campo de Tiro com tradição de cerca de cem anos de disparos, sabe-se lá como e contra quem, ainda por cima aqui pertinho de Lisboa! A imprensa especialista que se entretenha a investigar se ali houve ou não mãozinha de loby, e passe a factura. Mas isso já foi ultrapassado. Os marginalizados artilheiros, do PUM fingido ou não, terão que escolher rapidamente um novo terreno no deserto do Alentejo, onde não haja aves selvagens nem passem as migratórias, que as de capoeira já não existem e os frangos de aviário não são para aqui chamados.

Não haverá entretanto outros problemas muito mais importantes, neste momento, para a Comunicação Social do que fofocar na escolha de Alcochete se o Primeiro Ministro arrepiou ou foi forçado a arrepiar caminho, se o Ministro das Obras Públicas se arrependeu ou não de dizer jamais, se os partido A ou B pedem a demissão dos arrependidos ou vão agir contra quem copiou a sua ideia de construir neste local, se o Presidente da República influenciou ou não a decisão governamental, se os «otários» da Ota vão protestar no «faroeste» e os de Alcochete vão deitar foguetes ou fazer tiro aos patos do estuário? …

Isso mesmo! Tiro aos patos é que é preciso!

Sei que ainda é cedo para a concretização do monstro, não obstante um parto tão longo e difícil, mas já estou a antever os grandes aviões da Airbus e da Boeing a partir e a aterrar nas pistas de Alcochete, os hotéis próximos a engolir e a vomitar turistas, homens de negócio, pilotos e aeromoças, as empresas de abastecimentos a transferir gasolina ou a acomodar refeições prefabricadas, as polícias e os seus cães a guardar ou a farejar os malandros eventuais, com o Tejo a passar ao lado, cada vez mais encolhido, abraçando comovida e saudosamente nos seus braços o mouchão da Póvoa, refúgio dos últimos cavalos e dos apanhadores de minhoca da zona…

O que falta fazer até lá é uma obra de gigantes para durar anos, mas muitos oráculos julgam que é o momento certo de começar a brincar com a nova ponte, o que vai dar pano para mangas aos encartados info-desinformadores nacionais, por largos tempos.

E eu que estava quase a ficar curado da indigestão do super aeroporto, com todas as suas viroses, começo a sentir que vou ficar de novo enjoado…

Antes ficar enjoado, que enojado!

Imagino-me a ir amanhã, logo de manhãzinha à Farmácia, comprar um frasquinho de sais de fruto, por precaução, depois pegar numa fisga improvisada com restos de uma câmara de ar de bicicleta, respirar fundo o ar despoluído de fumadores, do meu quintal, e por-me a fazer pontaria a uns pratos velhos há muito pendurados dum pinheiro ainda mais velho que eu…

Regresso à terra, ao real, mas sinto-me cansado.

Hoje já não tenho paciência para mais.

Ao diabo a Ota, Alcochete, os partidos, a imprensa e os patos…

Vou dormir.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

CRÓNICA REFERENDÁRIA

O referendo, a constituição, os partidos e os cidadãos


Não há dúvida de que um referendo nacional é uma coisa séria e como tal deve ser tomada. Pelo menos, assim, com essa intenção, foi inscrito na constituição pelos sábios da nação e a constituição, segundo eles, não deve ser para brincadeiras.

Mas os partidos, que também vêm descritos na constituição dos sábios e portanto devem ser considerados como coisas sérias, nem sempre são assim tão sérios, nem devem ser tomados tanto a sério! Os «gurus» portugueses, ao contrário dos indianos que são infalíveis nos seus ditames, como homens, também se enganam e muito.

Em resultado das ideias liberalistas do século XIX, e pondo de lado, por agora, a célebre Magna Carta Inglesa, as constituições foram forjadas no pressuposto de que o Povo era soberano, isto é, era o soberano, o sábio, o sereno, o virtuoso…o decisor supremo em todas as decisões que ultrapassassem o âmbito dos Parlamentos governados pelos partidos políticos. A máquina da democracia foi sendo modificada e oleada ao longo destes duzentos e tal anos após a célebre Revolução Francesa, passando por muitas outras revoluções, francesas e de quase todos os países, até ganhar uma certa estabilização, o que não impediu que, de vez em quando, acontecessem na própria Europa, sobressaltos graves e…milhões de vítimas, muitas mais que as do histórico Terror revolucionário e guilhotinesco de Robespierre e seus acólitos idealistas, incorruptíveis…

Por que será que a grande maioria destes idealistas, entre aspas, se tornam oportunistas sanguinários? Provavelmente pela mesma razão pela qual os idealistas pacifistas acabam quase sempre às mãos dos sanguinários de serviço. E todos têm, como pano de fundo, a sua democracia, a sua constituição, o seu próprio radicalismo, à falta do elementar bom senso! …

Por essas e por outras, as constituições são muitas vezes para estes idealistas, tanto para uns como para outros, letra morta!

Mas para muitos oportunistas não radicais que dela se aproveitam, a constituição é também letra morta, à sua maneira, isto é, fazem dela a interpretação mais conveniente, quando dela lançam mão, já que muitas vezes não lançam mão dela para nada. Poderá parecer esta minha afirmação exagerada, mas talvez não tanto. Se tomarmos como referência os famigerados referendos que tanta discussão têm tido e que os partidos tanto apregoam e defendem, como proscrevem, conforme as circunstâncias e conveniências, chegamos à conclusão de que os partidos, como os homens que os dirigem e deles se servem, são os garantes da sua democracia própria, em vez da democracia geral do bem comum, em nome da qual dizem actuar.

A nossa constituição, como todas as leis e sendo a mãe delas, no Portugal em que toda a gente sabe de tudo e de tudo desconfia ou diz pestes, deveria, por isso e como salvaguarda, ter como apêndice um regulamento próprio, com muitos parágrafos e muitas vírgulas que não necessitasse sequer de um Tribunal Superior supra-partidário, quanto mais de um bizarro Tribunal Constitucional semi-partidário, nem pudesse ser posta em dúvida por ninguém. Talvez seja um exagero.

Mesmo assim, não sei se conseguiria a unanimidade de apreciação da maioria dos portugueses. E por quê? Porque a grande maioria dos portugueses não conhece a constituição, nem quer saber da constituição para nada, afinal como, por outras razões, os próprios partidos políticos que tanto falam dela! Vai longe o tempo em que um regime ditatorial obrigou ao estudo da constituição da Nação nos liceus. Na nossa badalada democracia, os políticos acharam que não era necessário entrar muito por esse caminho…

Assim, o Zé Povo, sábio, sereno, virtuoso na altura das eleições, mas iletrado, inculto e incivilizado nas outras, está-se borrifando para a constituição que os políticos invocam constantemente. A constituição que ele conhece e quer ver aplicada é o direito a ter saúde, casa e alimentação garantidas! E quanto ao referendo, nem vale a pena falar! O que ele sabe, de certeza, é que, quando se faz um referendo, se gastam milhões de euros…para nada! Os políticos, se sabem, afirmam eles, governar o País de cegos, como não dizem, mas pensam, bem podem resolver as questões a referendar, sem necessidade de lhe entrarem no bolso…

E o que é isso, afinal, do referendo? Não deve ser nada de importância capital, porque, nos três referendos efectuados há pouco tempo, com gastos astronómicos, quase metade dos Zés ficou em casa a ver, na televisão, o desafio da sua equipa favorita e alguns se encaminharam até para a sopa dos pobres!

As guerras de alecrim e manjerona dos partidos políticos têm, vistas de fora deste prato forte que a comunicação social nos serve todos os dias, com todas as suas forças e os seus interesses encobertos também, o seu quê de caricato!

Um belo exemplo, entre milhares:

O partido do governo utilizou como uma das armas pretensamente úteis para ganhar as eleições, o referendo ao tratado constitucional europeu. O maior partido da oposição propôs e apoiou a votação parlamentar do mesmo.

Agora, redigido o tratado, o partido do governo, resolveu mudar de opinião, alinhar na votação parlamentar. Logo o maior partido da oposição reclamou a originalidade da decisão que o governo se atrevera a copiar, culpando-o de deixar de lado as promessas eleitorais que deveria cumprir... Os restantes partidos entretém-se com posições de conveniência diversa, também nem sempre lineares.

Ora toda essa baralhada referendária, esta discussão acalorada e parva usada para tapar os olhos ao eleitor, a quem interessa? Apenas aos que a promovem ou dela se alimentam.

E ao cidadão comum ocorre apenas perguntar simplesmente e sem sofismas:

-Que interessa afinal, verdadeiramente, honestamente, à Nação?

Ele mesmo dará a resposta:

-Apenas interessa a discussão, nos partidos, nos órgãos administrativos, nas autarquias, nos órgãos de comunicação social, nas academias até, do próprio tratado, dos problemas que dele resultarão, dos benefícios ou prejuízos, etc. etc. E uma decisão séria, honesta, consciente, deve ser tomada no final, qualquer que seja o partido do governo ou os partidos da oposição.

Já é tarde!

O que se tem verificado no caso do referendo, como aliás na generalidade dos temas sujeitos à politiquice corriqueira que nos inunda, nem sequer é simples, pura conversa, mas fofoca pura e simples, novela de literatura de cordel! Ainda que os «clarividentes» comentaristas de serviço se esforcem por dizer o contrário…

Infeliz povo que tem que gramar tais políticos e tal comunicação social, ainda que em nome da democracia! A deles, claro.

Mas será isto Verdadeira Democracia?

A gente que sabe há muito está de pantufas, ao quentinho, caladinha, a ver…

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

CRÓNICA DE ALVORADA

Toques disciplinares, musicais e outros

Acordei cedo e lembrei-me logo de que, na tropa, o toque de alvorada era uma peça de cornetim que tinha que ser aprendido de memória pelos recrutas, logo nos primeiros dias de incorporação. Os desgraçados tinham então, a partir dali, uns escassos minutos para se enfiarem, em linguagem de caserna, para se vestirem e calçarem, apresentando-se no lugar próprio da formatura a tempo do toque de ordem unida e de sentido. O sargento instrutor verificava rapidamente se faltava alguém, mandava o cabo apontar o número do faltoso e aplicar o castigo, no mínimo quinze dias de faxina à caserna, num tempo em que não havia detergentes e em que nem sabão amarelo nem a creolina conseguiam apagar do nariz o cheiro nauseabundo do chulé, o conhecido sulfato de infantaria…Acrescia que o arejamento das camaratas era muito deficiente naquela época em que os quartéis eram quase todos resultado de adaptação de conventos confiscados às ordens religiosas pelos malvados liberais, em meados do século XIX, edifícios de grossas paredes de pedra e estreitas janelas, quase frestas por vezes.

Só fui tropa episodicamente, durante três meses em que nem uma só noite dormi na caserna. Fui, nesse sentido, um privilegiado, não por razão de qualquer cunha, mas porque os dias que antecederam o 25 de Abril e os que se lhe seguiram assim o determinaram, pois havia ficado isento de Serviço Militar, vinte anos antes! Primeiro passeei até ao Convento de Mafra e depois até aos Sapadores de Campo de Ourique, ao Hospital Militar da Estrela e ao Laboratório Militar, nos Olivais. Para além dos transtornos profissionais, foram três meses bem passados a conhecer alguns pormenores da organização, a dar meia dúzia de tiros de pistola Walter e de G3 contra uma barreira, fraca precaução para uma eventualidade, pois me destinavam a um posto de controlo, aquisição e distribuição de medicamentos às Forças Armadas, numa qualquer capital de distrito de Província Ultramarina.

Foi assim que assisti a muitas formaturas e toques de reunião, de formatura, de sentido, de destroçar, à vontade, ao rancho…Mas havia muitos, muitos outros toques para todos os gostos!

Quando era novo, embora já estudante universitário, residi uns quatro ou cinco anos na Calçada da Ajuda, a rua dos quartéis, como eu lhe chamava, começando com a cavalaria da GNR, logo ao cimo, em frente ao Palácio, e seguindo com o Mertalhadoras ou Infantaria 1, o Lanceiros 2, quase em frente e, ao fundo, o Cavalaria 7, com o seu armazém de blindados! E, logo abaixo, ficava o Palácio de Belém. Numa rua transvesal, a uns escassos duzentos metros da Calçada da Ajuda, na Calçada da Boa Hora, situava-se ainda um Hospital Militar!

De modo que, com a minha casa situada quase a meio da calçada, podia apreciar, quer quisesse ou não, os diversos toques com que a rapaziada aquartelada se entretinha, no ensino e na prática da disciplina de ferro, via toque de corneta. Nos intervalos, ouvia o treino, os ensaios dos tirocinantes a corneteiros dos diferentes regimentos e, como se isso não bastasse, uma vez por outra a Guarda Nacional Republicana descia, a cavalo, a Calçada, com a fanfarra em pleno, afinando o estilo para a cerimónia de recepção a um qualquer embaixador em primeira apresentação à Presidência da República.

Mas, a certa altura, embora a princípio achasse graça e depois fizesse um esforço sobre humano para ultrapassar a festa, comecei a ficar farto!

Nunca mais voltei a ouvir tantos toques na minha vida! Nem em Mafra, apesar de ali, uma vez por outra, o carrilhão dar o seu concertozinho para turista, exercitando simultaneamente os ouvidos e os punhos de um organista entendido a bater nos martelinhos do órgão monumental.

Finda a minha aprendizagem de tropa, regressei aos toques de outra música mais suave, pensava eu.

Aos poucos, fui-me desenganando. A música clássica dos tradicionais instrumentos de sopro e de corda depressa ficou soterrada pelo toque agressivo dos bombos e das pandeiretas, dos sons bizarros das marimbas, das latas, do reco-reco, e das esquisitas formas de tocar dos saxofones, dos trompetes, dos pífaros, das ocarinas e até das mirabolantes violas eléctricas de formas e afinações bizarras…

Também nunca vira tanta variedade de instrumental na minha vida. Certamente, quem quisesse agora descrever, apreciar o toque, ou contar todos os instrumentos de música mostrados a torto e a direito e actualmente em uso, ver-se-ia grego!

Isto, para não falar dos toques polifónicos de telemóvel que nos apanham em qualquer lugar, estejamos acordados, com dor de cabeça ou bem dormidos. Mas também há toques silenciosos, como os dos médicos, que só se fazem sentir quando gritamos de dor…ou ficamos sem nada na carteira.

A televisão tornou-se o veículo de toda esta transformação musical e um perfeito repositório de toques para a posteridade, a começar nos toques de chapa na Segunda Circular tão frequentemente apresentados no pequeno ecrã.…

E não só!

À medida que desaparecem da «pantalla» os desfiles do passado com as suas cornetas, os concertos de Música Clássica com toda a sua panóplia de aparelhos e toques, aumentam os toques de martelada, os toques de ferros, os toques de disparo de pistola das polícias e de canhão dos guerreiros activos em qualquer guerra, o rebentamento de bombas da Al Qaeda e o toque a que já ninguém liga, do arranque dos aviões a levantar voo ou a aterrar com os VIPs de serviço…

E, nos intervalos de todos estes toques televisivos que por natureza já são poucos, um desgraçado que se aventurasse e não mudasse prontamente de canal, arriscava-se, algum tempo atrás, a ouvir as três pancadinhas de Molière no início de alguma desengonçada peça de teatro, coisa que se foi quase definitivamente com o aparecimento das novelas. Estas não fazem a cerimónia de um qualquer toque para se anunciar, mas especializaram-se em toques para todos os gostos, como o toca a andar, o toca e foge…

Ainda sinto, de vez em quando, saudades de certos momentos da TV, com o Vilaret a recitar, por exemplo, na sua voz musical e ritmada, «o jumentinho pela estrada plana, toque, toque, toque…»

Já vai longe o tempo.

Agora o que está a dar, na televisão, depois de uma época falhada de entrevistas e discursos a que ninguém liga, são o toque de bola e o toque xó à portuguesa!!!

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

COINCIDÊNCIAS DO DIABO


O polvo…

Não sei por quê, ao acordar, lembrei-me, por uma daquelas razões que não têm razão de ser, daquela série bem conhecida -O POLVO -que passou semanalmente na TV e que relatava, ou melhor, retratava os episódios da caça aos patrões da Mafia italiana…

Seria o subconsciente a pregar-me alguma partida?

Vesti-me de pressa, que já era tarde, e a minha mulher aguardava-me impaciente, com a TV ligada num noticiário qualquer, para sairmos.

-Que vamos comer hoje? E se fossemos ao arroz de polvo, para desenjoar?

O Natal e o Ano Novo ainda não vão longe e já quase não me lembro das ementas preparadas nas comemorações familiares tradicionais. A minha mulher fez o favor de me lembrar o bacalhau, o peru, as filhoses, as rabanadas, o bolo-rei e por aí fora, e deslocou-se ao espelho, enquanto dava um jeito ao cabelo…

-Olha lá! Que tal achaste os meus preparados deste ano? Ainda não tiveste uma palavrinha de encómio para o meu trabalho! Do que gostas é de meter as pernas debaixo da mesa, quando tudo está pronto e o resto que apareça não interessa como…

-Não é bem assim! Eu fui às compras, preparei as bebidas, ajudei a por a mesa…

-Grande coisa! Eu é que me encarreguei de quase tudo e tu só preparaste a garganta!

-És pobre e mal agradecida! Então quem abriu as garrafas de champanhe? E ainda por cima tive que gramar o doce, eu que aprecio mais o seco…

- Pormenores sem importância. Mas toda a gente me agradeceu e elogiou o meu trabalho e o requinte da mesa, menos tu!

-Mas fui eu que tirei as fotografias! A propósito, não queres ver as fotos que já meti ontem no computador? Vens?

Enfiei uma camisola, liguei o aparelho e, após breves momentos, lá estávamos os dois sentados em frente do portátil, apreciando as minhas obras-primas, por sinal muito fraquinhas, desta vez.

-Que tal? Não dizes nada?

-Para quê? Quase não me apanhaste?

-Essa agora! E a mim, quem me apanhou?

-Ora, infelizmente, eu!

-Lá estás tu com as palermices do costume. Se não fosse eu, não havia fotos, desta vez. Todos gostam de ver, todos têm máquinas excelentes, mas ninguém se atreve…E ainda me culpas, e de quê?

-Estou sempre de costas, a cozinhar, a servir a família, todos muito alegres, todos muito conversadores, todos muito bebidos já para o fim…

-Então quem é esta beleza que está aqui ao meu lado?

-Olha lá, que te cai um dente!

-Foi o Miguel que tirou. E mais esta, e esta aqui, e mais estas todas a seguir, pois eu pedi-lhe, se não ficava em branco, que a mim não és tu capaz de tirar fotografias. Nem te lembras! Mas agora, espera só um bocadinho, que está a dar uma notícia esquisita na TV.

-Que é que te interessa tanto assim?

-Não sei, parece-me que ouvi qualquer coisa como apreensão de polvo…

-Mas nós este ano não comemos polvo…

-Está bem, olha, o polvo é outro…parece que é cocaína misturada com polvo congelado, num grande contentor na doca de Lisboa.

-O quê? Deixa ver…com a conversa já tinha esquecido o noticiário… não sei quantas toneladas…

E lá ficámos durante uns minutos apreciando os cenários do noticiário da TV e os comentários respectivos, findos os quais nos viramos um para o outro e dissemos quase a uma só voz:

-Como é possível!

Ficamos ali postados, olhando-nos mutuamente, atónitos, até que a minha mulher avançou:

-Polvo, nunca mais!

-E fora de casa, muito menos!

Como disse, tínhamos pensado, há minutos, para descansar das tarefas e comezainas da semana, ir almoçar um arrozinho de polvo a um certo restaurante especializado neste acepipe, mas o apetite fora-se.

-Tenho ali uns pastéis de bacalhau, daqueles que tu gostas e que a Maria preparou ontem…Que achas?

-Maravilha!

Fui abrir uma garrafinha de tintol de Borba, sentamo-nos descansadinhos à mesa e desfrutamos calmamente do petisco.

Felizmente a cocaína ainda não chegou ao bacalhau!

Voltei a questionar-me porque é que tinha acordado com a lembrança da série O POLVO, passada na TV. Há coincidências do diabo!