domingo, 30 de dezembro de 2007

À BEIRA DO FIM DO ANO


Barrigas de aluguer à hora

Ontem abri a correspondência do correiodamanha@news.xl.pt e fiquei siderado.

Os títulos das notícias apresentadas eram rigorosamente os seguintes:

Gripe das aves já mata entre humanos

Engravidou menina de onze

Violador detido em flagrante pela PSP

Constâncio abre processo criminal

Portagens sobem 3% para ligeiros

Sovado até à morte

Laranja amarga no preço

Família desviou um milhão

Al Qaeda matou Bhutto

Nem uma notícia alegre ou, pelo menos, decente! Mas, pior que isso, era a descrição pormenorizada e, nalguns casos, propositadamente repetida ao longo dos próprios textos, de cada uma dessas notícias onde a sujeira, a pouca vergonha, a imoralidade total, o radicalismo sem contemplações eram postos a nu com insistência, como se nós não estivéssemos todos fartos dessas porcarias até à medula dos ossos! Ou ainda haverá alguém que não esteja?

Na realidade, que têm feito os senhores da C. S. durante estes anos todos, senão bombardear os leitores e os ouvintes com estas tristezas, a todo o momento e cada vez mais, com a justificação peregrina de que têm o dever de informar, já que a sua liberdade de informação é ilimitada e não pode ser coartada em nome seja do que for, porque os clientes exigem uma informação completa, isenta, de todos os factos…

Exigirão de facto?

Não conheço o Código Deontológico dos Jornalistas. Apenas conheço o Código Geral do Bom Senso que é comum a todos os humanos. E ele diz-me que informar provém de formar. Também me diz que, a informar, se pode desinformar, deformar e muitas outras coisas mais. Por arrastamento, já agora, também se aprende, mesmo sem querer, que a própria palavra formar pode ser utilizada com sentidos menos dignificantes, moralmente falando.

Não vale a pena alongar-me neste lamaçal de porcarias em que a C. S. justificadamente, segundo clama, se mete e quer meter-nos à força, pois não acredito que o cidadão comum bem formado goste de chafurdar nelas, de livre vontade...Fá-lo porque já quase não lhe deixam alternativa! As coisas boas quase não são publicadas, ou são-no com relevo diminuto.

Ontem, pois, ficara sem coragem. Hoje, último domingo do ano e um pouco mais animado, resolvi pesquisar na net qualquer coisa de jeito, na barafunda das notícias….

Para não variar muito, e talvez pela força do hábito, fui direito aos artigos de opinião dos nossos diários ditos de referência. Saltou-me aos olhos, imediatamente, o tom crítico dos franco atiradores encartados, com os seus artigos apontando a tudo o que mexe, fuzilando os seus inimigos de estimação em serviço, naquela senha partidária que na sua cegueira chamam isenção e que caracteriza os invejosos que nada criam, mas tudo deitam abaixo, na sua filosófica sapiência moralista de terra queimada em que, se não é para mim, não é para mais ninguém…Ou então, na sua fingida humildade: só eu sei que nada sei…mas os outros ainda sabem menos!

Depois de correr as diferentes capelinhas da elite jornalístico partidária, seleccionei um artigo de N. B. S. no Diário de Notícias, porque o seu título condizia um tanto com a passagem do ano tradicional e não me arrependi. Chamava-se «À beira das doze passas» e não metia guerras, assaltos roubos, corrupção, mas apenas fazia uma recolha das últimas e anedóticas tricas partidárias produzidas sobre o BCP e a CGD. Do mal o menos, apesar de já estar farto desta guerra de fofoca e respectivos comentários oportunistas que não é a minha. Mas foi o melhor que consegui. Parabéns ao N. B. S!

Saltei para o Público e, logo a frase da semana chamava a atenção para: «A cabeça dos portugueses», da autoria de V. P. V. E não resisti a imaginar o belíssimo espectáculo que se antevê na frase:

"Olhando para a televisão e para os jornais do fim do ano é verdadeiramente desolador verificar em que é que os portugueses ocuparam a cabeça em 2007."

Não pude ler o artigo de opinião, porque o Público só permite, estrategicamente, a sua leitura aos assinantes e eu já estou velho para me enfeudar a grupos que se arvoram de liberdade plena, sempre apregoada, mas encapotadamente a mantêm condicionada. Mas não devo errar se disser que se trata de mais um texto derrotista de bota-abaixo, com que este articulista usa mimar-nos.

Também já não tenho pachorra para comentar esses quadros derrotistas sistemáticos de quem parece que não sabe escrever doutra maneira ou sobre mais nada…e é pena, porque sabe, eu sei que até sabe e bem!

O último título que seleccionei vem em vários jornais e refere-se a uma graçola de A. B. na TV. O A. B. desde há uns anos a esta parte, quase só se dedica a zurzir em todas as direcções, mas especialmente naquela que engloba o partido que está no Governo, de que ele até já foi ministro, há bastantes anos:

«Sócrates foi a barriga de aluguer…» de Angela Merckel !

Já tinha ouvido e lido vários mimos ao Primeiro Ministro, a propósito das coisas mais diversas. Os sindicalistas, por exemplo, e o povo sofredor chamam-lhe ladrão, de vez em quando; as oposições e os patrões, aldrabão e mentiroso! Os juízes chamam-no tirano e anticonstitucionalista; os professores e os universitários, ignorante. Há dias, um senhor do C. M., despeitado pelo êxito de Sócrates na cimeira de Lisboa, chamava-lhe o faxineiro de serviço da C. E., entre outras formosuras.

Mas essa de barriga de aluguer, é o máximo! A P. M. alemã era a Mãe legítima do tratado, ela é que tinha feito todos os esforços para concebê-lo, Sócrates não passava de um oportunista, candidato a ganhar uns tostões, uns encómios…etc., que o seu trabalho e o de Portugal, ao contrário do que dizia a propaganda, fora zero! Fiquei muito triste. Mais triste do que quando ouvira alguém dizer, uma semana atrás, que Portugal, isto é, o Sócrates, tinha tirado o coelho da cartola…e depois já não tinha tirado, etc.

Portugal está bem entregue, nas mãos de tais «expert» da política jornalística caseira, como agora se diz no inglês da América que nos vai colonizando, a par do Brasil, querendo significar hábil, perito, conhecedor, autorizado, versado, entendido, experto, do latim expertu, donde provem o nosso idioma e a tal palavra inglesa usada na imprensa lusa a torto e a direito! Mas expertu (ou melhor expergitu) também deu, em português a palavra esperto, no sentido de acordado, fino, activo, vivo, vivaço, astuto, matreiro! É neste sentido que devem ser chamados os citados derrotistas de serviço em actividade, pois nestes tempos de inseminação artificial, já não há inconcebíveis! E expertos, cada vez eles me parecem menos…

Façamos votos para que o Novo Ano de 2008 seja melhor que este que amanhã acaba, com este governo ou com outro qualquer, que não estou inscrito em nenhum partido, corporação, maçonaria, ordem religiosa, loby empresarial ou bancário, ou sequer alguma capelinha de interesses ocultos…Faço a gestão muito, muito cautelosa da minha reformazita e já chega. Até que Deus queira!

E que viva Portugal, para além de certos sábios, faxineiros e chico espertos em barrigas de aluguer que se perfilam por aí, a escrever artigos à hora!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A FRASE E O COMENTÁRIO

A FRASE

"A administração fiscal converteu-se numa organização cujo principal objectivo é gerir com eficácia um aparato burocrático e legislativo dedicado a extorquir dinheiro aos cidadãos". Manuel Carvalho, PÚBLICO, 23-11-2007

Carta ao Director do Público(23-11-2007…22:29)

:publico@publico.pt

Senhor Director:

Li com alguma apreensão a frase do dia 23-11, escolhida pelo Público, sobre um «aparato burocrático e legislativo dedicado a extorquir dinheiro aos cidadãos». Já tenho lido coisas piores, mas esta também não tem graça. Não conheço, nem boa parte dos leitores, o contexto em que a frase foi escrita mas, de qualquer maneira, fez-me lembrar um e-mail que recebi, pedindo cadeia de transmissão a prevenir os amigos, a propósito dos «criminosos» radares instalados nas portagens das auto-estradas, proporcionando multas de 150 euros ou até a retenção da carta, aos passadores além dos 60Km horários estipulados…

Não há dúvida que Portugal é um país de brandos costumes e, sobretudo, de uma permissividade tradicional relativamente ao cumprimento das leis. Os cidadãos entretém-se, nas horas vagas, a descobrir ou publicitar a maneira de transgredi-las. Só faltava, já agora, a Imprensa também a colaborar nessa rebaldaria, demitindo-se, mais uma vez, da sua função de formação do cidadão comum!

Uma frase como aquela, uma vez escolhida, merecia, por isso mesmo, o comentário adequado, da parte do jornal. É evidente que, se todos os cidadãos pagassem honradamente as suas contribuições, quase poderíamos dispensar a tal máquina burocrática…a fazer o papel de polícia. E assim, talvez cada um de nós pagasse um pouco menos…

Eis Portugal no seu melhor!

Os melhores cumprimentos.

J.Rodrigues

Alfragide


2006, o ano das escutas


Crónica de Camões e do Envelope 9

«Estava a linda Inês posta em sossego,

De seus anos colhendo doce fruto» …

Era assim que Camões, nos imortais Lusíadas, iniciava a sua descrição do drama de Inês de Castro, vítima de um certo nacionalismo exaltado, bacoco e intriguista que haveria de fazer escola no nosso país, desde a época da consolidação da independência até aos nossos dias, sete séculos depois dessa saga!

Os sopradores de segredos da Inquisição, os lacaios dos intendentes do reino, os agentes da PIDE e tantas outras figuras que vieram protegendo a Pátria ao longo dos séculos, dos inimigos internos e externos, deram lugar, nos dias de hoje, à espionite dos telemóveis dos cidadãos pelas polícias, a coberto de licenças judiciais por vezes fictícias, oportunistas, rocambolescas, incríveis.

Milhares e milhares de escutas telefónicas são, por sua vez, devidamente autorizadas, recolhidas, seleccionadas e ouvidas…por uns quantos gatos pingados, os esforçados donos da verdade que nem tempo têm para ler as montanhas de processos que se acumulam nas suas secretárias, quantas vezes destinadas à prescrição legal…

Eu prensava, antes de ver nos jornais, quase diariamente, o repertório das escutas secretas passado na praça pública, que a figura do bufo tradicional no nosso país tinha sido ultrapassada, com o 25 de Abril. Enganava-me redondamente. A situação agora é muito mais refinada!

Cassetes da justiça na posse de particulares, documentos de tribunais nos caixotes de lixo dos ecopontos, envelopes com listas de chamadas interceptadas e certamente ilegalmente violadas por quem de direito, segredos de justiça publicados na praça pública todos os dias por esses famigerados jornalistas que iriam roubá-los à polícia, aos magistrados, aos tribunais, segundo autoridades judiciais estrategicamente incapazes de guardá-los a sete chaves, ou de efectuar inquéritos… bizarra forma de resolver problemas em Portugal!

D. Afonso IV deixou-se levar pelos patrioteiros da ocasião que na sua óptica eram excelentes e avisados patriotas. Naquele tempo não havia computadores, nem cassetes, nem telemóveis, mas as ordens, boas ou más, eram de execução mais célere e a justiça não era exímia em fugas estratégicas de segredos, nem deixava nunca prescrever os prazos.

«Tal contra Inês os brutos matadores» …

Continuava assim Camões, com puro realismo, mostrando que na época os costumes eram bárbaros, tão bárbaros como hoje são permissivos desde o cidadão comum até à própria justiça que deles e para eles é feita.

O caso do envelope 9 e do inquérito que se lhe seguiu, relatado pela imprensa nacional até à saciedade, é o caso mais vergonhoso de incompetência de uma Procuradoria a cargo, segundo se diz e eu creio, de homens honestos e bem intencionados, muito à portuguesa, como sempre, neste Portugal dos Pequeninos… que de boas intenções está o mundo cheio!

E assim, cá nos vamos mantendo, como já dizia o mesmo Camões nos fins do século XVI, nas vésperas da entrega do reino aos espanhóis:

«Nesta apagada e vil tristeza» …

A ARTE EM FÉRIAS

A cultura da parede


Foi já em 2006 e só agora me lembrei, mas não tem nenhuma importância. Também, passado um ano, ainda não percebo nada de Arquitectura. Não percebo nada de Arte. Continuo sem perceber provavelmente nada de nada. Sou assim e, ainda por cima, o caso aconteceu nas férias do ano passado!

Talvez por isso mesmo é que me parecem estranhas as edificações de formas paralelipipédicas gigantescas, de uma monotonia exterior confrangedora que agora cada vez mais atraem a atenção dos arquitectos cujo objectivo, imagino, é tornarem-se notados e talvez apreciados pela concepção e construção desses monstros tão fora do vulgar… coisa que não conseguiriam nunca fazendo planos de construções normais, em zonas habitacionais normais, para pessoas normais…Também há quem diga que os génios são anormais! Mas eu prefiro ser normal, sem génio, em vez de génio anormal! (Onde foi que eu já ouvi isto?) E a minha idade também já não me permite ir mais além. Perdoem-me, pois, as generalizações próprias da velhice...

Muitos desses blocos de betão gigantescos são agora, segundo as elites da cultura, o expoente máximo da Arquitectura Moderna, fruto de gente iluminada que deseja ficar para a posteridade pela «original» obra feita ou, pelo menos, diferente! Nesta altura do campeonato, o arquitecto que perspective um belo edifício de traça antiga, tradicional, está tramado! Não só pelo gosto actual ditado pelos punks, os pinta paredes e outros mais, mas também por uma certa evolução da arte do ferro e do betão, ultrapassando todos os cânones tradicionais, tal como, embora mais lentamente, a própria Ética, tendo ambas a permissividade total como pano de fundo! Vale tudo…até mesmo tirar olhos! E hoje, com o hábito de encararmos com tantas aberrações artísticas, até começamos a achar graça…até, de tanto nos matraquearem o mesmo, lhes darmos por vezes o nosso aval!

Quem o feio ama, bonito lhe parece!

Claro que esta crítica barata não tem nada que ver com a Ópera de Sidney ou a Gare do Oriente, por exemplo, mas apenas com as tais cartucheiras a armar…

A verdade é que, em Portugal, já não há presidente de câmara que se preze que não mande executar um mamarracho destes, na sua sede de concelho! Tal como as famigeradas rotundas, tão úteis umas vezes, quanto outras levadas ao exagero saloio…

Em Portugal, a moda artística, como as outras, pega com uma facilidade espantosa, porque, quando mija um português, mijam logo dois ou três…

Geralmente, aquilo que é bom não pega assim com tanta facilidade.

Depois do genial Álvaro Siza Vieira se meter a gizar (ou a sizar) uns edifícios de aspecto rectilíneo de duvidosa utilidade prática, mas notáveis pelo exotismo e o feliz enquadramento paisagístico que atraíram a atenção dos «críticos» internacionais da especialidade, logo meia dúzia de outros portugueses se puseram a copiá-lo desalmadamente e agora a cópia vai-se multiplicando, com variantes quase sempre no pior sentido…

Já agora, aproveito para render a minha própria homenagem ao Siza Vieira pela concepção e belo enquadramento da sua Casa de Chá nos rochedos da praia do Cabo do Mundo. Reconheço que, se tivesse arquitectado ali um salão tradicional, teria sido um desastre completo! Apesar de ser um pouco bota-de-elástico, começo já a gostar do Álvaro Siza, que consegue criar obra no local adequado como, recordo ainda, por exemplo, a badalada Pala do Pavilhão de Portugal na Expo 98!

Alguns copistas querem de certo ultrapassar os originais do mestre. E conseguem ao menos morder-lhe os calcanhares, com a ajuda dos tais presidentes de câmara rapidamente transformados em mecenas ou mesmo apreciadores de arte moderna consagrados, entre dois ou três períodos eleitorais. Algumas vezes, as rectilíneas, gigantescas e esquisitas obras lá se vão implantando em praças ou áreas de dimensões razoáveis, destoando do conjunto onde ficam inseridas, mas beneficiando da lonjura da vista…de forma a poderem vir a ser apreciadas, no seu tamanho e bizarria, por gentes futuras muito provavelmente de espírito artístico mais evoluído que o meu.

Mas outras vezes, os presidentes querem imitar a câmara da capital, depois de verem, com alguma inveja, o recuperado Chiado do Siza…ou mesmo o Centro Cultural de Belém, este de aspecto paralelipipédico gigantesco, mas felizmente construído a uma distância adequada dos Jerónimos, do Palácio de Belém e das casinhas dos pastéis! Imaginemos, só por um momento, a sua construção no centro de Alfama! Saia asneira da grossa, como as dos tais presidentes!

Em Sines, abriu há poucos meses a Casa da Cultura, concepção magnífica, num edifício moderno recém construído em betão revestido a mármore róseo, cuja inauguração e aspecto interior pude ver na TV e me deixou muito bem impressionado. Alguma coisa, porém, fez com que na minha mente ficasse um sentimento de desconfiança difícil de explicar…

Há dias, resolvi ir a Sines comer um peixinho grelhado, especialidade da Terra, como já há tempos não fazia. Dirigi-me ao Centro, ao local onde costumava estacionar habitualmente o carro, a escassos trinta ou quarenta metros do restaurante e, depois de virar na curva a seguir ao semáforo, agora rotunda em experiência, dei de caras com uma parede monstruosa de uns vinte ou trinta metros de altura e outra e outra, tudo fachadas lisas, sem janelas…Fiquei, numa primeira impressão, estupefacto! Mas não tive tempo para mais, que alguém já buzinava atrás de mim, obrigando-me a dar a volta ao quarteirão para estacionar.

Regressei a pé e devo dizer que, apesar disso, não desgostei do mamarracho. Mas o conjunto monumental foi construído na zona histórica da cidade, quase no centro, ficando rodeado de ruelas de três metros de largura bordadas de casinhas de um ou dois pisos, com cinco ou seis metros de altura…Os dois blocos paralelipipédicos paralelos, separados entre si por uma viela de dois a três metros, pareceram-me autênticos paredões emparedados por sua vez, na era do automóvel, qual arremedo do Castelo, a uns duzentos ou trezentos metros dali, mais baixo, contudo, com as suas muralhas ameadas, sem janelas, rodeado e preservado, na sua grandiosidade, pelas ruelas e as casinhas da Idade Média onde, à época, circulariam contados peões, cavalos e pequenas carroças.

Um dia destes, logo que possa, vou visitar, interiormente, a nova Casa da Cultura. Faço votos para que venha de lá entusiasmado, já que a sua localização me parece um pleno desastre. Como seria diferente, se tivesse sido construída num área de passeio e lazer, ampla, ajardinada, aprazível…apetecível aos seus prováveis utilizadores!?

Mas pode ser que esteja equivocado e que o senhor presidente da câmara, que já foi um médico de excelência comprovada, tenha razão na sua nova opção artística… De uma forma ou de outra, para a História vai ficar, de certeza!

Provavelmente era o que pretendia…

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A ASAE

Alguns comentários dispersos

Durante bastantes anos, a ASAE, ou outro organismo equivalente com obrigação de inspeccionar as lojas, firmas, empresas, explorações da cadeia alimentar, lá ia cumprindo de mansinho a sua obrigação, tão de mansinho que uma boa parte dos vendedores nem davam por ela e os consumidores passavam a vida a atirar pedras à sua quase total ineficácia.

Pode parecer um exagero esta minha afirmação, mas a forma de estar em Portugal, geralmente enquadra-se no meio, bem no meio das circunstâncias. A ASAE não fugia à regra. Para uns, não actuava…e ainda bem. Para outros, não actuava, nem era de estranhar…e era o pior que podia fazer!

Se havia indícios de intoxicação alimentar nalguma escola, a culpa era da ASAE que não fazia nada…

SE as bolas de Berlim vendidas na praia, ou os pastéis de nata da pastelaria da esquina eram uma porcaria origem de futura diarreia, a culpa era da ASAE que só fiscalizava onde não era necessário…

SE as bicas do café eram servidas em chávenas com as marcas labiais de cliente anterior, a culpa era da ASAE que passava o tempo a jogar a bisca em vez de trabalhar como devia…

Se a ASAE deixava passar batatas podres, couves azedas, azeite de vários graus de acidez, a culpa era da ASAE que provavelmente deveria receber luvas dos agricultores, transportadores, distribuidores ou vendedores…

Se milhares de estabelecimentos, por esse país fora, estavam de portas abertas sem alvará, porque as Câmaras demoram anos a concedê-lo sem uma justificação plausível, a culpa era da ASAE que tudo permite…

Se, no campo da restauração, como agora se diz, os cidadãos não ligavam à lei, nem cumpriam as regras de higiene, nem pagavam os impostos devidos, a culpa era da ASAE

Podia estar aqui a apresentar situações conhecidas que encheriam páginas e páginas.

Não vale a pena. Primeiro, porque as situações irregulares são do conhecimento geral e depois porque muito boa gente ainda se riria na minha cara!

É o que está a acontecer com os cumpridores funcionários da ASAE que desde o princípio do ano, puseram de lado a conhecida e tão criticada permissividade e resolveram agir com um mínimo de rigor, ante situações aberrantes…que eram muitas.

Dura lex, sed lex!

A verdade é que, logo depois de uma breve época de aplausos, A ASAE se tornou rapidamente no alvo da crítica geral, no seu ataque sem piedade aos coitadinhos, aos artesãos às empresas familiares, aos feirantes, às tascas, aos ambulantes…e nem o encerramento compulsivo de um conhecido hipermercado conseguiu minorar o estigma já aplicado de só atacar os pobres e favorecer os poderosos…

A guerra passou a correr também na Internet, sobretudo a seguir a um discutível artigo jornalístico de A.B. no Público, culpando por atacado a ASAE, o Governo e sobretudo a CE, a que estávamos escravizados, e nos iria impedir de comer as couves do quintal e as bolas de Berlim do vendedor da praia, e obrigar a tomar a bica em copo de papel, tudo por motivos higiénicos, mas principalmente por pressão encapotada das grandes empresas dos países industrializados, etc…

Uma corrente de e-mails foi logo posta a circular, recolhendo assinaturas de protesto para entregar a um ministro qualquer…a defender hábitos antigos dos portugueses, mas sobretudo os pequenos comerciantes, os pequenos agricultores, os pequenos fornecedores, os pequenos infractores, etc., a pedir a remodelação do Governo que dava ordens brutais à ASAE, finalmente a demissão do seu director, a aprovação de leis e regulamentos mais humanos.

Paralelamente a este pedido com aspecto humanitário a que os portugueses são sempre extremamente sensíveis, recebi alguns e-mails reclamando em especial o caso da bica em copo de papel, um atropelo ao mais elementar tradicionalismo nacional! O mesmo ainda quanto ao fim anunciado da bola de Berlim vendida na praia por ambulantes e ao pastel de nata avulso, sem embalagem, crimes difíceis de perdoar…

A tasca da esquina que não lava as chávenas como deve ser, a mulher que faz os pastéis em casa, para meia dúzia de pastelarias de bairro, e o vendedor das bolas de Berlim cuja mulher trabalha de noite para encher a caixa que ele traz ao ombro, todos têm direito à vida, mesmo que a sua higiene por vezes deixe muito a desejar! Concordo, mas não sei como dar a volta ao texto!

Tinha eu uns doze ou catorze anos e apreciei casualmente, quando ia para o liceu, uma atitude «bárbara» dos fiscais que, tendo analisado sumariamente duas bilhas de leite de uns vinte litros cada uma, derramaram o líquido ali mesmo, no esgoto da valeta, ante os gritos das duas leiteiras e o protesto de vários populares indignados, sendo as infractoras obrigadas, ainda por cima, a ir ao posto de polícia…Só muito mais tarde percebi a essência do problema e, já na Faculdade, aprendi a investigar sumariamente aquela fraude, além do mais, nojenta e perigosa para a saúde pública, agora, no nosso tempo tornada incompreensível, com o leite homogeneizado, pasteurizado, conservado, analisado e embalado higienicamente em pacotes individuais selados, etc.

Lembro-me de que uma das pragas dessa época era o tifo, doença a que hoje nem damos já grande importância, nem à febre de Malta, nem ao carbúnculo, nem às diferentes febres intestinais, nem mesmo à tuberculose e a várias outras tão correntes num passado recente. Embora muito se deva aos antibióticos na erradicação e cura dessas maleitas, a verdade é que o factor principal no seu quase desaparecimento é a mudança radical dos conceitos de higiene e a sua aplicação, nem sempre pacífica!

Quem não se lembra do arroz guardado no depósito de madeira da mercearia, aviado aos clientes tanta vez cheio de gorgulho?

Quem não se lembra de um certo decreto de um passado recente que, contra gregos e troianos, obrigou os padeiros a manusear o pão com luvas ou sacos de plástico?

Ainda se vê por aí, apesar do enorme progresso verificado neste campo, muita porcaria tolerada. Há uns oito ou dez amos, máximo, fui convidado por um grupo de apreciadores de sabores divinais, a uma visita a uma conhecida casa de petiscos muito apreciados, no centro da Amadora, com uma clientela enorme, tão grande como as pequenas instalações situadas numa cave de acesso difícil, sem exaustão, onde se fazia fila desde a rua, pela escada de caracol, para arranjar mesa…Mesas e cadeiras eram de pinho mascarrados de nódoas de todas as cores, sem toalhas nem guardanapos, com pratos meio partidos, rasos de passarinhos fritos trazidos da fritadeira a gás postada em frente sobre um balcão de aspecto indescritível, tanto como o chão, as paredes e o tecto baixo de cimento grosseiro, tudo pintado de óleo queimado por todos os lados. Num dos cantos, um pipo de cinquenta litros fornecia vinho servido em copos a escorrer de água do enxaguamento prévio num alguidar. As carcaças eram atiradas sem cerimónia para as mesas dos comensais pelo dono e a mulher, ambos de aspecto desagradável e mãos com unhas avantajadas e de luto. Os ossinhos eram despejados num saco aberto dentro de um balde, no outro canto…

Provei apenas um passarinho frito, não me atrevi a beber o que quer que fosse e fiz um esforço tremendo para permanecer uma meia hora no local…jurando, à saída, para nunca mais.

Mas, na minha óptica, quem tem culpa de tudo isto não é a ASAE! Somos todos nós que pactuamos com estas mixórdias, que não as denunciamos ou até as escondemos, que defendemos os infractores e até os elogiamos, e pomos os fiscais nas ruas da amargura!

A nossa permissividade quanto à execução das leis é bem conhecida. Tão depressa queremos condenar os criminosos a prisão perpétua por dá cá aquela palha, como os fazemos de coitadinhos, frutos de um momento menos feliz, vítimas indefesas da sociedade ou até das autoridades…

Julgamos na base da lei, mas conforme a ocasião e as conveniências. É como se houvesse várias leis, dentro da mesma!

Há dois ou três meses, um conhecido criminalista da nossa praça e simultaneamente presidente de uma Câmara, escreveu um artigo comentando o exagero, o despropósito, que ele achava cómico, de alguns fiscais da ASAE que tinham feito intervenções na feira da sua localidade de gente tranquila, vestidos de colete anti-bala…

Mandei-lhe o meu comentário, compreendendo a sua posição de autarca defendendo e protegendo os seus munícipes que nele votam, mas discordando da sua opinião, acrescentando que eu, se fosse fiscal honesto e não alinhando em corrupções de ocasião, nos dias que correm, faria o mesmo! Que é preferível ser criticado por vestir o colete, do que chorado por levar um balázio no peito!

A ASAE que se cuide!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

CRÓNICA DO DIA 26


O dia 26 de Dezembro de 2007

Liguei a televisão. Os canais de referência transmitiam excertos das alocuções do Cardeal e do Papa que na Basílica de São Pedro, em Roma, pregara a paz a um mundo displicente e incrédulo, representado na enorme praça por público de diversas nacionalidades, como é hábito, desta vez acomodado também em torno de uma árvore de Natal de razoáveis dimensões…sinal dos tempos.

Escutei o essencial, mas já não tive paciência para assistir até ao fim do programa alongado propositadamente para encher tempo, na ausência de acontecimentos de vulto, nesta altura em que toda a gente está de férias, mesmo que não queira!.

Fartei-me de correr canais, mas nada me entusiasmou. Resolvi sair.

Calcorreei a rua na direcção da papelaria do mini centro comercial próximo da minha casa. O sol já começava a aquecer e, não obstante uma pequena aragem que soprava fresca, o tempo não estava desagradável, o que favorecia a minha boa disposição, naquele momento.

Subi lentamente a meia dúzia de degraus de acesso à porta principal…

Uma folha de papel A4 colada na face interior da vidraça, avisava, em letras maiúsculas manuscritas e mal amanhadas:

NÃO DEMORO

VOLTO JÁ

Eu próprio é que dei uma volta pelo mini centro, convencido de que a funcionária, como é hábito neste país de pequenos vícios, teria abancado tranquilamente a tomar a bica das onze… os clientes que se tramassem, até podiam esperar um pouquinho!

As pequenas cafetarias estavam às moscas e, apenas em frente da Botaminuto, a dona ou sócia da ourivesaria onde vou trocar as correias do relógio de pulso, cada vez mais caras e mais ordinárias, coscuvilhava com a dona da loja dos periquitos (que nunca vi vender nada, já que os tempos não estão para passaradas desnecessárias), ao som das marteladinhas certeiras do sapateiro de consertos rápidos que, nos intervalos ia fazendo chaves com perícia, para alguém com pressa, com os dedos ainda besuntados de cola.

Atrevi-me a interromper aquele quadro cinzento de gangas dos pés à cabeça e caras tristes de fraco negócio, ainda para mais de ressaca da noite de consoada e da comezaina da véspera:

-Desculpem, minhas senhoras, por acaso não sabem dizer-me se a dona da papelaria ainda demora muito? Nos cafés, já vi que não está…

-Não vale a pena esperar por ela, senhor! Hoje não vem. A loja não abre!

-Mas tem um papel na porta…

-Mas não vem! Deve ter-se enganado…

Apetecia-me sentar uma meia hora, na esplanada, ao sol, onde havia muitas mesas vazias e um único utilizador matinal mas, sem jornal, nada feito.

Contornei o Centro Comercial dos Moinhos e dirigi-me, quase como autómato, ao Supermercado São Pedro, que além das muitas variedades de géneros alimentícios, também vende canetas bic, pilhas para lanternas de emergência, jornais e revistas. Estava salvo. Mas foi só por um triz! O dono já andava a recolher os jornais, as revistas e os cadernos de sudoku e amarrava-os com a força desalmada de um danado, depois de uma valente joelhada a aconchegar…

Tinha escapado o Diário de Notícias. Surripiei rapidamente um exemplar do monte e dirigi-me à única caixa de serviço, cuja funcionária me olhou de cima para baixo, com ar de comiseração, acentuando, antes que eu me arrependesse ou a cliente seguinte pusesse as cenouras e as carcaças no tapete rolante:

- Um euro e vinte e cinco!

Ainda tive ânimo para arquitectar a minha vingançazinha merecida, já meio a sorrir para dentro:

-Não tenho trocado! Só vinte euros...

-Não faz mal. Eu troco!

E, num momento, passou-me para as mãos um monte de moedinhas de várias valências que a muito custo consegui meter no porta-moedas que ficou como um trambolho e a pesar que eu sei lá, no bolso do lado esquerdo. Ainda me apeteceu reclamar que não queria nada daquilo, que só aceitava um troco decente, que ela tinha obrigação, etc.

Mas a verdade é que fora habilmente driblado pela espertalhona, nos meus antecipados intentos vingativos!

Sai para a rua com o jornal meio dobrado, a tentar, no meu passo miudinho, não agitar muito as folhas, de forma a ir lendo as gordas. Não havia vento, nem pessoas nos passeios. Que agradável!

Toda a área era minha, mas, logo a cinquenta metros, dobrada a esquina, tudo se altera. Junto a um prédio próximo do meu, com as janelas de vários andares completamente abertas, um carro de bombeiros e uma ambulância manobravam, rodeados por um aglomerado estranho de figuras de diversas idades, a maioria em pijama…algumas de máscara de oxigénio colocada na boca, a combater os efeitos de uma possível intoxicação pelo fumo…

Não quis averiguar o sucedido, deixando essa tarefa para os correspondentes coscuvilheiros e repórteres de serviço. Regressei a casa, com o elevador felizmente já reparado da avaria de véspera, que os degraus são muitos e a minha idade já não está para avarias. E fiquei na sala, sossegadinho, a ler as últimas do dia, até que a minha mulher me chamou para o almoço a dois!

Como me parecia longe o dia de Natal da véspera, com a família toda reunida aos beijos e abraços, os netos em volta do Pai Natal que distribuía as prendas, os flashes de diversas máquinas digitais fazendo competição com as luzes dos candelabros, da árvore, das velas, da fibra óptica e até dos isqueiros de alguns inveterados fumadores…que naquele dia tudo é alegria, tudo se perdoa!

Fico por aqui. Estou a ficar triste.

Lembrei-me de que tenho cerca de duzentas fotos no cartão de memória da Pentax miniatura que me salva nestas ocasiões, para ver e guardar no computador. Como é bom voltar atrás, por momentos, nem que seja em sonhos, quero dizer, em fotografias!...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Crónica circunstancial…

A VÉSPERA DO NATAL DE 2007

Com uma catarreira dos diabos e já farto de estar em casa a curtir conversas de ocasião, queixinhas sobre a colocação dos presentes junto ao tronco da árvore chinesa, e muitas outras coisas que não são para aqui chamadas, decidi sair, com destino inimaginável, a arejar….

O carro estava na rua, à minha espera, frio como gelo, o que fazia com que a minha tossidela se repetisse, cada vez com intervalos mais curtos. Mas esta carripana tem a sua solução própria e banal para estas coisas, pondo a funcionar, logo após a ignição, o ar condicionado automático, sempre regulado nos 22 graus, quentinho, como eu gosto. Ainda não consegui averiguar por quê, uma série de cerca de uma dúzia de espirros seguidinhos começa de mansinho, acelerando sempre a cada esforço que faço para acabar com ela, acabando subitamente, tão enigmaticamente como começou.

Claro que essa temperatura memorizada no automático não tem discussão quando ando sozinho. Mas, se a minha mulher vai ao lado, a sua primeira queixa é de que há calor em excesso e eu devo baixá-la:

-Como podes aguentar isto?

É escusado retorquir que o termómetro do exterior marca apenas 10, que eu sou friorento por natureza, como ela muito bem sabe, etc. Ouve e dá logo a sua sentença:

-Se não queres baixar a temperatura, vira os deflectores todos na tua direcção, que eu não posso receber esse ar quente directamente na cara.

Não tenho outro remédio. Então o fluxo de ar penetra-me nas narinas com alguma violência e começo a espirrar, a espirrar, a espirrar…E ela diz, então:

-Quando é que acabas com isso? Faz um esforçozinho…inspira com força e aguenta…não tens mesmo jeito nenhum! Outra vez…

A verdade é que, quando os espirros são fortes e a série demora mais tempo a passar, fico momentaneamente sem ver nada e o carro é guiado no piloto automático.

-Cuidado! Que se passa contigo? Quase ias para cima daquele carro…

Então eu passo-me e ameaço:

-Se não te calas, paro o carro mesmo aqui!

E ela, sem me dar tempo de executar a manobra:

Isso era o que devias ter feito, antes de sair do estacionamento! Que inconsciência! E agora, com este movimento e sem bermas, como queres parar?

-Não sei! Em cima da tua cabeça! Attt…chim!...

E, como por encanto, acabou a série.

Tal como agora, em que ia sozinho.

No primeiro cruzamento virei à esquerda, depois à direita, logo a seguir de novo à esquerda, automaticamente e, quase sem dar-me conta, encontrei-me metido numa fila enorme de carros, donde já não conseguia sair, na direcção de um grande centro comercial! Após dez ou quinze minutos de para-e-arranca, lá me decidi, que remédio, a procurar um lugar bem racionado num dos pisos do gigantesco estacionamento, tarefa bem difícil.

Estes dias, véspera de Natal, nas grandes cidades, são o diabo! Fica mal trazer o nome deste sátiro para o texto, numa altura em que toda agente deveria lembrar o nascimento do Menino-Deus. Mas, paciência! Até Jesus a perdeu ante os vendilhões do Templo! E quem sou eu para não barafustar com as filas de trânsito, nem com o vizinho que estacionou ao meu lado e roçou no guarda-lamas, nem com a menina da caixa que é uma lesma a despachar os clientes que me antecederam na fila interminável, nem com os carros que vão à minha frente colados uns aos outros, que não andam nem fazem sinais, finalmente com o comando da garagem que deve ter as pilhas a dar o berro…

Numa boa meia hora a roçar com os braços nos restantes compradores do hipermercado onde fora aterrar, a ouvir projectos, reclamações, queixas, gritos de crianças impacientes e censuras de adultos, muito mais…tornados visíveis e audíveis em vários idiomas, menos em chinês, lá consegui comprar uma tablete de chocolate fabricada pela Nestlé e importada da Alemanha, par não dizer que não trazia nada…

Guardei o carro, vi as horas e decidi que ainda era cedo para o regresso. Faltava pouco para as sete. Ainda havia tempo para dar um salto ao Chinês da esquina, a comprar as pilhas para o comando da garagem e, já agora, para os comandos das televisões, dos DVDs, do esquentador, dos relógios dispersos pelas salas…

Embiquei para o Chinês. Também estava cheio de gente das mais variadas idades, mas sobretudo senhoras que se atiravam, como gato a bofe, às árvores de Natal de fibra óptica que estão na berra, ao preço da chuva, muito mais baratas que as tradicionais…

Tradicionais, o quê? Onde é que essas já vão! Os incêndios nas florestas e a propaganda dos ecologistas quase acabaram com elas. As tradicionais já são, de há anos a esta parte, as plásticas, de montar na altura e dobrar para o ano seguinte…junto com a neve de algodão, as estrelinhas que piscam ao som da música, o Pai Natal feito em série, o Presépio de plástico muito bem disfarçado…

E pensando bem que mal há nisso?

Lembrei-me, não sem alguma nostalgia e alguma malícia à mistura, dos meus tempos de miúdo, com o prior da freguesia a invectivar duramente aqueles que montavam a árvore de Natal, que era uma ideia pagã (e nem sequer portuguesa!), que o Presépio era a representação do Nascimento, a única aprovada pela Santa Madre Igreja e a quem todos os católicos tinham obrigação de obedecer, se queriam salvar as suas almas...

Há poucos dias, farto já de ver a propaganda do Millenium BCP na Avenida dos Aliados, enfeitada com a badalada maior Árvore de Natal da Europa, já registada no Guiness e tudo, disse qualquer coisa à minha mulher que desta vez concordou comigo e consegui mudar de canal. Não fixei qual era, mas deu para nos extasiarmos, por breves minutos.

À nossa frente, ocupando todo o ecrã, a enorme Praça de São Pedro, diante do Vaticano, mostrava, bem perto do obelisco central, vários cardeais, com a pompa e a púrpura da ordem, procedendo à inauguração da Árvore de Natal lá do sítio, bem cheia de luzinhas e estrelinhas.

Não disseram qual era a proveniência, mas de certeza se tratava de material plástico, feita na China Comunista. Ou talvez não?!

O Mundo está completamente mudado. Se Cristo viesse cá de novo, era capaz de perder outra vez a paciência e zurzir nos vendilhões do Templo…Mas quem são os modernos vendilhões do Templo? O mais certo era partir para a China Comunista cuja bandeira tem estrelinhas -as mesmas que orientaram (desde o Oriente!) os Reis Magos da tradição - a pregar aos biliões de amarelos, que também são gente de Deus:

-Deixai vir a mim as criancinhas, que delas é o Reino dos Céus!

Por um momento, ultrapassei as minhas divagações e aterrei no balcão do Chinês com a pergunta sacramental,:

-Quanto custam estas pilhas?

-As pila custa três eros!...

Puxei do porta-moedas, mas lembrei-me de que as balanças electrónicas da casa de banho e da cozinha também não tinham pilhas, mas eram das de relógio que eu não tinha visto nas prateleiras. Perguntei de novo:

-Tem pilhas de relógio?

-Sim, ter. Qual quele?

E mostrou-me uma variedade de pilhas redondas de diversos diâmetros e espessuras…que os meus conhecimentos não davam para voltagens nem amperagens de miniatura.

Lá escolhi as que me pareceram mais de acordo com a minha memória visual, paguei, despedi-me e regressei a casa, contente por ter feito, no meio de tanta trapalhada, uma bela acção: comprar pilhas, sem as quais a habitação para por completo!

A minha mulher agradeceu-me com um beijo, quando lhe disse que trazia a pilha da balança electrónica da cozinha.

-Foi transmissão de pensamento! Como descobriste que fazia falta? Nem sabia como fazer o bolo, com a balança avariada!

-Sou adivinho!

E dirigi-me para o interruptor da árvore chinesa de fibra óptica que se mantinha apagada:

-Olha lá, não tens vergonha de manter isto apagado, a esta hora da noite?

O presépio da sala, industrialmente feito em série, ainda do tempo dos espertalhões mas já ultrapassados comerciantes americanos, já estava iluminado, com todos os figurantes em miniatura, pastores com ovelhas aos ombros incluídos, e o coro cantando:

Entrai, pastores, entrai

Na casa do Povoado,

Vinde adorar o Menino

Lá nas palhinhas deitado…

Etc…

Estava na hora. Tocaram a campainha e, dentro de momentos, filhos e netos estavam connosco para reunião familiar.

Acabou a escrita.