segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

CRÓNICA AMARGA DO DIA DE REIS

A morte das tradições e as tradições de morte

Estamos na época das tradições familiares: o Presépio, a Árvore de Natal, o Dia de Reis, com os seus acepipes e doces tradicionais os quais constituem, só em Portugal, uma lista de várias páginas. Além de fazerem crescer água na boca, criam disputas entre regiões e até simples locais, acerca de qual é o melhor…

A pouco e pouco algumas dessas iguarias tradicionais vão perdendo o seu sabor original, à medida que a industrialização vai igualizando tudo, aplicando os seus corantes, conservantes, acidificantes, antioxidantes, edulcorantes, estabilizantes, etc.… conduzindo-nos ainda a uma dieta rica em ómega 3, vitaminas, aminoácidos essenciais, quase sem sal, quase sem gordura e sem colesterol…

Mas os olhos também comem! Para quem vive na cidade, e é já a maioria dos portugueses, ir ao supermercado é uma tentação, muito mais fácil e económico que ir à Terrinha para trazer os chouriços, as alheiras e farinheiras, as morcelas, os presuntos, os paios, os queijos e tantas outras coisas que agora nos chegam das fábricas às carradas, com selo de certificação e tudo! E já nem falo do bolo-rei que acabou com o brinde tradicional por causa da reclamação dos dentes partidos, leva aspartame em vez de açúcar e até é válido por quinze dias!

Mas não podemos dizer apenas mal dessas modernices. São higiénicas, trazem a composição agarrada (mesmo em termos energéticos!) e estão mesmo ali à mão de semear, em qualquer altura, isto é, em qualquer época do ano, que o tempo da fruta da época já lá vai!

Afinal, bem vistas as coisas, o Natal é quando o homem quiser! Ou a mulher!...

A propósito, recordo o primeiro Natal que passei com a família, num país situado nos trópicos em que, após o almoço terminado com frutos exóticos, fui com mulher e filhos até uma praia de água morninha, com um sol esplêndido, eu que nunca havia ultrapassado a tradicional passagem da consoada sentado à lareira ou ao radiador, comendo castanhas assadas e ouvindo histórias da carochinha, se não acontecia fazer alguma oração pelo meio ou ir à missa do galo, com um frio de rachar…

Muitos Natais acabei tostando ao sol e, quando já tinha quase estabelecido para a família uma nova tradição, eis que faço o regresso a Portugal, a uma readaptação conveniente, mas difícil. As tradições deste Cantinho, passados esses anos, já não eram bem o que eu conhecia! E, algum tempo depois, vieram os hipermercados e os centros comerciais dar cabo do resto!

Quase. Felizmente, ainda existem uns quantos resistentes ao fecho da porta e, ultimamente, assiste-se a uma tentativa de reabilitação das tradições. Nem sempre, porém, pelos bons motivos.

E assim, a morte dos touros em Barrancos tem sido trazida à liça e, por falar em certas selvajarias tradicionais ainda em uso, que ninguém se atreva a decretar a matança do porco, com a sua barbaridade, o seu ritual de faca e alguidar, o seu eco trágico pelas quebradas, acompanhado das risadas brutais dos matadores antecipando já as febras afogadas na pinga… Quem assim legislar perderá, certamente, as eleições seguintes. Os autarcas, tão ciosos que são das suas tradicionais prerrogativas na defesa dos fregueses, estão bem caladinhos!

Ontem, fui acordado da minha pasmaceira por uma notícia espectacular, daquelas que fazem os jornalistas gastar muitas páginas, apesar da carestia do papel e até de haver outras muito mais importantes. Numa aldeia de Trás-os-Montes, a junta de freguesia local pugna pela manutenção de uma tradição, lutando contra o país inteiro, isto é, contra a lei de proibição do tabaco recentemente aprovada, nos dias 5 e 6 de Janeiro.

Às ortigas, pois, a famigerada lei! Manda a Junta de freguesia! Naqueles dias, as crianças podem e devem fumar para manter a tradição! Se esta «tradição» pega, por aí fora…

«Segundo a edição desta segunda-feira (7) do jornal Público, que cita algumas crianças da região, uma criança de oito anos admitiu ter fumado 23 cigarros nestes dois dias. Outra, de onze anos, também citada pela mesma publicação, afirma ter fumado dois cigarros, e esperava que o pai lhe oferecesse mais tabaco.

Num outro testemunho, também citado pelo Público, uma criança de dez anos afirma ter fumado dez cigarros e ter tido algumas tonturas quando experimentou fumar um charuto.

De acordo com a tradição da Festa dos Reis, em Vale de Salgueiro, todas as crianças acima de cinco anos estão autorizadas a fumar por ocasião desta celebração».

Apetecia-me agora escrever qualquer coisa a este respeito mas, pensando bem, não sei se conseguiria os termos adequados…

É melhor ficar por aqui.

Palavras, para quê?

domingo, 6 de janeiro de 2008

A NOTÍCIA E O COMENTÁRIO

Bial: visão, risco e gestão

Camilo Lourenco

Jornal de negócios

A Bial acaba de licenciar um medicamento antiepiléptico nos EUA, naquela que é uma das maiores conquistas das empresas portuguesas. A Bial actua num mercado difícil (uma droga nova custa 800 milhões de dólares), mas possui ADN de vencedora: tem visão (apostou nas doenças do sistema nervoso central e das doenças cardiovasculares), noção do risco (investiu 450 milhões de dólares na nova droga) e gestão (Luís Portela comanda 89 investigadores, e 7 nacionalidades, entre os quais 19 doutorados).

O prémio chegou ao fim de 13 longos anos, em que investiu 450 milhões de dólares sem qualquer retorno: o acordo com a empresa que vai negociar com a difícil Food and Drug Administration a comercialização do produto nos EUA vale 75 milhões de dólares (a que se somarão 150 milhões a partir de 2009). E o melhor pode estar para vir. Se conquistar 5% de quota do mercado das drogas epilépticas (4 mil milhões de dólares), imagine-se o jackpot?

São estes exemplos que devem ser divulgados, “ad nauseam”, pelo Governo. Até porque os grandiosos planos de apoio às empresas (tecnológicos ou outros) só funcionam quando existe visão, risco e gestão.


Mail enviado ao autor em 6-1-2008

Exmo. Senhor:

Antes de mais, parabéns pela publicação do seu artigo.

O tema enche-me de orgulho porque, por vezes, acredito que os portugueses, quando pensam e trabalham a sério em coisas que valem a pena, são tão bons como os outros.

Aflige-me, por outro lado, o tempo que é usual perder-se em questiúnculas de«lana caprina», tanto a nível partidário, como empresarial, etc., pondo os lobies do costume acima do verdadeiro interesse nacional, etc.

Diz, quase no fim, que o Governo deve divulgar «ad nauseam» casos como este...

Também concordo. Mas não chega...e até, neste país pequenino, poderia haver más interpretações.

Na minha opinião, seria muito interessante que a nossa Imprensa publicitasse «ad nauseam» estes casos. É à Imprensa que compete informar...com rigor, com o sentido íntegro de formação dos leitores e, num caso destes, informar bem e pormenorizadamente, repetidamente até à exaustão!

Mas prefere, tão solícita como é habitualmente, encharcar páginas e páginas de lodo, fofoca, crime e lugares comuns, formando assim o Zé no baixo nível a que nos vai acostumando e deixar para temas como este, meia dúzia de linhas...

Haverá alternativas?

Certamente. Eu gostaria, por exemplo, que a Imprensa, sempre tão importante e ciosa das suas liberdades (que ninguém contesta!), tivesse um pouco mais de humildade e, em consciência, se preocupasse um pouco mais com o seu devido uso. Ver o argueiro no olho do vizinho, já há muito quem.

Desculpe o meu desabafo sentido.

Os meus cumprimentos.


J.Rodrigues

Alfragide

sábado, 5 de janeiro de 2008

DERIVANTES DA ECONOMIA…

As decisões economicistas

Há já muitos anos, trabalhei numa empresa que não tinha dificuldades financeiras e por isso fazia gastos sem o devido controlo em determinados sectores. A certa altura, tendo a gerência em vista um projecto de engrandecimento para o qual eram necessários investimentos de certa dimensão, encarregou o economista de serviço de tirar um coelho da cartola: controlar os gastos correntes aos quais ninguém ligava nenhuma. Não queria propriamente um controlo ao tostão, mas exigia de todas as chefias uma atenção mais cuidada sobre as despesas e a sua correcta justificação.

Surgiram, em pouco tempo, notáveis reduções de custos em sectores nos quais ninguém imaginava excessos. Os gastos com papel, fotocópias, tinteiros, clips, borrachas, esferográficas e outro material de escritório foram reduzidos a metade, sem prejuízo do bom desempenho dos sectores e não obstante alguns protestos da comissão de trabalhadores…O aperto nos gastos foi decorrendo com situações mais ou menos complicadas, umas, outras bem simples e outras até bastante caricatas, como a que se verificou no controlo dos artigos de limpeza geral e de higiene privada, tomados, à partida, como um ataque do patronato aos trabalhadores, levando a uma redução drástica dos detergentes, dos sabonetes, das toalhas, das luvas, do papel higiénico, etc. Neste caso, perante a reclamação permanente de alguns funcionários, a administração da empresa resolveu entregar a higienização a uma organização exterior, a qual começou por montar os conhecidos dispensadores de papel higiénico, de toalhas, de detergente, aparelhos de secagem das mãos, etc., obtendo-se, mesmo assim, uma redução notável de despesas. Com a alteração de funcionamento da cantina passou-se algo semelhante, obtendo-se gastos menores com a contratação de uma empresa exterior o que, à primeira vista, parecia impossível.

No fim do ano, com a aplicação de todas estas medidas economicistas, algumas delas até fortemente contestadas, foi possível dar um prémio melhorado ao pessoal e tudo voltou à normalidade. Até o gerente que chegara a ser considerado e apupado como sovina e outras coisas bem piores, passou a ser tido como uma boa pessoa, etc.

Claro que nem todas as coisas se passam, na vida, com esta simplicidade. A nível governamental, não tanto por mérito próprio, mas por determinação da CE que nos governa na sombra, houve que fazer contenção drástica de despesas, em sectores nos quais ninguém deixara de gastar sem controlo, limitando-se os gestores públicos a pedir mais, no fim do ano, para equilibrar as contas cada vez maiores. Talvez por isso mesmo, os partidos políticos que há pouco ainda clamavam excesso de empregos e da despesa pública, os sindicatos que há pouco também clamavam por maiores aumentos salariais, e os autarcas, peritos em conseguir o aval da árvore das patacas das finanças do governo em seu benefício, todos descobriram uma forma de ataque formidável aos adversários que não podem derrotar ou contrariar de outra maneira, chamando-lhes economicistas!

E aí está como, do economista, que se preocupa com as questões de economia e sociais, nasceu o economicista, que trabalha no económico e se preocupa em obter resultados económicos… passando por cima das mesmas questões sociais, pejorativamente falando.

Hoje, na imprensa diária, decisão política economicista já não é aquela que se destina a fazer economias no erário público, na mira de gerir bem o que é de todos, mas apenas uma formidável arma de arremesso sempre pronta para justificar atitudes individualistas, patrioteiras, interesseiras, corporativas, sindicais, partidárias, etc., conduzindo a mera demagogia, sempre mais fácil a qualquer um do que investigar ou encarar a realidade das coisas, por vezes bem complicada e cruel.

Lembro, a propósito, uma breve nota que em tempos enviei ao Público, a propósito de uma acusação de economicista feita a alguém, já não me lembro quem, por encomenda de interposta pessoa ou agremiação partidária:

Caros senhores:

Alguém acha que lançar impostos, fechar centros de saúde e maternidades, aumentar o custo das consultas, etc. são medidas tomadas por gosto, destinadas, «lixando o pagode», a caçar votos? Alguém acha que o ideal é fugir ao pagamento de impostos e os que não pagam não devem ser condenados? Alguém acha que qualquer governo deve dar tudo aos cidadãos até se endividar sem remédio, não exigir nada em troca e depois não prestar contas a ninguém? Alguém acha que a saúde depende só dos hospitais regionais e não, igualmente, de muitas outras medidas para a melhoria da qualidade de vida das populações?
Felizmente a C.E. obriga os políticos a contas à europeia e não à antiga portuguesa. Isso custa bastante, tanto mais que nós não estávamos habituados a um mínimo de rigor! Mas só depois de uma gerência eficaz dos dinheiros públicos poderão vir, por acréscimo, todas as benesses a que os portugueses têm direito, sem qualquer discussão! Será isto, na realidade, a tal decisão economicista de que tanto falam?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

CRÓNICA DA PRAIA DA LUZ


Navegar num mar de dúvidas

Há bastantes anos, passei umas ricas férias de Verão na Praia da Luz. Era ainda muito rústica, muito agradável, acolhedora, sem aqueles magotes de veraneantes que enxameiam outras praias do Algarve nos meses de Julho e Agosto. Passados uns dez anos, fiz uma visita ao local e apercebi-me de que as construções para turismo programado, então a progredir em grande escala, iriam estragar aquele pequeno paraíso.

Não voltei mais à Praia da Luz e quase a tinha esquecido, não fora a tragédia do desaparecimento da criança filha de médicos ingleses, com dinheiro e com um tipo de vida bem diferente da média da gente portuguesa.

Confesso que, durante algum tempo após a data do acontecimento, me deixei envolver pela curiosidade doentia que os meios de comunicação social portugueses, ingleses e até internacionais fomentavam. Logo percebi que o caso ultrapassava os limites do bom senso e até da humanidade que comove as gentes boas e crédulas. Liguei à terra, esperando que a polícia fizesse o seu percurso e deslindasse o caso, no mínimo para elevar o brio dos portugueses.

Mas o assunto não ficou esquecido pela C.S.

De vez em quando, alguma notícia bombástica vinha alertar as gentes durante uma boa semana, para que o assunto não morresse de vez.

Agora, tantos meses passados, vejo na capa de um diário mais um furo jornalístico de arromba.

E, já sem paciência para isto, resolvi fazer o meu levantamento daquilo que nos foi dado conhecer a respeito deste caso único…único apenas pelo imediatismo de que se tem revestido. E fechar o assunto!

Mas, pensando bem, vale a pena esperar, calmamente na desportiva, se é possível, para ver que mais irá acontecer, no caso Maddie!

Não apreenderam o diário quando era necessária e fácil a apreensão Os suspeitos foram nomeados arguidos e deixaram-nos sair de Portugal, nas barbas da polícia, sob os holofotes da Comunicação Social e a protecção dos conselheiros políticos do Governo Inglês.

A criança já foi vista em meia dúzia de países, nas pastelarias, nas bombas de gasolina, nas ruas, mas nunca foi encontrada.

A Polícia Judiciária Portuguesa já foi posta nas ruas da amargura, pelos ingleses e até muitos portugueses.

O assassinato e morte da menina também já foi dado com certo por uns quantos clarividentes, mas os ossos tardam em aparecer.

Os noticiários da Sky News e dos pasquins ingleses já propuzeram não sei quantas soluções inteligentes que só a polícia portuguesa não vê…

E os detectives particulares andam por aí, investigando pistas a preços de saldo.

A PJ já fez o seu exame de consciência, numa remodelação interna, mas apenas por não saber lidar com os jornalistas e nada mais!

O espectacular laboratório inglês que faz a pesquisas de ADN, mantém um silêncio cúmplice…ou ignorante, coisa difícil de distinguir pelos leigos, mas permitindo, à boa maneira inglesa, todas as especulações aos jornalistas sem escrúpulos e não só.

Os dinheiros de um fundo explorando os papalvos ingleses e de outros países, bem ou mal intencionados, dão para pagar a publicidade, os detectives privados, os comentaristas, os fotógrafos, os psicólogos, os conselheiros, as mesas redondas, as missas, as prédicas, as capas de revista…

Agora a PJ pretende interrogar os arguidos, mas eles não estão cá, o prazo legal está a acabar e estão em dificuldades para fazê-lo…

O segredo de justiça, se ainda existe depois de ter sido denegrido todos os dias, está no fim do prazo de vigência e há que prolongá-lo.

A ignorância foi transformada numa confusão total de certezas feitas à medida dos intervenientes: ingleses, portugueses, espanhóis, franceses e até gregos e marroquinos!

Os bruxos, os adivinhos, os peritos em expressionismo, os psicólogos de meia tigela e ainda os ex-polícias encartados (portugueses e ingleses), já deram as respectivas garantias definitivas de ter o assunto resolvido.

Só a nossa Judite não crê, continua sempre, sempre calada!

Mas vale mais estar calada que dizer asneiras!

A única coisa certa, e de que não é preciso falar, é o desaparecimento da criança.

E resolver uma questão destas, nesta altura do campeonato, é mais difícil que efectuar a Quadratura do Círculo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O CUSTO DAS VÍTIMAS

A falta de civismo que nos indigna

O ano passado terminou com uma série absurda de mortes na estrada e o novo ano começa da mesma maneira. O fenómeno não é recente. Todos os anos é a mesma coisa.

Estou farto de ver as acusações da polícia de trânsito ao excesso de álcool dos condutores e à velocidade excessiva que imprimem às viaturas. Também estou saturado de ler na revista do A C P as críticas ferozes ao traçado e à sinalização deficientes das estradas nacionais.

Agora, num artigo de hoje do D.N., faz-se referência ao custo de cada uma das vítimas, para o erário público, cifrado em cerca de um milhão de euros!

Tenho as minhas dúvidas de que este custo, apesar de bem alto e entrar fundo no bolso dos portugueses, faça tremer de medo os portugueses! Eles estão-se borrifando, é o termo mais exacto, para o custo das vítimas, e até para as próprias vítimas! Claro, desde que as vítimas não sejam eles próprios. Aqui está a questão de fundo, na resolução do problema.

De há uns anos a esta parte, o Estado, quer por iniciativa própria, quer por influência ou pressão da CE, foi melhorando as estradas, o seu traçado, o seu piso, e a sua sinalização; colocou mais polícia nos pontos nevrálgicos, exigiu a revisão periódica dos carros, o controlo mais apertado e a revisão mais amiudada das cartas de condução; pôs em vigor um novo Código de Estrada, com multas muito mais pesadas, etc.

O número de veículos em circulação tem aumentado sem cessar e a quantidade de acidentes e mortes tem vindo lentamente a diminuir.

No entanto, os acidentes mortais, alguns de certa dimensão, continuam a manchar o obituário nacional, fazendo-se notar especialmente pela sua violência. Significa isto que, à medida que melhoram as estradas e a sinalização, aumenta a velocidade de condução e os choques de grande impacto? Neste contexto, a renitência na colocação dos cintos de segurança é imperdoável e também o consumo de álcool se torna muito mais perigoso.

Por outro lado, quem não tem carro, hoje?

Mas o civismo da população não acompanhou paralelamente o seu progresso material. Esta é a minha explicação para o número de mortes, aparentemente inexplicável, que continua a verificar-se nas estradas portuguesas.

E o remédio para isto, a meu ver, está nas escolas, a partir da Escola Primária. Talvez daqui a quinze ou vinte anos, se tudo no ensino correr bem, se comece a ver luz no fundo do túnel.

Oxalá seja antes e eu esteja errado!

PALAVRAS DE OCASIÃO

O discurso do Presidente

Já hoje é o dia 3 de Janeiro e ainda não se calaram os ecos, como qualquer cronista diria, com muito mais propriedade que eu, do discurso do Presidente de Todos os Portugueses. O eco é um fenómeno de reflexão do som que vem chegando até nós, cada vez mais brando quanto maior é a distância do reflector. Também o eco se vai tornando cada vez menos audível, isto é, perde força, à força de ser repetido…até ficar completamente apagado, mesmo que os penedos que reflectem o som continuem no seu lugar e mantenham a sua dureza.

Cada penedo das nossas serranias, à distância exigida, produz o seu próprio eco! No meio de uma penedia, tem a sua graça dar um berro e ficar a ouvir o eco repetido, uma e outra vez, cada vez mais enfraquecido, mais baixinho até ao silêncio final. Se nos virarmos para outro lado, apreciaremos a repetição do fenómeno, com tons ligeiramente diferentes, ou até muito diferentes…dependendo da força da emissão de voz, da colocação dos penedos e da sua distância, da acuidade do nosso ouvido, etc.

Estou aqui a escrever tolices, certamente, já que não sou físico encartado e me regulo apenas pelos meus conhecimentos rudimentares nesta matéria e alguma presunção à mistura. Mas sou um presumido de baixa estatura! Os ecos emanados das minhas penedias não fazem mal a ninguém, e até dão certo gozo, quando vamos passear à serra.

Já os ecos do discurso do Presidente são outra música.

Soam com diferentes tons e intensidades, conforme o rochedo que os reflecte, isto é, o partido ou a corporação que os devolve aos ouvintes. Voltando-nos para a esquerda, ouvimos o som agudo que fractura os ouvidos desprotegidos. À medida que nos voltamos para a direita, o som vai ficando mais cavo… mais confuso, como que meio enredado nas copas das árvores circundantes, como deputados ambiciosos de poder!

Numa coisa, porém, todos os partidos coincidem: o Senhor Presidente foi certeiro nos seus comentários de fim de ano! Todos se reclamam a favor das críticas feitas aos adversários políticos. Todos recusam enfiar a carapuça das censuras que lhes tocam!

Parecem-se com os adeptos ferrenhos de futebol em que o seu clube nunca perde. Ou ganha pelos golos que marca, mais que o adversário, ou ganha pela postura moral, durante o desafio, ou ainda porque o árbitro desculpou um penalty que deveria ser marcado contra a equipa oficialmente ganhadora ou expulsou um jogador da cor…

As crianças da quarta classe da Escola Primária interpretariam melhor o discurso do Presidente que muitos políticos encartados. Seriam mais ignorantes, certamente, mas muito mais honestas…se quiserem, mais inocentes!

Convenhamos que, do meu ponto de vista, o Presidente foi um artista emérito no seu discurso…ou quem lho fez. Meteu nele todos os pontos principais, aliás já corriqueiros, de convergência ou de divergência dos partidos, de que se lembrou, certo de que o Zé-povinho iletrado mas sábio, faria o seu juízo correcto, para além dos ecos partidários do costume, muito antecipadamente previstos e bem catalogados por todos os que ainda se interessam por estas coisas e que são cada vez em menor número, como demonstram as abstenções eleitorais.

As análises correctas e isentas são cada vez mais reduzidas em número, contando-se pelos dedos de uma mão aquelas que ecoam na Comunicação Social de uma forma serena e límpida, sem voz esganiçada de corsa mal ferida ou ronco baixo de fera ameaçadora, sem a cornucópia tentadora à vista…

Mas tudo isto já pouco interessa. O Presidente cumpriu a sua obrigação para com todos os portugueses, com palavras de ocasião na data prevista e não há motivo para despedi-lo do seu emprego. Os Governantes tentaram passar a mensagem dentro do melhor papel de embrulho e ficaram igualmente de emprego garantido. Os dirigentes partidários e seus apaniguados cumpriram também o sagrado dever de tentar abater os adversários, consignado na constituição (ou subentendido!) e não podem ser postos na prateleira. A Justiça, também ela inamovível, fechou as portas por mais uns dias festivaleiros, para poder aumentar o número de processos pendentes de arquivo. Até as intocáveis autarquias fecharam para férias, à míngua de inaugurações oportunas. O Zé-povinho bebeu uns copos na passagem de ano, atropelou mais uns quantos amigos de festa na autro-estrada, mas não há-de ser nada!...

Quem se lembra hoje, passados três dias, do discurso, das recomendações, das previsões do Presidente, apesar dos ecos, tão badalados quanto inócuos, dos partidos políticos?

Ninguém, excepto os oportunistas do costume!

Mais recordados ficarão, de certeza, os oráculos da cigana do bairro ou da cartomante de serviço na TV. E custam muito menos ao Erário Público.

Lembrar-nos–íamos todos, sem excepção, se ele tivesse pedido trabalho a todos os portugueses, como remédio eficaz, indiscutível e certeiro para os eternos males do País. Mas não teve coragem para isso. Seria abençoado por todos os partidos (que também não se atrevem a fazê-lo!), mas perderia muitos votos, de certeza absoluta!

E, pensando bem, para quê? A nós, chega-nos bem o que temos.

Contentamo-nos com pouco.

Eu também, claro, que já estou velho para folias.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

ABERTURA EM FALSO

Os defensores das liberdades individuais

Hoje é o dia primeiro, de Janeiro de 2008! Alvíssaras! Até aqui já chegamos!

Uma das minhas filhas e o marido pediram-me licença para fumar um cigarrinho, depois das crianças terem batido com as colheres de pau, nas tampas dos tachos de aço, durante alguns minutos, terminando de fazê-lo quando os compinchas do prédio em frente fizeram o mesmo, como se se tratasse de uma combinação prévia.

Como não podia dar-lhes licença? Estavam na sua casa, a fumar do seu vício, em local fora da jurisdição legal que impedia o fumo, justamente a partir das zero horas estipuladas…

Ambos fumam cerca de dois maços de cigarros por dia, bem contra o meu gosto. Já fizeram algumas tentativas para deixar de fumar, e a idade entre os quarenta e os cinquenta aconselharia o corte radical com essa porcaria. Mas o vício, como todos os vícios, é mais forte que a vontade deles e a minha.

De qualquer maneira, lá fazem um esforço para fumar próximo de uma janela, quando estão crianças ou estranhos e pedem licença delicadamente quando algum adulto não fumador está presente. A boa educação, o bom senso e a própria democracia a isso obrigam. Não sei como vai ser a vida deles, no emprego, a partir de agora, se a lei vai ser cumprida à risca…mas parece-me que, nos recintos fechados, não deverá haver grandes objecções. Nos restaurantes e repartições públicas haverá alguns atritos, certamente, nada que não acabe por ser resolvido, tal como noutros países, Itália, França, Alemanha, Espanha incluídos.

Também aqui em Portugal, tirando algumas discussões da partidarite corriqueira a que estamos habituados, nada de grave aconteceu até agora. Já na C. Social, alguns «democratas de bolsillo» têm procurado, em artigos mais ou menos tendenciosos ou matreiros, convencer o Zé Povo de que os governos da Europa e da América -com o nosso à cabeça – são uns radicais ditadores, atacando as sagradas liberdades individuais…É curioso verificar como um vício pode corroer o bom senso e corromper pessoas geralmente pacíficas, cordatas, inteligentes, clarividentes, cultas e amigas do seu semelhante, de forma a torná-las agressivas, cegas, atropelando os direitos legítimos dos que diferem -e muito bem -dos seus hábitos reprováveis.

Um político bastante conhecido da nossa praça, (J. P.P.) escritor e comentador quase diário dos nossos Meios de Comunicação e Informação, brada constantemente contra o atentado à liberdade de cada um (que estaria oculta no condicionamento do uso do tabaco), sem se dar conta que ele a viola a todo o momento, mandando às ortigas as reclamações dos vizinhos que têm que gramar o fumo dos seus cigarros sem tugir nem mugir…O vício cega e a pior cegueira é a de quem se obstina em não querer ver, mesmo que seja comentarista emérito…neste caso sem mérito nenhum!

Pior foi um artigo de um comentarista encartado do Correio da Manhã, o jornalista A.R.F., um desses fazedores de opinião que tudo sabe ou interpreta, muitas vezes, como tenho constatado, às avessas do que deveria, mas que a democracia tolera. Desta vez, excedeu-se de uma maneira indigna, não se limitando a discordar da lei que condiciona o uso do tabaco, o que é legítimo, mas insultando de viés e simultaneamente legisladores, governo, e todos os restantes cidadãos que não compartem o seu vício, com epítetos sonantes e repetidos, próprios de linguagem da Al Qaeda: fascistas, violadores da liberdade alheia, bufos, ignorantes, estúpidos, imbecis, fundamentalistas, burocráticos, gastadores, salazarentos, anti democratas, moralistas radicais ameaçando com o fogo do inferno, admiradores de Hitler que não fumava nem bebia mas matava judeus, etc…tendo em mira um possível juramento anti fumo (tipo juramento anticomunista do Estado Novo), antes de assinar por um novo emprego.

Se eu fosse psicopata, ou esquizofrénico, a esta hora já estava aterrorizado, só de imaginar os campos de concentração e os fornos crematórios que o nosso governo –e os de outros países da C E –estariam a planear, e pensava seriamente por-me a milhas, com a família, para alguma terra distante, onde as liberdades individuais não fossem postas em causa, como aqui, antes que viesse algum bufo da nova PIDE em preparação denunciar-nos, porque, apesar de não ser fumador, a maioria dos membros da minha família são…e são-me muito queridos! Essa ideia teria que agradecer, de qualquer maneira, ao senhor A. R. F., tão perspicaz comentarista do C. M. da Manhã.

Mas como sou uma pessoa normal, delicado, cordato e cumpridor das minhas obrigações, respeitador dos direitos dos outros em qualquer parte onde estejam, e aos quais não gosto de chamar nomes feios, a única coisa que me ocorre, neste momento é aconselhá-lo a ir ao médico, quanto antes, que o tabaco provoca, ao fim de algum tempo, distúrbios pulmonares, cardíacos e até neurológicos graves aos fumadores inveterados. Quem o avisa, seu amigo é…