domingo, 23 de dezembro de 2007

A MINHA CRÓNICA DO BCP

O papa, os cardeais e a guarda suíça

Há bastante tempo que pensei escrever uma crónica sobre a crise do BCP, os seus manda-chuvas e os críticos de serviço. Por um lado, não sou entendido em coisas de Finanças ou Economia, e muito menos em questões bancárias. Mas por outro, uma tentação persistente vem minando o meu espírito, incentivando-me a entrar no combate, ao perde-ganhas, pela negativa, já se vê, pois mais não sei.

Em dado momento começo a escrever, cheio de genica e, logo a seguir, deito uma olhadela para as novas páginas dos noticiários, e estatelo-me ao comprido!

Depois de vários fracassos, comecei a ler os comentários dos leitores às notícias e ainda os comentários feitos, simultaneamente aos comentaristas de serviço e tudo serviu apenas e só para, mais uma vez, me baralhar.

A partir de certa altura, resolvi guardar em memória todas as notícias que me vinham à mão e respectivos comentários, na intenção de, chegado o momento, aplicar a minha capacidade reflectiva e ver o que podia fazer…A ideia parecia interessante.

Tempo perdido. Há momentos, descobri que o folhetim ainda vai muito longe do fim, que é como quem diz, ainda agora a procissão vai no adro!...

Como é triste, o que está passando no B. C. P, desde os empréstimos por baixo da burra para golpadas mal sucedidas, até ao apego ao poder de certas figuras carismáticas, e à guerra fratricida entre poderosos e sábios que deviam dar ao ZÉ uma lição de entendimento, de gestão acertada, de isenção, em suma, uma lição de profissionalismo e moral, coisas que tanto apregoam aos trabalhadores que «orientam» e cumprem horários com salários bem inferiores e, na prática não aplicam…ou não sabem, ou a sua concupiscência não deixa!

Hoje, os periódicos de referência diziam que saia fumo branco, com a escolha do novo papa. Claro, com letra pequena, aquele que irá papar o maior salário do B. C. P. durante uns tempos, preparando atempadamente a sua choruda reforma para daqui a uns tantos anos de dificultosos e insalubres trabalhos!

Parecia tudo muito bem encaminhado, quando alguns cardeais, também com minúscula, possivelmente da facção PSD, resolveram soprar no trombone que o novo cardeal indigitado era do PS e o governo, que é deste agrupamento, ficaria dono desta porcaria toda e não deixaria comer mais ninguém! Ou há moralidade ou comem todos, mesmo que seja porcaria!

A partir daqui, não me atrevo a adivinhar o que virá a seguir. Deixarei isso para a guarda suíça, os comentaristas encartados cada vez mais a perder o seu aprumo, cada vez mais agressivos, cada vez menos adivinhadores, cada vez mais lançadores de papagaios para os ares…

Se tiver disposição e paciência para isso, ainda hei-de seleccionar uns tantos desses papagaios, puxando-lhes pela guita e fixando-os estrategicamente ao papel, para que o ZÉ, já que mais não pode fazer, neste país de misérias, consiga ao menos desopilar por uns momentos…

Tudo o que aconteceu até aqui e veio a lume na C. S. já dá para umas quantas gargalhadas. Oxalá não me falte inspiração, porque não queria ser eu sozinho a fungar para dentro…

O B.C.P. lá se vai arrastando no meio das notas e das acções, lamaçal fora, aos trambolhões, dando guarida e lucro a uns quantos…não sei até quando. Pobres de nós!

sábado, 22 de dezembro de 2007

Ao correr da pena...


PRAXES E PRAXISTAS

Há algum tempo que tentava a arranjar disposição para escrever duas larachas sobre as praxes e os praxistas. Não foi fácil.

Ainda agora não sei se consegui o que queria.

Sei que, de vez em quando, lá vem a Comunicação Social, sempre ela, a dar mais uma notícia escabrosa sobre o tema. Uma delas, talvez não a última, explicava como uns praxistas tinham convencido um praxado, numa universidade da Província, a atirar-se, de cabeça para baixo, num escorrega que finalizava num pequeno lago com fundo de cimento ardilosamente coberto de lama.

Era suposto isto ser uma graça e sem ofensa, mas as contas saíram furadas e o desgraçado acabou por partir uma vértebra e ficar paralítico da cintura para baixo!

Há tempos, uma brincadeira da praxe, consistia em atirar um caloiro ao ar e apará-lo nas mãos estendidas de colegas mais velhos Uma rapariga de dezanove anos, caiu sobre um entrelaçado de braços frouxos, fracturou a coluna e ficou inutilizada para toda a vida.

Aqui há uns dois anos, uma caloira universitária duma universidade provinciana, apresentou queixa em tribunal, contra uma tropelia de tipo mais ou menos erótico, a que teria sido brutalmente coagida por um grupo de praxistas da treta.

E assim por diante.

O interessante, nestes casos, para não citar tantos outros que têm vindo a lume, nos últimos anos, é que nunca se chega a qualquer solução para acabar com estas macacadas que muitas vezes não são inócuas, chegando a ser ofensivas da integridade física, para não falar da integridade psicológica das vítimas.

Os estudantes do segundo ano das universidades, os «semis» ou semi putos, acham interessante a vingança pelo que passaram no ano anterior, massacrando os novos caloiros.

Os juízes encontram sempre atenuantes para não darem castigos exemplares, e os reitores e conselhos directivos sentem-se incapazes de tomar decisões sobre matérias em que eles próprios, na sua juventude foram exímios praticantes e depois francos contemporizadores e às quais dão sempre a sua aprovação…quem sabe se com medo de perder popularidade entre a «malta estudantil» que gosta da brincadeira e que também vota, afinal.

Mas todas as brincadeiras têm limites. Fui, nos meus tempos de caloiro, em Coimbra, «mobilizado» uma vez para uma «latada» e lá tive que ir, como muitos outros, com o fato virado do avesso e a cara pintada, em cortejo pelas principais ruas da cidade, levando um cartaz, na ponta de uma cana, já não me lembro sobre quê. Porém, um colega muito refilão e que ainda por cima era filho de um catedrático, foi mobilizado para uma hora de gozo numa república transformando-se num autêntico bombo de festa, e onde, para despedida, lhe mandaram lavar um penico, repetidas vezes, disponibilizando-lhe uma vassoura, um esfregão e detergente, chateando-o sempre, no fim de cada operação:

-Você acha que isso está bem lavado? Isso ainda não está bem lavado! Tem que lavar outra vez!

Ao fim de quatro ou cinco lavagens, com o caloiro quase a ter um ataque de nervos, perguntavam-lhe, descaradamente:

-E agora, continua a achar que já está bem lavado?

-Claro que está bem lavado!

-O caloiro tem mesmo a certeza? Acha que está mesmo bem lavado?

-Tenho a certeza absoluta!

-Então, vamos prosseguir. O caloiro garantiu que sim…Encha o penico com água!

E o infeliz, encheu, sem suspeitar de nada.

-Agora beba!

E durante cinco minutos, foi um pratinho de ameaças, com insistências e negativas, com insultos à mistura, que caloiro é besta, é pior que bicho, destribe-se, não merece confiança naquilo que diz, é um incompetente, vai ficar retido na república até amanhã para nova lavagem e novo interrogatório, etc., etc..

No final tudo acabava em beleza, se o caloiro não dava a casca, pois caso contrário, faziam-lhe a vida negra. Se o caloiro era porreirinho, até ia para a farra ou saia dali com alguma bêbeda das grandes, depois de dar largo divertimento àqueles praxistas de serviço… semi putos, putos, e por aí acima, até aos veteranos e ao dux veteranorum, o estudante com mais anos de matrícula, cursando naquela altura, e que presidia a muitos actos da praxe académica. Tive dois colegas que foram dux veteranorum, com dezanove, vinte matrículas, que tratavam por tu alguns dos catedráticos de quem haviam sido colegas e ficaram célebres na Universidade, na cidade e até no País, pelas suas pilhérias, anedotas e outras excentricidades. Apesar disso, com a maior parte dos anos passados nas praxes e nas pândegas…chegaram a formar-se em Medicina e exerceram!!! Longe estávamos dos tempos vindouros com números clausus e notas de ingresso de dezanove e vinte!

Não quero deixar de referir, já agora, o rapanço do cabelo, as palmatoadas e as mobilizações pelas trupes, depois do toque da cabra como era chamado o sino da Torre da Universidade. Os caloiros não podiam andar na rua, depois das seis horas da tarde, ouvido o toque da cabra.

Na Cidade dos Doutores, esses rituais eram, naquela época, quase lei. Os caloiros, mais que os bichos, como eram chamados os alunos do liceu, passavam as passas do Algarve. Os grelados e os fitados, por outro lado, eram quase tomados por doutores, embora muitas vezes as fitas não correspondessem ao êxito escolar. Era tal a influência da praxe, com todas as suas histórias e anacronismos, na vida escolar coimbrã que, uma vez, um catedrático de Letras que se deslocara de comboio a Coimbra para fazer uma conferência, foi abordado pelo trinca bilhetes da estação de caminho de ferro que lhe segredou, como a prestar-lhe um grande serviço:

-Ó senhor doutor, se é caloiro fuja, que ainda há um bocadinho passou ali uma trupe e rapou o cabelo a um…

Apesar de todas essas patetices, não tenho ideia de ninguém ficar fisicamente inutilizado, nem haver memória de queixas ao tribunal. É preciso ensinar os jovens de hoje a brincar, sem consequências trágicas. E, se isso não é já possível, então é preferível acabar com as praxes estúpidas, perigosas, destruidoras da personalidade e da sã camaradagem…ou, em última análise, com todas ao mesmo tempo, em qualquer estabelecimento de ensino.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Os fósseis dos nossos primeiros antepassados

O COMENTÁRIO

Os fósseis dos nossos primeiros antepassados descobertos e identificados na Europa, em Kostenki, nas margens do Don, são alvo, hoje, de uma publicação dos 15 cientistas envolvidos, na Revista Science, segundo o jornal Público.

Espectacular!

Foi mais fácil, apesar do clima e dos quarenta e cinco milhares de anos passados, estudá-los, que abrir o túmulo de D.Afonso Henriques para eliminar de vez as dúvidas que persistem sobre as características físicas do Fundador da Nacionalidade e mesmo sobre a identidade das ossadas nele contidas que alguns contestam!

Coisas miudinhas da enorme burocracia portuguesa onde o oportunismo e a falta de bom senso campeiam e muito funcionário «responsável» é o reizinho do seu chinelo!

(Comentário enviado ao Público.pt e publicado, em 14-1-2007)

A NOTÍCIA

Paleontologia
Fósseis confirmam que homens modernos já estavam na Europa há 45 mil anos
12.01.2007 - 19h48 PUBLICO.PT

Os humanos modernos saíram de África e chegaram à Europa, pelo menos, há 45 mil anos, afirma um estudo de uma equipa internacional coordenada pela Academia Russa de Ciências e pela Universidade do Colorado, em Boulder.

As conclusões basearam-se na análise de pedras, ossos e utensílios encontrados debaixo de antiga cinza vulcânica em Kostenki, nas margens do rio Don, na Rússia, disse John Hoffecker, da Universidade do Colorado, em comunicado no site da instituição.

Naquele local, onde os cientistas acreditam ter encontrado os primeiros vestígios do homem moderno na Europa, foram também identificadas conchas perfuradas e marfim gravado que poderá representar uma pequena fugira humana. Esta será a primeira peça de arte figurativa do mundo, segundo John Hoffecker.

“A grande surpresa é a presença tão antiga de homens modernos num dos locais mais frios e secos na Europa”, acrescentou. “Este é um dos últimos locais que esperaríamos ver ocupados por quem viesse de África”.

“Ao contrário dos Neandertais, os humanos modernos tinham a capacidade para criar novas técnicas para se adaptarem aos climas frios e à escassez de alimentos”, disse o investigador. “Os Neandertais, que terão ocupado a Europa ao longo de mais de 200 mil anos, parecem ter deixado a porta aberta para os humanos modernos”.

Os resultados da investigação – que envolveu 15 cientistas - são publicados na edição de hoje da revista “Science”.

COISAS DO ARCO-DA-VELHA

A ENTREVISTA, OS RECADOS E O LUCRO

Já várias vezes escrevi sobre recados, via Comunicação Social, a este ou àquele. Mas desta vez, lembrei-me de um caso ocorrido há uns tempos atrás, já pouca gente se lembra. O Inspector Geral da Administração Interna, não tendo coragem para expor directamente ao Ministro, os seus próprios problemas, resolveu mandar uns recados via entrevista a um distinto semanário, como agora vai sendo hábito, no aproveitamento simultâneo que este vem fazendo na capitalização em seu proveito, do descontentamento alheio…

Como resultado imediato, conseguiu por todos os sindicatos, organizações profissionais, partidos da oposição e outros, contra o desgraçado Ministro, desta forma obrigado a vir a terreiro quando não contava. Mas a vida de político é isto mesmo: bombos e festas por um lado, picardias e traulitadas por outro. «Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele», como diz o povo, na sua infinita sabedoria que cada vez aprecio mais.

Bem vistas as coisas, entrevistas e recados é o que está a dar na Comunicação Social. Geralmente, com este sistema mata dois coelhos, de cada vez. Por poucos patacos, enche umas boas páginas com temas que eventualmente vão agradar aos leitores superficiais e coscuvilheiros e, por via disso, consegue aumentar o número de leitores que eventualmente começava a decair…

Na realidade, a técnica para obter uma entrevista deste tipo tornou-se quase um lugar comum e nem necessita de estudos ou pesquisas. Com uma sociedade cada vez mais virada para o lucro fácil e o confronto de ideias superficiais -ou parvoíces – a propósito de tudo e de nada, com a correlação séria entre os factos e as notícias (que dá trabalho, inegavelmente) cada vez mais a perder terreno para a bisbilhotice e a intriga que todo o mundo apreende e explora num ápice sem qualquer esforço…a entrevista rasante e fofoqueira tem a vantagem de chegar facilmente a toda a gente e, ao mesmo tempo, servir ao entrevistado, via imprensa cúmplice, para escoamento de prosápias, ou de ressentimentos, ou de acusações aos inimigos de ocasião, mesmo quando convenientemente embrulhados.

Alguém, portanto, sai sempre sujo no retrato feito neste tipo de entrevistas. Provavelmente, em muitas delas, será esse o objectivo subjacente na artimanha jornalístico-informativa, o que é sempre deplorável. Pode ser quem está no ponto de mira, ou até vir a ser o entrevistado, por simples ricochete.

Mas numa coisa tenho que tirar o chapéu à Comunicação Social: saber tirar lucro a dobrar e nunca perder a embalagem para a próxima. Faz-me lembrar uma certa definição que li uma vez, há muitos anos, no Borda de Água:

«Judeu: indivíduo que, com uma pedra, mata dois coelhos…e ainda quer a pedra!»

Os judeus que me perdoem.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

76 cêntimos por dia!


A BICA, O SALÁRIO MÍNIMO NACIONAL E O BENFICA

C. M.: Salário mínimo sobe 76 cêntimos por dia…

Em termos práticos dá para pagar uma bica e uma carcaça na padaria…

«O título é muito interessante! O dinheiro atribuído é insignificante. Mas podiam, já agora, colocar outro ainda mais sugestivo: 9,5 cêntimos por hora de trabalho e assim por diante. Então o câmbio oficial de referência para os senhores é a bica? Estavam desgraçados os pobres do S. M. N., se regessem as suas compras por aí! Eu ganho mais e tomo café em casa, de marca branca. Ou não tomo!»

Foi este o meu comentário ao C.M., limitado aos caracteres que me permite. Mas apetecia-me continuar, pelas duas razões referidas: a primeira, porque o título é, propositadamente redutor; a segunda, porque o termo arranjado para comparação, no subtítulo, é simplesmente anacrónico, do meu ponto de vista.

Efectivamente, todas as frases são factualmente verdadeiras mas, como sempre, sujeitas a diversas interpretações, portanto controversas. É bem difícil, concedo, ser-se jornalista a cem por cento de ética, em certas notícias.

Neste caso, o senhor jornalista redactor, quase tenho a certeza, está incluído, no mínimo, na classe média, com ordenado várias vezes o do S. M. N., habituado à bica, como o pobre à água da torneira, quando a tem. Por isso a escolha da bica, como termo de comparação, ou letra de câmbio, poderá servir para a classe média já que, para os mais necessitados, a bica é um manjar dos deuses, em fim de festa! Também há aqueles que se deleitam com proventos de muitos salários mínimos; esses bebem muitas bicas ao dia…e outras coisas muito mais caras.

Mas pode colocar-se a questão de outra maneira mais favorável ao jornalismo de notícia fácil. Quem ganha o salário mínimo não tem cheta para comprar o Correio da Manhã, nem uma só vez por mês, se for económico, tiver senso comum e não viva às custas da família. Quem compra o jornal é, no mínimo, um membro da classe média e muito poucos, no nosso país, o compram, mesmo assim, diariamente.

Poderei admitir que, provavelmente, mesmo inconscientemente, a notícia foi preparada para eles, para os que têm dinheiro para o vício da bica? Já agora, não seria adequado referir também outros vícios da classe média, como por exemplo o tabaco? Para quantos cigarros dá o aumento diário do S. M. N.?

Para o próximo ano, só para dar apoio ao autor da notícia, vou mandar uma carta ao Governo, com cópias aos Sindicatos e à Cip, propondo o aumento do S. M. N em número de bicas, e ainda uma outra às redacções dos jornais nacionais, afim de prepararem antecipadamente o comentário adequado …Refiro-me, claro está, às bicas da tasca da esquina, que as das estações de serviço das auto-estradas não se destinam ao Zé Pagode, mas à classe média alta portuguesa, ou aos que se preocupam em imitá-la, aos sábados e domingos!

Mas nem só de bicas ou de cigarros, vive o homem, ainda que muitos abusem disso! E estes não é à custa do S.M.N., de certeza…

Então como deveria ter sido redigida a notícia, para ser totalmente isenta? Nem eu sei. Só sei que, se fosse eu a redigi-la, não teria incorrido no exagero ridículo da bica, um atentado e um gozo, mesmo a baixo custo, à pobreza escondida que por aí grassa.

Agora, vira o disco e toca o mesmo...

Como resido nos contrafortes ocidentais de Lisboa, tenho fatalmente que passar pela Segunda Circular, quando me dirijo à Gare do Oriente ou por aí. E, se é sábado ou domingo de tarde, tenho de certeza que sofrer o meu Calvário, com a afluência dos furiosos da bola que ocupam a estrada a pé, vindos de metro, de carro, de autocarro, de trotineta, ao Estádio do Benfica!

Gostaria de saber como é que muitos deles fazem esticar o S. M. N. de forma a poder entrar na sua famosa Catedral da Bola e desfrutar do desafio, prévia aquisição dos barretes, cachecóis, camisolas, bandeiras, chaveiros, carteiras, cornetas e bebidas com as cores ou a águia do Glorioso estampada, este ano quase de certeza destinado a disputar com os leões do Sporting o Título Nacional de Futebol da 2ª Circular, na análise de um perspicaz comentarista desportivo da nossa praça.

Longe vão os tempos em que o Benfica dependia, em boa parte, do pé descalço nacional que fornecia as palmas, os vivas, os jogadores a pataco e algumas cenas com piropos indecentes e pancadaria à mistura, a que não seria estranha a utilização da pinga a martelo, para animar as hostes, e que por vezes até seria em excesso. Daí que o Benfica tenha sido chamado, pelos inimigos vizinhos mais figadais (futebolisticamente falando), o Clube dos Homens do Garrafão! Até que o Benfica destronou o Sporting dos Violinos e começou a ganhar campeonatos em série e até duas taças de Campeão da Europa, dizendo então, orgulhosamente, os milhões de adeptos que, quem não era do Benfica, não era bom português, nem bom chefe de família…

Nessa altura, nem sequer havia salário mínimo! Nem muitas outras necessidades imprescindíveis.

Coisas incompreensíveis desta vida… mais curta que comprida, como diz o Zé.

Deixemos, pois, o Salário Mínimo Nacional para segundas núpcias, nas imediações da Segunda Circular. Muito mais importante aqui é o Futebol que talvez consiga equilibrar um dia o nosso orçamento, com a exportação de muitos Figos, Decos, Cristianos, Tiagos, Simãos, Sousas, Costas e tantos outros talentos do Coicebol, como dizia, há cinquenta e tal anos atrás, um saudoso professor de Português que eu tive, na realidade um cegueta incapaz de prever o futuro grandioso do País nesta disciplina onde o desgraçado Salário Mínimo Nacional é cruelmente ridicularizado todos os dias até à exaustão.

Ali mesmo ao lado do Estádio do Glorioso, com os seus 60.000 lugares ocupados a peso de ouro (não sei como!) nos dias importantes, fica o maior Centro Comercial Português, dentro do qual a sua loja âncora -o Hipermercado Continente –faz diariamente o seu negócio milionário. Nas saídas das suas caixas registadoras, de tempos a tempos, almas dedicadas do Banco Alimentar Contra a Fome pedem pacientemente aos clientes a dádiva de alguns géneros alimentícios para ajuda daqueles que, muito provavelmente, nem salário mínimo têm, nem bica, nem nada! …

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Crónica do Dragão-e


Um fim-de-semana no Porto

Fui ao Porto nas três horas do costume, viajando certinho e calmo pela autoestrada 1, sem qualquer novidade. O pior bocado foi depois de Coimbra e de Aveiro, com a fila interminável de camiões, por vezes ultrapassando-se mutuamente e causando alguns engarrafamentos desnecessários, até à chegada a Gaia. Optei pela Ponte do Freixo e lá fui embalado na fila tripla, passando ao lado do Estádio do Dragão-e, encostado ao grande Centro Comercial Dolce Vita, coisa que não há em Lisboa, numa associação contra natura incompreensível para o cidadão comum…Dali ao lado sai a via rápida para o Mercado Grossista e o Município de Gondomar, o do Major. Um pouco acima avista-se a famosa Torre das Antas, como um charuto azul envidraçado.

Depois do almoço, no sábado, lá foi a família toda a caminho de Gaia, onde a Carolina, acompanhada por colegas de curso, representava uma peça de teatro de Alexandre O´Neil, no Auditório Municipal, em cartaz há cerca de quinze dias. A miudagem, adorou. E, no final, resolveu pedir autógrafos aos artistas, visitar os camarins e ir ao palco ver a engrenagem do pano e os adereços utilizados na representação. Assim se passou a tarde.

À noite, lá estava na TV o Dragão-e (campeão-e de Portugal, da Europa e do Mundo não sei quatas vezes), vomitando fogo contra o inimigo Vitória de Guimarães, enquanto nos deliciávamos com as francesinhas, a minha montada num bife tenrinho e encharcada num molho acre e picante espesso bem agradável que decidi acompanhar com dois finos da ordem. Não consegui decifrar a receita. Também um pouco porque não pude concentrar-me, com o pessoal a gritar Porto! Porto! de vez em quando, só tendo acalmado com o final de «dois e zero»…Grande vitória, carago!

Já passava das dez quando saí com a família da Galiza, esta ali ao virar da rua Júlio Diniz, decidido a retirar o carro do parqueamento particular onde o havia deixado, por absoluta falta de espaço na rua. Lá, no Porto, como em Lisboa! Tirando a pronúncia, claro, de que os naturais se orgulham, pois dali tomou nome Portugal, como repetem a cada passo, para dar ânimo!

Com o problema dos «gangues» da noite, após a desvairada propaganda da Comunicação Social, cheguei a estar um tanto preocupado, que uma pessoa não é de ferro. As diversas entradas do parqueamento estavam fechadas, apesar de várias advertências em grandes parangonas referindo o encerramento às vinte e quatro. Num vão de porta, um segurança abrigado por detrás de uma porta envidraçada, lá veio esclarecer-nos de que a única entrada do Parque, aquela hora, era pela rampa de circulação dos carros e, rápido como o vento, retirou-se para o interior do edifício, que o frio começava a apertar. Lá andamos a procurar a entrada na zona mal iluminada, até que conseguimos chegar aos automóveis, finalmente. O parque era grande, com três pisos recheados de colunas, tantas e tão juntinhas como eu nunca tinha visto, (nem na Mesquita de Córdova!) dificultando em extremo as manobras, e com uma calha de saída bem apertadinha. Não se via vivalma. Não se ouvia uma mosca (também aquela hora e com aquele frio, era difícil). O isolamento era total. A sensação de nos encontrarmos na Nova York de Al Capone esteve presente nos nossos espíritos e só desapareceu quando nos vimos no exterior do tétrico edifício… E sair sem um arranhão na chapa foi uma vitória de estalo.

Ainda pensei, por um momento, torcer o volante do carro para os «Áliados», para ver o novo arranjo urbanístico da praça-avenida, marca R.R., que desconheço, mas lembrei-me a tempo de que estava lá instalada a maior Árvore de Natal da Europa, carago! Já em casa, tive a confirmação de que o pessoal da Invicta tinha andado por lá até às tantas, e o que evitou os engarrafamentos no local foi o desafio do FCP ser à noite!

No domingo, depois de um almocinho leve e sem bebida alcoólica, meti-me a caminho para Lisboa onde cheguei sem novidade. E ao abrir o portátil, cá tinha a minha dose de mails para ler e responder.

A vida é cheia de banalidades e de rotinas. Esta crónica também. Hoje não deu para mais.

Lagartixas com os dias contados?

O presente envenenado…


É claro que podemos sempre, em tudo o que se faz -e o que se não faz -ver um presente envenenado!

Lembro-me de um colega que tinha uma mulher que era uma jóia e lhe aturava todas as maluqueiras, e de quem ele suspeitava que lhe dava pastéis para envenená-lo! Um dia chegou mesmo a visitar-me para ver se, muito em segredo, metia uma cunha ao director do Laboratório de Polícia Científica que tinha sido meu professor de Química Orgânica, afim de mandar investigar com brevidade um pastel que guardava religiosamente num frigorífico! Acabou numa esquizofrenia muito acentuada e faleceu com um AVC provavelmente acelerado por essa e outras manias que não conseguia ultrapassar.

Postos casos extremos como este, penso que devemos, habitualmente, começar por tomar como normal aquilo que vemos e depois ir corrigindo as nossas opiniões sem a pretensão de antecipar o futuro, a não ser naqueles casos de evidente falta de senso...

Vem isto a propósito (ou não), de um mail contendo um vídeo que um amigo me enviou, todo escandalizado com o seu custo incrível, de pura propaganda turística a uma gigantesca obra em projecto prestes a ser aprovado, para descanso e lazer de nababos, a construir em terras quilométricas, de protecção ambientalista feroz e concluindo, decidido:

-Como é possível?

No entanto, achei o custoso vídeo uma preciosura e também uma espectacular obra de artista de marketing, já se vê! Para uma obra de milhões, prevendo turistas aos milhões e com muitos milhões, é necessário, nos dias de hoje, um vídeo de milhões! E não de tostões!

Aqui não está o mal.

O mal, acredito piamente, é que vão à vida muitas lagartixas da zona, apesar de todos os cuidados levados em conta e de todos os protestos havidos e para haver.

Se até nós, quando mijamos para o chão, destruímos o micro ecossistema local de algum formigueiro que vivia feliz até à nossa chegada!...

Como em tudo o que se faz, há sempre um verso e um reverso e, na maior parte dos casos, só com muito
bom senso se podem pesar os benefícios e os prejuízos, o que nos permite seguir em frente sem remorsos.

O ideal seria podermos manter sempre tudo aquilo de que gostamos e aumentá-lo até ao infinito, sem ceder nada em troca...mas isso é impossível! E, na minha óptica, a vida humana (e, se possível só depois, a sua qualidade) deve ter sempre, sempre, prioridade sobre as coisas que nos rodeiam e sobre os outros bichos.

Mas as decisões, todos sabemos que nem sempre são fáceis de tomar. E cometem-se muitos erros, pelo meio.

Só para acabar, cá vai esta:

Nos finais da Segunda Guerra Mundial e nos anos que se lhe seguiram, houve uma tentativa de acabar com a malária, utilizando DDT que tinha uma eficácia tremenda sobre o mosquito Anhophelles, o veículo do terrível mal. Os resultados foram espectaculares e pouparam-se muitos milhões de vidas, chegando a pensar-se que seria questão de uns poucos anos até erradicar a doença da face da terra! Ao fim de algum tempo, porém, vieram as contra indicações ao DDT -para o meio ambiente e especialmente para o homem -com a O.M.S. a proibir terminantemente o seu uso maciço e, posteriormente, até nos insecticidas caseiros dos países civilizados. Desde então para cá, a malária não só não regrediu, como ganhou terreno nessas zonas, apesar de todos os esforços, e anualmente morrem largos milhões de pessoas nos países afectados, sem que a comunidade em geral ou os ambientalistas protectores das lagartixas e das aves raras em particular, se preocupem muito com isso, pois é lá um problema dos selvagens e do terceiro mundo...

É que na Europa, onde somos muito saudáveis e felizes, praticamente não existe malária, devido aos cuidados tidos com os arrozais e à secagem quase total dos poéticos pântanos do antigamente e seus fantásticos ecossistemas, feita quando ainda não havia tantos ecologistas de serviço!...

Onde é que eu vi, ou li, que as armas de arremesso são quase sempre de dois bicos?

Um abraço, amigos !